AGRONEGÓCIO
Instabilidade global encarece o campo e afetam custos e decisões do produtor
Publicado em
23 de janeiro de 2026por
Da Redação
As tensões geopolíticas que se acumulam no início de 2026 — envolvendo desde disputas estratégicas no Ártico até conflitos latentes no Oriente Médio e movimentos protecionistas de grandes economias — ajudam a explicar por que o produtor rural brasileiro passou a lidar com um ambiente cada vez menos previsível. Mesmo distantes da realidade da lavoura, esses episódios influenciam diretamente custos, margens e decisões dentro da porteira.
O efeito mais imediato não aparece na demanda por alimentos, que segue firme globalmente, mas na formação dos preços dos insumos. Fertilizantes, combustíveis, defensivos e fretes estão entre os principais canais de transmissão dessas incertezas. O Brasil, altamente dependente do mercado externo para suprir sua agricultura, sente o impacto antes mesmo de qualquer ruptura efetiva no abastecimento.
Disputas diplomáticas envolvendo grandes potências, como o endurecimento do discurso dos Estados Unidos sobre territórios estratégicos, casos recentes de instabilidade no Oriente Médio ou sanções comerciais cruzadas, não significam escassez imediata de produtos. O que ocorre, segundo analistas de mercado, é um movimento antecipatório: fornecedores reajustam preços, tradings reduzem exposição e compradores correm para garantir volumes, pressionando as cotações.
No caso dos fertilizantes, a vulnerabilidade é estrutural. O País importa a maior parte do que consome, especialmente nitrogenados, fosfatados e potássicos. Em momentos de tensão internacional, o mercado passa a precificar riscos futuros — seja por conflitos armados, sanções econômicas ou gargalos logísticos — o que se reflete em altas mesmo quando o fluxo físico segue normal.
A energia é outro fator-chave. Regiões sensíveis do ponto de vista geopolítico concentram parte relevante da produção e do transporte global de petróleo. Qualquer ameaça a essas rotas eleva o preço do barril, com efeito direto sobre o diesel, o frete agrícola e o custo de escoamento da produção. Para o produtor, isso significa maior pressão sobre a margem, especialmente em culturas de menor rentabilidade.
Segundo Isan Rezende (foto), presidente do Instituto do Agronegócio (IA), o produtor brasileiro vive hoje um cenário em que fatores externos passaram a pesar tanto quanto o clima. “O agricultor sempre soube lidar com risco climático. O desafio agora é administrar o risco geopolítico, que afeta preços, insumos e crédito sem aviso prévio”, afirma.
Rezende avalia que o aumento da instabilidade global exige uma postura mais estratégica no planejamento da safra. “Não é mais possível tomar decisão olhando apenas para a produtividade esperada. O produtor precisa acompanhar câmbio, cenário internacional, custo de insumos e logística, porque tudo isso pode mudar rapidamente”, destaca.
Do ponto de vista logístico, o comércio internacional segue funcionando. Rotas alternativas existem, e o transporte marítimo continua sendo o modal mais competitivo. Ainda assim, especialistas alertam que desvios de rota e maior percepção de risco elevam o custo do frete, o que acaba sendo repassado ao longo da cadeia. Em um país continental como o Brasil, esse impacto é potencializado pelas longas distâncias internas.
A reação do produtor a esse ambiente, segundo analistas, passa menos por tentar prever conflitos e mais por adotar mecanismos de proteção. Fixação antecipada de preços, escalonamento de compras de insumos, diversificação de fornecedores e maior atenção à gestão de caixa aparecem como estratégias centrais para reduzir a exposição à volatilidade.
Para Isan Rezende, a capacidade de adaptação será decisiva. “O produtor brasileiro é competitivo, eficiente e resiliente. Mas, em um mundo mais instável, quem se organiza melhor financeiramente e toma decisões com base em informação tende a atravessar esses períodos com menos impacto”, afirma.
Ele ressalta ainda que, apesar do cenário global mais tenso, o Brasil segue bem-posicionado como fornecedor de alimentos. “A demanda mundial por comida continua crescendo. O risco não está na venda da produção, mas no custo de produzi-la. É aí que o produtor precisa estar atento”, conclui.
Em meio a um cenário internacional marcado por disputas comerciais, tensões políticas e reconfiguração das cadeias globais, o campo brasileiro não enfrenta risco de ruptura, mas opera sob pressão crescente de custos. Para o produtor, entender o que acontece fora do País deixou de ser um exercício distante — tornou-se parte essencial da gestão do negócio rural.
Fonte: Pensar Agro
AGRONEGÓCIO
Produtos bovinos brasileiros podem ganhar mais espaço no mercado japonês
Published
21 horas agoon
30 de agosto de 2026By
Da Redação
Estabelecimentos brasileiros registrados no Serviço de Inspeção Federal (SIF) que produzem produtos bovinos processados têm até as 18h desta segunda-feira (31.08) para manifestar interesse em participar da auditoria sanitária que o Japão realizará no Brasil e que poderá ampliar o acesso de produtos bovinos processados ao mercado japonês. A iniciativa ocorre em meio ao esforço brasileiro para aumentar a presença da pecuária nacional em um dos mercados de carne mais exigentes e valorizados do mundo.
A chamada foi aberta pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para identificar estabelecimentos interessados e preparados para receber a missão japonesa. O trabalho será conduzido pelas autoridades sanitárias do Japão e deverá avaliar as condições brasileiras de produção e processamento.
A lista inclui produtos como carne bovina desidratada, conhecida internacionalmente como beef jerky, envoltórios bovinos submetidos a tratamento térmico e o chamado Prime Beef, produto elaborado a partir de colágeno bovino e extrato de carne.
O objetivo da auditoria é revisar o Programa de Verificação de Exportação (EVP, na sigla em inglês), conjunto de procedimentos que estabelece as condições que os estabelecimentos brasileiros precisam cumprir para vender determinados produtos ao Japão.
Na prática, uma avaliação favorável poderá permitir a inclusão de novos produtos e estabelecimentos brasileiros no comércio com o país asiático.
O prazo desta segunda-feira não significa, portanto, abertura automática do mercado. Ele representa uma etapa preparatória para a auditoria e para a negociação sanitária necessária antes da autorização das exportações.
A movimentação ganha importância porque o Japão é fortemente dependente da importação de alimentos. Cerca de 60% das calorias consumidas pela população japonesa têm origem externa, ao mesmo tempo em que o país mantém padrões sanitários rigorosos para entrada de produtos agropecuários.
Na carne bovina, aproximadamente 70% do consumo japonês é abastecido por importações. Austrália e Estados Unidos estão entre os principais fornecedores, enquanto o Brasil ainda busca ampliar sua participação nesse mercado.
A abertura para a carne bovina brasileira in natura é uma negociação separada e muito mais ampla, que se arrasta há mais de duas décadas. Brasil e Japão decidiram acelerar as discussões e estabeleceram a realização de inspeções técnicas como uma das etapas necessárias para avançar na avaliação de risco.
Por isso, embora a auditoria relacionada ao prazo de segunda-feira seja destinada a produtos processados, o movimento ocorre dentro de uma aproximação sanitária e comercial mais abrangente entre os dois países.
Para a pecuária brasileira, conquistar espaço no Japão teria importância que vai além do volume vendido. O país asiático é considerado um mercado de elevado valor agregado e possui exigências sanitárias capazes de funcionar como referência para outros compradores.
A diversificação também ganhou importância neste segundo semestre. As exportações brasileiras de carne bovina chegaram a 1,97 milhão de toneladas entre janeiro e julho, crescimento de 9,9% em relação ao mesmo período do ano passado, mas o setor enfrenta mudanças nas condições de acesso a alguns de seus principais destinos.
Nesse cenário, ampliar o número de compradores reduz a dependência de poucos mercados e aumenta as alternativas comerciais dos frigoríficos. O efeito pode chegar ao pecuarista por meio de maior disputa pela matéria-prima e da valorização de animais que atendam às exigências dos destinos mais remuneradores.
A abertura de um mercado, entretanto, não termina com a autorização sanitária. Frigoríficos precisam cumprir requisitos específicos de produção, processamento, rastreabilidade e certificação para serem habilitados a exportar.
É justamente esse processo que começa agora para os produtos incluídos na chamada. Os estabelecimentos interessados devem encaminhar a documentação por meio do Serviço de Inspeção Federal (SIF) e do respectivo Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Sipoa), para que a manifestação chegue ao Mapa dentro do prazo.
Manifestações apresentadas depois das 18h desta segunda-feira não serão consideradas.
A auditoria japonesa será o passo seguinte. Se o resultado permitir a revisão das regras atuais, o Brasil poderá acrescentar novos produtos bovinos à pauta de exportações para o Japão enquanto continua negociando o objetivo de maior peso econômico para a pecuária nacional: a abertura do mercado japonês à carne bovina brasileira in natura.
Fonte: Pensar Agro
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