Tribunal de Justiça de MT
Banco Vermelho transforma espaço do Judiciário em chamado pela vida das mulheres
Publicado em
9 de março de 2026por
Da Redação
Um banco gigante vermelho, instalado logo na entrada do Palácio da Justiça, em Cuiabá, tornou-se símbolo de memória, alerta e compromisso. Mais do que um objeto, ele representa vidas interrompidas pela violência e um apelo para que nenhuma mulher sofra calada. A instalação marcou a abertura da 32ª Semana da Justiça pela Paz em Casa, realizada nesta segunda-feira (09), às 9h30.
A mobilização integra a campanha nacional promovida pelo Conselho Nacional de Justiça, que convoca tribunais de todo o país a intensificarem o julgamento de processos de violência doméstica e familiar contra a mulher e a fortalecerem ações de prevenção e conscientização.
A idealização e condução do projeto em Mato Grosso são da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cemulher-MT). Ao abrir as falas da solenidade, a coordenadora, desembargadora Maria Erotides Kneip, agradeceu o apoio institucional da Presidência. “Eu queria, em primeiro lugar, agradecer ao nosso presidente, desembargador José Zuquim Nogueira, por nos permitir isso. É ele que tem dado todo o apoio para que o Poder Judiciário cresça na valorização dos direitos humanos das mulheres”.
Ao lembrar que a cerimônia ocorre logo após o 8 de março, a desembargadora convidou todos à reflexão. “É o dia que nós precisamos e devemos pensar muito no que nós estamos fazendo para que as mulheres de Mato Grosso não morram porque são mulheres”.
Maria Erotides explicou que a instalação do banco, política pública prevista na Lei nº 14.942/2024, transforma o espaço físico em um ponto permanente de conscientização. “A violência contra a mulher é uma violação de direitos humanos. A ideia do banco é ter um espaço para que aqui nós possamos assentar e refletir, levantar e agir”.
Em um dos momentos mais emocionantes, ela relacionou a cor vermelha ao significado da vida e à urgência da causa. “O vermelho é a cor do sangue das vítimas da violência contra a mulher. É a cor do feminicídio. Mas é também a cor da vida, durante o nascimento. Nós precisamos lutar para que nossas mulheres não morram. Nós precisamos lutar para que nossas mulheres vivam com dignidade”.
A desembargadora também destacou a importância da presença feminina nos espaços de decisão. “Hoje o Poder Judiciário tem 351 magistrados, desses 129 são juízas mulheres. Somos 39 desembargadores no segundo grau e 13 somos desembargadoras. Nós precisamos de mulheres nos espaços de poder. Primeiro porque somos iguais em direito, depois porque conhecemos a realidade de quem sangra todos os meses”.
Após a fala da coordenadora, o presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, desembargador José Zuquim Nogueira, compartilhou reflexões pessoais sobre sua trajetória e o compromisso institucional com o enfrentamento à violência doméstica.
O presidente ressaltou a gravidade do problema. “Os números são alarmantes no nosso Estado. Nós todos fomos criados em um sistema machista. E a violência não é só a agressão física. Ela se apresenta de várias formas”.
Zuquim também anunciou a intenção de fortalecer a estrutura de enfrentamento à violência doméstica. “É um trabalho demorado, de formiguinha. Eu pretendo, até o final da minha gestão, criar mais varas de combate à violência doméstica, dar oportunidade para que mais colegas magistrados se sintam preparados para esse enfrentamento”.
Símbolo internacional de enfrentamento ao feminicídio, o Banco Vermelho passa a ocupar de forma permanente o espaço do Judiciário mato-grossense como convite à consciência coletiva. Ao lado da instalação, também foi lançada a campanha “Eu Digo Basta!”, promovida pelo Núcleo de Atendimento a Magistradas e Servidoras Vítimas de Violência Doméstica e Familiar – Espaço Thays Machado, ampliando o compromisso institucional com acolhimento e proteção.
Autor: Flávia Borges
Fotografo: Josi Dias
Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT
Email: [email protected]
Tribunal de Justiça de MT
Avanços no papel e entraves na prática mostram que a inclusão ainda carece de efetividade
Published
7 horas agoon
18 de abril de 2026By
Da Redação
Apesar da existência de um arcabouço jurídico avançado, a garantia de direitos às pessoas com deficiência ainda enfrenta entraves concretos para sua execução. A avaliação foi apresentada pela advogada doutora Jennyfer Bathemarque durante a palestra “A Pessoa com Deficiência no Sistema de Justiça: Direitos, desafios e o papel do Judiciário na efetivação da inclusão”, realizada dentro da programação do evento “TJMT Inclusivo: Autismo e Direitos das Pessoas com Deficiência”, realizado na quinta-feira (16), na Igreja Lagoinha, em Cuiabá.
A advogada conhece na pele as dificuldades de uma mãe atípica e da necessidade de recorrer ao sistema de Justiça para garantir que o amor de sua vida, seu filho, quando ainda um bebezinho de seis meses, pudesse ser submetido a uma intervenção cirúrgica cardíaca de alta complexidade.
Ao aprofundar a reflexão, a palestrante adotou um tom crítico ao provocar o público sobre a distância entre o que está previsto na legislação e o que, de fato, é entregue à população: o que determina a “Lei Berenice Piana” quanto à responsabilidade dos municípios na proteção das pessoas com autismo?
Segundo ela, o país não carece de normas, mas de efetividade. “Temos um arcabouço jurídico robusto, mas que ainda falha na execução. O direito existe no papel, mas não chega com a mesma força na vida real de quem precisa”, pontuou.
Na avaliação da advogada, essa desconexão se reflete em violações recorrentes: negativa de terapias por planos de saúde, ausência de profissionais especializados nas escolas, falta de atendimento adequado no SUS, escassez de especialistas, longas filas de espera e entraves no acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC). “O que vemos é um sistema que empurra as famílias para decisões difíceis, muitas vezes abrindo mão de estabilidade financeira para tentar garantir o mínimo de dignidade”, alertou.
A crítica se intensifica quando o acesso a direitos passa, quase sempre, pelo Judiciário, evidenciando um cenário que exige reflexão: direitos básicos ainda dependem de ação judicial para serem garantidos, enquanto a morosidade processual compromete tratamentos que não podem esperar.
A advogada cita ainda que se soma a isso a exigência excessiva de laudos, que acaba se tornando mais uma barreira de acesso, além da falta de uniformidade nas decisões, gerando insegurança jurídica. Nesse contexto, também se coloca em debate a própria capacidade do sistema de Justiça de compreender, em sua complexidade, as dimensões clínicas e sociais que envolvem as pessoas com deficiência.
Ela também chamou atenção para o que classificou como distorções estruturais: por que a judicialização deixou de ser exceção e passou a ser regra? Por que decisões ainda se baseiam, muitas vezes, em critérios exclusivamente formais? Onde está o olhar multidisciplinar? E por que, mesmo após decisões favoráveis, ainda há descumprimento, dependência de bloqueios judiciais e um ciclo contínuo de novas ações?
Para Jennyfer, esse cenário evidencia uma inversão preocupante. “O que deveria ser resolvido administrativamente tem sido transferido ao Judiciário. Isso revela não apenas a fragilidade das políticas públicas, mas também a sobrecarga de um sistema que acaba sendo acionado para garantir o básico”.
A advogada também fez questão de elogiar o serviço prestado por meio do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), com destaque para a realização do evento TJ Inclusivo, que, segundo ela, evidencia o compromisso institucional com a promoção da acessibilidade e da inclusão.
Para a advogada, iniciativas como essa ampliam o diálogo com a sociedade e, a cada interação, contribuem para uma compreensão mais clara das falhas ainda existentes, auxiliando na promoção de ações mais efetivas, sensíveis e alinhadas às necessidades das pessoas em situação de vulnerabilidade.
TJMT Inclusivo – O projeto reforça o compromisso do Poder Judiciário de Mato Grosso, por meio da Comissão de Acessibilidade e Inclusão, com o respeito à neurodiversidade e dá cumprimento à Resolução 401/2021 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que dispõe sobre o desenvolvimento de diretrizes de acessibilidade e inclusão de pessoas com deficiência nos órgãos do Judiciário, e à Lei federal nº 12.764/2012 – Lei Berenice Piana, que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.
Autor: Patrícia Neves
Fotografo: Alair Ribeiro
Departamento: Coordenadoria de Comunicação Social do TJMT
Email: [email protected]
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