Ministério Público MT
Da potência agrícola à potência industrial: o próximo salto de MT
Publicado em
16 de março de 2026por
Da Redação
Agregar valor ao que o estado já produz pode ampliar empregos, fortalecer a arrecadação pública e abrir uma nova etapa de desenvolvimento econômicoPara quem vive ou acompanha de perto a realidade econômica de Mato Grosso, o sucesso agrícola do estado é evidente. O desafio que se coloca agora é outro: transformar essa potência produtiva também em uma economia cada vez mais capaz de agregar valor ao que produz.Ao longo das últimas décadas, Mato Grosso consolidou-se como um dos grandes protagonistas do agronegócio mundial. O território mato-grossense ocupa posição de liderança na produção brasileira de soja, milho e algodão, além de abrigar um dos maiores rebanhos bovinos do país. Essa extraordinária capacidade produtiva transformou profundamente sua estrutura econômica e colocou a região entre os territórios mais relevantes para a oferta global de alimentos e insumos essenciais às cadeias alimentares. Entretanto, justamente em razão dessa impressionante vocação primária, Mato Grosso ainda convive com um paradoxo que merece reflexão: parte significativa da prosperidade gerada em seu território acaba sendo capturada em outras etapas das cadeias produtivas localizadas fora do estado.A razão é conhecida. A economia regional permanece fortemente baseada na produção de matérias-primas, enquanto parcela expressiva dos bens manufaturados consumidos pela população e pelas próprias cadeias produtivas locais é fabricada em outras unidades da federação. Quando Mato Grosso adquire computadores, móveis, eletrodomésticos, roupas, alimentos industrializados, máquinas ou equipamentos produzidos em outros estados, parte relevante da arrecadação tributária associada à produção desses bens permanece vinculada ao estado onde se localizam as etapas industriais da cadeia produtiva. Em outras palavras, embora o território mato-grossense produza enormes volumes de riqueza agrícola, a etapa de transformação industrial — aquela que agrega valor aos produtos e multiplica empregos, renda e tributos — frequentemente ocorre fora de suas fronteiras.Esse quadro não diminui a extraordinária importância do agronegócio mato-grossense, mas evidencia um desafio estratégico para o futuro regional: ampliar e aprofundar sua base industrial. Industrializar não significa abandonar a vocação agrícola que tornou Mato Grosso uma potência produtiva. Ao contrário, significa levá-la a um novo patamar, agregando valor às matérias-primas produzidas localmente e permitindo que parcela maior da prosperidade gerada permaneça no próprio território.Embora ainda possua uma estrutura fabril em processo de consolidação e diversificação quando comparada às regiões que passaram por processos de industrialização mais antigos no Brasil, Mato Grosso já dispõe de um conjunto relevante de atividades produtivas, sobretudo vinculadas à agroindústria. O setor de alimentos constitui o núcleo mais robusto dessa estrutura econômica. Frigoríficos instalados em diversas regiões realizam o abate e o processamento de carne bovina, transformando o enorme rebanho regional em produtos destinados tanto ao mercado interno quanto à exportação. Essa atividade gera milhares de empregos diretos e indiretos e representa uma base importante da arrecadação tributária vinculada à indústria.Entre os segmentos industriais mais relevantes destaca-se o processamento da soja. Plantas industriais localizadas em cidades estratégicas realizam o esmagamento do grão, produzindo óleo vegetal, farelo proteico e outros derivados utilizados na alimentação humana, na nutrição animal e em diversos processos produtivos. Trata-se de uma etapa importante na agregação de valor à atividade agrícola regional.Nos últimos anos, um novo eixo industrial passou a ganhar relevância crescente: o dos biocombustíveis. Usinas modernas de etanol de milho e unidades de produção de biodiesel vêm sendo instaladas em diferentes regiões do estado, aproveitando a ampla disponibilidade de matéria-prima agrícola. Além do combustível renovável, essas plantas geram subprodutos importantes, como óleo de milho, leveduras e insumos destinados à alimentação animal, ampliando a integração entre agricultura e indústria.Também merece destaque a cadeia do algodão, que possui grande importância econômica. Mato Grosso figura hoje entre os maiores produtores dessa fibra no Brasil, mas parcela significativa da pluma ainda é enviada para outros estados ou exportada para outros países, onde se transforma em fios, tecidos e vestuário. O desenvolvimento de um parque têxtil mais robusto permitiria reter parcela maior desse valor dentro do próprio território.Além da agroindústria, existem atividades produtivas complementares ligadas à fabricação de equipamentos e estruturas utilizadas na própria atividade agrícola. Metalúrgicas e empresas de engenharia produzem silos metálicos, estruturas de armazenagem, implementos agrícolas e componentes mecânicos necessários para o funcionamento das cadeias produtivas rurais. Esse segmento nasceu da própria expansão do agronegócio e demonstra como a agricultura pode estimular o surgimento de novos setores industriais.Outro componente relevante da economia regional é o setor energético, que inclui usinas de geração elétrica e plantas voltadas à produção de combustíveis renováveis. Embora muitas vezes não sejam lembradas como parte da indústria tradicional, essas atividades desempenham papel importante na estrutura produtiva e na arrecadação tributária.Mesmo com esses avanços, a estrutura industrial mato-grossense permanece relativamente concentrada e fortemente associada à atividade agropecuária. Ampliar e diversificar essa base produtiva representa, portanto, um passo decisivo para o desenvolvimento econômico regional. Esse movimento pode ocorrer, em primeiro lugar, pelo aprofundamento das cadeias já existentes. Em vez de apenas produzir soja e transformá-la em óleo e farelo, Mato Grosso pode avançar na fabricação de alimentos industrializados, proteínas vegetais, ingredientes alimentícios e compostos químicos derivados. A cadeia do milho, por sua vez, pode sustentar não apenas a produção de etanol, mas também uma variedade de produtos alimentícios e industriais.A cadeia do algodão oferece oportunidades semelhantes. Em vez de exportar a fibra bruta, a região poderia ampliar a produção de fios, tecidos e peças de vestuário, consolidando uma indústria têxtil mais completa. O mesmo raciocínio se aplica à indústria de máquinas e implementos agrícolas. Como Mato Grosso possui uma das agriculturas mais mecanizadas do planeta, existe espaço para o desenvolvimento de um parque industrial especializado na fabricação de equipamentos agrícolas, peças de reposição e tecnologias de agricultura de precisão.Expandir o parque industrial também abre espaço para setores ligados à tecnologia e à inovação. Nos últimos anos começaram a surgir empresas especializadas em soluções digitais voltadas ao agronegócio, desenvolvendo softwares de gestão agrícola, sistemas de monitoramento por satélite, plataformas logísticas e ferramentas avançadas de análise de dados. Essas iniciativas indicam que Mato Grosso reúne condições para se consolidar como um polo relevante de tecnologia aplicada ao campo.O fortalecimento da indústria também produz efeitos diretos sobre a arrecadação pública. Quando novas fábricas se instalam, ampliam não apenas a base do ICMS estadual, mas também a arrecadação de tributos federais, como o IPI, o PIS e a COFINS, além de impostos municipais, como o IPTU e o ISS. O surgimento de polos industriais tende a gerar novas áreas urbanizadas, estimular o setor de serviços e criar uma rede de atividades econômicas capaz de multiplicar os efeitos positivos sobre a economia regional.Entretanto, a expansão industrial exige enfrentar desafios estruturais relevantes. A logística continua sendo um dos principais obstáculos. Mato Grosso localiza-se no centro do continente sul-americano, distante dos principais portos marítimos e dos maiores centros consumidores do país. Apesar dos avanços recentes na infraestrutura de transporte, o custo logístico ainda representa um fator relevante para muitos investimentos industriais.Um desafio adicional está relacionado à infraestrutura de armazenagem e escoamento da produção. O crescimento da agroindústria exige sistemas eficientes de armazenagem, transporte ferroviário e hidroviário, além de rodovias adequadas para o fluxo de mercadorias.Igualmente crucial é a formação de mão de obra qualificada. Indústrias modernas demandam profissionais com formação técnica e tecnológica. Nesse aspecto, instituições como o SENAI, o SENAR e o SEBRAE podem desempenhar papel decisivo na qualificação profissional.Cursos voltados ao processamento de carnes, tecnologia de alimentos, manutenção eletromecânica, automação industrial, logística, produção de biocombustíveis, processamento de grãos e operação de plantas industriais poderiam elevar significativamente o nível de qualificação da mão de obra disponível na região. Da mesma forma, formações voltadas à indústria têxtil, à produção de fertilizantes, à engenharia de implementos agrícolas e aos processos químicos industriais poderiam preparar trabalhadores para novos segmentos produtivos.A formação profissional voltada aos jovens também merece atenção especial. Programas educacionais destinados a estudantes entre 14 e 18 anos poderiam incluir cursos de programação, desenvolvimento de aplicativos, ciência de dados, inteligência artificial, robótica e automação industrial. Iniciativas desse tipo não apenas preparariam as novas gerações para os desafios da economia digital, mas também poderiam contribuir para transformar Mato Grosso em um polo de inovação tecnológica aplicada ao agronegócio.Ao lado da qualificação profissional, o poder público estadual e os municípios podem adotar medidas concretas para estimular o crescimento industrial. A criação de distritos industriais planejados, com infraestrutura adequada e acesso logístico eficiente, constitui um instrumento importante para atrair investimentos produtivos. Políticas de incentivo fiscal transparentes e previsíveis também podem contribuir para reduzir riscos e estimular novos empreendimentos.Investimentos em infraestrutura logística, expansão de ferrovias e hidrovias, melhoria das rodovias e ampliação da capacidade de armazenagem são igualmente essenciais para reduzir custos e aumentar a competitividade da produção industrial. Parcerias entre universidades, centros de pesquisa e empresas também podem estimular a inovação tecnológica e a criação de novos negócios.Industrializar, em última análise, não se resume à fabricação de bens manufaturados. É o processo pelo qual o potencial econômico se converte em desenvolvimento concreto, multiplicando empregos qualificados, ampliando a arrecadação tributária, estimulando a inovação e abrindo novas oportunidades para as gerações que chegam.Mato Grosso já demonstrou sua extraordinária capacidade produtiva no campo para o Brasil e para o mundo. O desafio que se apresenta agora é dar o próximo passo: transformar essa potência em uma economia cada vez mais capaz de agregar valor àquilo que já produz com tanta eficiência. Se conseguir avançar nesse caminho, o estado poderá inaugurar uma nova etapa de prosperidade, na qual a riqueza gerada no campo se multiplique em inovação, produção industrial e desenvolvimento sustentável para toda a sociedade mato-grossense. Com isso, teríamos um ciclo virtuoso, com a geração de mais recursos públicos para aplicar em educação, saúde, segurança pública e infraestrutura.Márcio Florestan Berestinas – Promotor de Justiça em Sorriso – MT
Fonte: Ministério Público MT – MT
Ministério Público MT
Promotor afirma que Instagram de políticos é laboratório eleitoral
Published
5 horas agoon
18 de junho de 2026By
Da Redação
“O maior laboratório de Direito Eleitoral é o Instagram dos políticos.” A afirmação foi feita pelo promotor de Justiça do Ministério Público do Ceará (MPCE) Igor Pereira Pinheiro durante a capacitação “Integridade em Foco: Intersecções entre Direito Eleitoral, Probidade Administrativa e Responsabilização Criminal”, na tarde desta quinta-feira (18). No painel “Ilícitos Penais e a Improbidade Administrativa: repercussão política e eleitoral”, o palestrante defendeu uma atuação mais estratégica, preventiva e proativa do Ministério Público no acompanhamento das eleições.Ao abordar a atuação ministerial em anos eleitorais, Igor Pereira Pinheiro alertou para a necessidade de os integrantes do Sistema de Justiça ampliarem o conhecimento sobre os tipos penais eleitorais. Segundo ele, o desconhecimento da legislação criminal eleitoral ainda representa um obstáculo para a identificação, investigação e responsabilização de condutas ilícitas durante o processo eleitoral.Na sequência, o promotor destacou que, entre os diversos crimes previstos na legislação, dois merecem atenção prioritária por terem como consequência a cassação do registro, diploma ou mandato. Um deles é o uso indevido de veículos oficiais nos 90 dias que antecedem a eleição. O outro é a distribuição de bens, prêmios, sorteios ou benefícios com a finalidade de promover candidaturas ou influenciar eleitores. Para ele, são práticas recorrentes, presentes em diferentes realidades municipais e que exigem atuação firme dos órgãos de controle.Sobre o tema, enfatizou que essas condutas muitas vezes passam despercebidas, apesar dos seus impactos sobre a lisura do pleito. “Quando a gente fala em crimes eleitorais que cassam diploma ou mandato, evidentemente que estamos diante de situações que deveriam ser prioritárias na nossa atuação fiscalizatória. São condutas que acontecem em todas as comarcas e que muitas vezes passam despercebidas”, afirmou.O palestrante também defendeu uma atuação preventiva, com o acompanhamento das movimentações políticas antes do início oficial da campanha eleitoral. Para ele, a fiscalização não deve se limitar ao período eleitoral, mas começar já na pré-campanha, quando surgem os primeiros sinais de promoção política e possíveis irregularidades. “A pré-campanha é um conceito fluido que depende muito mais do comportamento do pré-candidato do que da norma em si. A partir do momento em que alguém se apresenta como pré-candidato, passa a fazer reuniões, participar de eventos e buscar visibilidade política, ele atrai para si não apenas direitos, mas também todas as restrições e mecanismos de fiscalização previstos na legislação eleitoral”, argumentou.Dentro dessa perspectiva, o promotor de Justiça chamou atenção para a importância do monitoramento de redes sociais, eventos políticos e atos administrativos. Segundo ele, as plataformas digitais se transformaram em importantes ferramentas de investigação, permitindo identificar comportamentos, reunir provas e acompanhar a movimentação de agentes políticos de forma contínua. “O político e o pré-candidato precisam de exposição, precisam divulgar os atos que praticam. Se você tem uma rotina mínima de acompanhamento, consegue identificar comportamentos, registrar provas e perceber situações que muitas vezes ocorrem de forma totalmente aberta, porque já foram naturalizadas”, observou.Ao incentivar os membros do Ministério Público a adotarem uma postura mais ativa e investigativa, Igor Pinheiro defendeu que a atuação eficiente exige curiosidade, iniciativa e disposição para identificar irregularidades antes que produzam efeitos mais graves sobre o processo eleitoral. “Nós somos pagos para duvidar. Nós temos que desconfiar de tudo e de todos, porque só o curioso é que vai descobrir”, afirmou.O promotor ressaltou ainda que os resultados mais efetivos costumam surgir quando o acompanhamento das condutas começa ainda no período pré-eleitoral, permitindo a construção de um histórico de comportamentos capaz de demonstrar eventual abuso de poder. “Os dados mostram que os casos de maior sucesso são justamente aqueles que começam a ser acompanhados ainda no ano pré-eleitoral, permitindo demonstrar uma sequência de condutas e um padrão de comportamento”, reforçou.Ao tratar do uso da máquina pública para promoção política, Igor Pinheiro chamou atenção para o aumento da exposição de possíveis candidatos e para a utilização de perfis pessoais em redes sociais para divulgar ações institucionais. Na avaliação dele, muitas vezes os indícios de uma candidatura se manifestam antes mesmo de qualquer anúncio formal, exigindo atenção dos órgãos de fiscalização.“Na política, muitas vezes o não dito é um sim. Quando começam a apontar alguém como pré-candidato, quando essa pessoa passa a ter uma exposição que antes não tinha e quando há sinais concretos de movimentação política, cabe ao Ministério Público investigar, acompanhar e reunir elementos objetivos. Não podemos esperar que tudo esteja declarado formalmente para começar a fiscalizar”, destacou.O promotor também ressaltou que a fiscalização deve alcançar todos os atores políticos, independentemente de posicionamentos ideológicos ou partidários. Segundo ele, a atuação isonômica é fundamental para preservar a credibilidade institucional e afastar questionamentos sobre eventual perseguição ou seletividade. “A maior estratégia contra qualquer alegação de perseguição ou assédio processual é agir de forma igual contra todos. Se a conduta é irregular, ela deve ser investigada independentemente de quem a pratique. O Ministério Público não pode ter lado político; o lado do Ministério Público é o lado da legalidade”, enfatizou.Ao abordar a corrupção eleitoral, o painelista criticou a realização de acordos penais e defendeu uma postura mais rigorosa na responsabilização dos envolvidos. Para ele, o Ministério Público deve exercer protagonismo na proteção da integridade do processo eleitoral e atuar de forma efetiva na prevenção e repressão dessas práticas. Na avaliação do promotor, a baixa efetividade da repressão aos crimes eleitorais exige uma reflexão sobre as respostas adotadas pelo Sistema de Justiça. “Em um país que registra historicamente altos índices de corrupção eleitoral, o Ministério Público precisa refletir sobre a efetividade das suas respostas. Se o sistema já puniu pouco, se são raríssimos os casos de prisão e condenação efetiva, precisamos avaliar com muito cuidado até que ponto determinados acordos contribuem para a prevenção e para a credibilidade do processo democrático”, apontou.Por fim, o palestrante reiterou a defesa de uma atuação mais firme do Ministério Público diante dos crimes eleitorais e da corrupção política. “O MP tem que ser demandista sim, em algumas hipóteses graves. E nós estamos falando de corrupção eleitoral, de algo gravíssimo. Nós temos um déficit punitivo alarmante. Como é que você, num país que tem mais de cinco mil municípios, em que a Polícia Federal apreendeu mais de R$ 40 milhões só na última eleição por corrupção eleitoral, não tem um indivíduo condenado e preso? É um sistema totalmente sem efetividade”, finalizou.
Fotos: Chico Ferreira.
Fonte: Ministério Público MT – MT
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