Ministério Público MT
A pátria nos acréscimos
Publicado em
30 de junho de 2026por
Da Redação
Encontrei novamente João Ubaldo Ribeiro, desta vez na sala da minha casa, algumas horas depois de Brasil e Japão, o que já não me pareceu tão espantoso quanto da primeira vez. Há coisas que, depois de acontecerem uma vez, deixam de pertencer ao território do milagre e passam a integrar a rotina secreta do país. Um morto ilustre aparecer em casa, no calor implacável do nosso Mato Grosso, para comentar a Seleção, é menos absurdo do que o Brasil precisar de um gol aos cinquenta minutos do segundo tempo para restaurar a circulação sanguínea de mais de duzentos milhões de brasileiros. Ele estava sentado no meu sofá, com a tranquilidade de quem acabara de atravessar a morte, Itaparica e uma partida eliminatória da Copa do Mundo sem perder o senso de observação. Na mesinha, um copo, um prato esquecido e aquela atmosfera doméstica de pós-jogo em que ninguém sabe se agradece, reclama, respira, vira a camisa do avesso para espantar o mau-olhado ou procura o controle remoto para rever o lance pela trigésima vez. — Eu avisei — disse ele, antes que eu perguntasse qualquer coisa. — Avisou o quê? — Que ninguém deveria dizer que o jogo estava fácil. O brasileiro adora uma retórica de vitória antecipada, mas a bola não lê roteiro. Sentei-me, ainda com os nervos desobedientes e a garganta seca. O Brasil vencera o Japão por 2 a 1, de virada, no NRG Stadium, em Houston, garantindo a classificação para as oitavas de final da Copa do Mundo. Mas há vitórias que não terminam no apito do árbitro. Continuam tremendo dentro da gente, como se a bola de Martinelli ainda estivesse a caminho da rede e o país inteiro, com os dedos cruzados, esperasse autorização do destino para voltar a respirar. — Foi sofrimento demais — eu disse. Ubaldo me olhou com a piedade que os imortais reservam aos ansiosos. — Meu caro, sofrimento demais é perder. Ganhar no sofrimento é apenas o nosso jeito de assinar presença em Copa do Mundo. Vocês querem vitória sem angústia, sem susto, sem contradição. Isso não é futebol. Isso é ata notarial. Futebol exige sobressalto. Na televisão, os comentaristas ainda tentavam explicar o inexplicável com setas, mapas de calor, linhas de impedimento e estatísticas de posse. Aquela linguagem moderna que, às vezes, parece inventada para esconder que a bola continua sendo redonda, teimosa e imune à lógica. No grupo da família, naturalmente, todos já sabiam de tudo. Um dizia que a culpa do gol japonês fora da transição. Outro garantia que, desde os dez minutos, previra o empate de Casemiro. Um terceiro, mais sincero, confessou que aos quarenta e nove do segundo tempo já estava negociando com Deus, com os santos, com os antepassados e, se necessário, com a Confederação Brasileira de Futebol. João Ubaldo sorriu largo. — Esse último é dos nossos. A mandinga é a ciência exata do povo. O jogo, visto com a frieza dos números, teve domínio absoluto do Brasil. Mas quem assiste à Copa do Mundo friamente deveria ser convidado a repensar sua relação com a vida. O Brasil teve a bola, trocou passes, empurrou o Japão contra a própria área, finalizou vinte vezes, cobrou escanteios, martelou, sufocou. Se estatística fosse gol, o brasileiro teria ido dormir cedo, civilizado e entediado. Mas estatística não é gol. Estatística é a ilusão que o comentarista oferece enquanto o torcedor abraça a almofada procurando explicação para o próprio desespero. — Setenta e tantos por cento de posse de bola… — resmunguei. — Posse de bola é casamento no papel — respondeu Ubaldo, ajeitando-se. — O que interessa é saber se há amor, vergonha na cara e alguém disposto a cabecear a bola quando o país começa a perder a paciência. O Japão, organizado como se tivesse estudado não apenas a Seleção, mas também a nossa tendência histórica a complicar o que nasceu para ser festa, abriu o placar aos vinte e nove minutos. Kaishu Sano aproveitou uma bobeira na saída de bola, bateu cruzado no canto de Alisson e instalou o silêncio fúnebre. Foi um daqueles gols que produzem um fenômeno psicológico coletivo: em menos de três segundos, todo mundo se transforma em viúvo de algum jogador que não foi convocado. João Ubaldo levantou o dedo em riste. — A frase “eu sabia” é a mais mentirosa e a mais brasileira de todas as frases de Copa. Ninguém sabia de nada. Mas todo mundo passa a saber retroativamente. É o nosso consolo. E lá estava o Brasil, com a bola nos pés e a alma pendurada por um fio. O Japão, metódico, parecia ter trazido para o campo uma planta baixa da nossa ansiedade. A cada minuto que passava, o brasileiro ia ficando menos torcedor e mais especialista em tragédia grega. No intervalo, Ancelotti fez o que treinadores italianos parecem fazer desde o Império Romano: olhou o incêndio, não alterou o batimento cardíaco e mudou a ordem dos móveis. Saiu Paquetá, entrou Endrick. O Brasil voltou aflito, vertical, exposto. Não era mais jogo. Era trincheira. Mão na cabeça, palavrão engolido a seco. Olhei para o lado e vi minha filha com os olhos arregalados, os livros da escola abandonados num canto. Ela começava a aprender ali, ao vivo, que em dia de Copa a história do Brasil não se estuda; sofre-se na carne. — Nessa hora — disse Ubaldo, apontando a cena —, cada família revela sua verdadeira organização constitucional. — Como assim? — Simples. O pai perde a autoridade. A mãe assume a regência espiritual. A avó começa a rezar. A criança é proibida de mudar de lugar no sofá para não quebrar o fluxo astral. O cunhado quer explicar a saída de três. O cachorro é culpado por latir no momento errado. E alguém é mandado para o banheiro porque, da última vez que levantou, o Brasil quase marcou. A superstição, meu amigo, é a nossa jurisprudência mais sólida. Aos onze minutos do segundo tempo, veio o primeiro alívio. Gabriel Magalhães cruzou, Casemiro subiu carregando na testa a biografia de uma nação desconfiada e testou firme. A sala explodiu. O grito rasgou a garganta e tomou as ruas de Sorriso. A poeira vermelha de Mato Grosso pareceu subir em celebração. Cuiabá tremeu. O país explodiu com aquela alegria meio ressabiada, como quem abraça a felicidade, mas deixa uma fresta aberta para reclamar do juiz. — Casemiro — sentenciou Ubaldo, com respeito — é desses sujeitos que lembram ao futebol moderno que ainda existe gravidade moral no mundo. O empate deveria trazer calma. Não trouxe. O brasileiro não sabe lidar com placar empatado em mata-mata. Vini Jr. teve uma chance clara e Zion Suzuki fez uma defesa dessas que beiram a feitiçaria. O goleiro japonês pareceu multiplicar os braços e a envergadura. A casa inteira gemeu, como se tivesse levado um golpe seco na boca do estômago. — Esse goleiro resolveu virar santo hoje? — perguntei, incrédulo. — Santo, não. Goleiro contra o Brasil em Copa é personagem de Dostoiévski. Sofre, impede a felicidade alheia, vive o inferno na terra e ainda sai moralmente engrandecido. O tempo derretia. E, quanto mais derretia, mais o torcedor fazia contas erradas, pedindo pênalti por qualquer esbarrão ocorrido desde o descobrimento de Cabral. Já havia quem não olhasse mais para a televisão, fitando o teto num transe doméstico, convencido de que o simples ato de olhar faria o Brasil errar o passe. — O senhor está calmo? — perguntei a Ubaldo, com o suor já pregando a camisa. — Estou morto, meu caro. Isso dá uma vantagem tática considerável. Aos cinquenta minutos, quando a prorrogação já rondava o estádio como um fantasma burocrático, Bruno Guimarães encontrou um passe milimétrico. Desses que rasgam não apenas a zaga, mas a incredulidade nacional. Gabriel Martinelli dominou e bateu no cantinho. A bola entrou. Entrou devagar e entrou para sempre. O Brasil virava o jogo. O Japão caía diante daquilo que nenhum manual, nenhuma tática e nenhum algoritmo conseguem domesticar: a insistência brasileira em transformar o último suspiro em batucada. A casa veio abaixo. Minha filha pulou no meu pescoço, batizada oficialmente na religião do futebol. Alguém derramou bebida na própria roupa e jurou que usaria a mesma camisa até a final. Alguém gritou que sempre acreditou, outra mentira gloriosa. Ubaldo, comovido à sua maneira baiana, ergueu o copo. — Está vendo? O mundo lá fora pensa que o Brasil ganha com onze. Continua sendo um equívoco de gringo. — Hoje ganhou com quantos? Ele olhou a sala: a televisão iluminando os rostos exaustos, o sofá fora do prumo, o copo derramado, os celulares vibrando freneticamente. — Com todos — respondeu. — Inclusive com os que desistiram aos quarenta e oito e voltaram a ter fé aos cinquenta. Em cada canto desse país continental, a pátria se defendeu em pequenas trincheiras. Em Sorriso, garanto que teve torcedor que ficou em pé durante todo o segundo tempo, achando que sentar seria traição à pátria. Em alguma casa de esquina, uma criança como a minha entendeu que o futebol é um curso intensivo de esperança, sofrimento e exagero. Nisso, João Ubaldo chamou a turma dele. Não me pergunte de onde saíram. Em Copa do Mundo e no coração de Mato Grosso, essas coisas simplesmente se materializam. Nelson Rodrigues surgiu de terno, dizendo que toda virada brasileira tem o dedo do Sobrenatural de Almeida e que a objetividade é uma doença importada. Armando Nogueira anotou que o passe de Bruno Guimarães parecia esculpido pelo vento. João Saldanha reclamou que a zaga estava frouxa, elogiou o ponta e brigou com o ventilador de teto. E Manoel de Barros, sentindo-se em casa na nossa vastidão, espiou a tela miudinha e decretou, manso: — O menino Martinelli chutou uma borboleta bem no canto do mundo. — E agora? — suspirei. — Agora vem o pior — disse Ubaldo. — A Noruega? — Não. A confiança. Ele tinha toda a razão. A confiança do brasileiro é um bicho perigoso. Pequena, ela nos protege das rasteiras da vida. Quando cresce demais, cega e derruba o dono. A vitória foi linda justamente porque foi encardida, suada, arrancada a fórceps e orações. Foi uma vitória que não admite salto alto. O Brasil mereceu, mas precisou espremer até a última gota de suor para dobrar o destino. E isso é fundamental. A Copa não premia só o talento de vitrine. Ela cobra humildade, pulmão e a capacidade de continuar correndo quando a razão já aconselha a assinar a rendição. Levantei-me para desligar a televisão. Ubaldo continuava no sofá, cercado por sua confraria fantástica, fazendo da minha sala um misto de arquibancada, mesa de bar e terreiro metafísico. Antes que o clique do controle encerrasse a magia, ele pontuou: — Não esqueça de escrever uma coisa. — O quê, mestre? — Que o Brasil não venceu apenas o Japão hoje. Venceu o relógio, o goleiro inspirado, a pressa e a própria tentação do desespero. E venceu porque, quando a luz parecia apagar, ainda tinha alguém disposto a correr, alguém disposto a passar e uma nação inteira disposta a empurrar a bola com a força do pensamento. Fiquei em silêncio. A Copa tinha me tirado dez anos de expectativa de vida e me devolvido outros vinte em adrenalina. O Brasil passou. Aos trancos, aos gritos, amparado pela mandinga, pelas estatísticas quebradas e pelo gol redentor no limite do tempo. Passou sendo o Brasil. E, convenhamos, quando o Brasil passa assim, a ferro, fogo e fé, a literatura e a emoção explicam muito mais do que a prancheta do treinador. Estaremos aqui, na mesma trincheira cívica de Sorriso, prontos para provar que a prancheta tática não tem a menor chance contra a mandinga. E que o Sobrenatural de Almeida já vá aquecendo à beira do campo. Afinal, a nossa maior tática sempre foi a paixão. E é por ela que, do céu, o velho lobo, Mário Jorge Lobo Zagallo, solta o grito: vocês terão que nos engolir! Que venha a Noruega ou a Costa do Marfim! Mostra a tua força, Brasil!
Fonte: Ministério Público MT – MT
Ministério Público MT
Membros discutem aplicações da IA no Tribunal do Júri
Published
1 dia agoon
9 de outubro de 2026By
Da Redação
Ferramentas capazes de resumir processos, organizar provas, elaborar apresentações e auxiliar na construção de teses para o Tribunal do Júri estiveram no centro dos debates do colóquio “IA no Júri”, realizado nesta sexta-feira (9) pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT).O encontro reuniu membros do Ministério Público Brasileiro para compartilhar experiências sobre o uso da inteligência artificial como aliada da atuação ministerial, sem abrir mão da supervisão humana e dos cuidados éticos exigidos pela atividade.Promovido pelo Centro de Estudos e Aperfeiçoamento Funcional (Ceaf) – Escola Institucional do MPMT, em parceria com o Centro de Apoio Operacional (CAO) Júri e a Confraria do Júri, o evento teve como palestrante o promotor de Justiça Leoni Carvalho Neto, que apresentou aplicações práticas da inteligência artificial na atividade ministerial, especialmente na preparação de julgamentos perante o Tribunal do Júri.Na abertura, o coordenador do CAO Júri, promotor de Justiça César Danilo Ribeiro de Novais, ressaltou a importância do compartilhamento de conhecimento e destacou os ganhos de produtividade proporcionados pela tecnologia.Segundo o promotor de Justiça, a inteligência artificial tem reduzido significativamente o tempo necessário para a preparação dos casos. “Tenho reduzido de forma considerável o tempo de estudo e melhorado muito a qualidade dos meus júris”, afirmou.Ao longo da exposição, o promotor de Justiça Leoni Carvalho Neto demonstrou como diferentes plataformas podem ser utilizadas para analisar processos, organizar elementos probatórios, gerar apresentações para plenário, elaborar documentos e apoiar a construção de estratégias argumentativas. Para o palestrante, o avanço da tecnologia exige adaptação dos profissionais do Direito. “A inteligência artificial veio para ficar. Temos que nos adaptar”, destacou.O promotor também enfatizou que a utilização dessas ferramentas representa uma oportunidade para otimizar o trabalho dos membros do Ministério Público sem substituir a análise humana.“É um ganho imensurável de tempo, que é o nosso bem mais precioso”, observou. Ele ainda alertou sobre a necessidade de revisão constante dos conteúdos produzidos pelas plataformas. “Por mais confiável que a IA seja, sempre faço uma revisão do texto”, ressaltou.Durante o debate, também foram abordados aspectos relacionados à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), à segurança das informações e aos limites éticos para o uso da inteligência artificial na atuação ministerial. A discussão reforçou a importância de que as ferramentas tecnológicas sejam empregadas como apoio ao trabalho jurídico, sempre sob supervisão dos membros do Ministério Público.
Fonte: Ministério Público MT – MT
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