Ministério Público MT
Palestrante defende modelo focado na segurança alimentar e nutricional
Publicado em
18 de setembro de 2025por
Da Redação
Pela primeira vez dentro de um ambiente do Sistema de Justiça, o engenheiro florestal doutor em Meio Ambiente Julian Perez-Cassarino, membro da direção da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, enfatizou o protagonismo do Ministério Público de Mato Grosso em debater o assunto. O palestrante abordou o tema “A necessidade do enfoque da Segurança Alimentar e Nutricional nos Sistemas Alimentares”, logo após a abertura oficial do evento Cibus Veritas: Comida de Verdade para Todos, Agricultura Familiar contra a Fome, na manhã desta quinta-feira (18).
“O debate que o Cibus promove é fundamental para a sociedade brasileira hoje. A gente vê o Ministério Público atuando de forma clara para garantir a realização desse direito humano à alimentação. Isso é essencial para que a população conheça seus direitos, entenda o que é uma alimentação adequada e saudável, e passe a exigir e atuar para que esse direito seja efetivado. E o que a gente vê aqui em Mato Grosso é um Ministério Público que se abre para ouvir a sociedade, trazer informações, qualificar o debate. É uma iniciativa fundamental, que se torna referência para os demais Ministérios Públicos do país”, destacou.
O palestrante agradeceu pelo convite, lembrando que já teve a oportunidade de falar sobre o tema em espaços distintos como acadêmicos, eventos e encontros da sociedade civil e também no Legislativo. “Mas nunca tinha tido a oportunidade de estar no espaço do Ministério Público e do Sistema de Justiça. E acredito que esse é um tema fundamental de ser abordado, conduzido e levado adiante. Afinal, quando falamos de alimentação, e eu vou tratar disso aqui, nós estamos falando de um direito humano. E a realização desse direito, a garantia desse direito, é uma obrigação dos Estados nacionais”, argumentou.
Julian Perez-Cassarino falou sobre a perspectiva da segurança alimentar e nutricional nos sistemas alimentares, especialmente no campo da produção e do abastecimento de alimentos. Assim, começou questionando se o sistema alimentar atual é, de fato, um sistema com foco na segurança alimentar e nutricional, como prevê a lei. Ao longo da exposição, mostrou que não, que o sistema alimentar predominante na sociedade é o chamado sistema hegemônico, voltado para o lucro e para a mercantilização dos alimentos.
Segundo o palestrante, o Brasil tem uma Constituição “extremamente avançada no que diz respeito aos direitos humanos e sociais”, o que permite sustentar iniciativas importantes como o Sistema Único de Saúde (SUS) e o sistema público de educação. No entanto, de forma curiosa, o direito humano à alimentação não estava explicitamente previsto na Constituição de 1988, aparecia apenas de forma implícita, associado à dignidade humana. Isso gerava uma grande contradição: a Constituição assegurava o direito ao trabalho, à educação e à saúde, mas não mencionava de forma clara o direito à alimentação.
“Como é que a gente realiza todos esses direitos se não tem o que comer? Por isso é fundamental explicitar e incorporar o direito humano à alimentação adequada na Constituição. Ele é um direito anterior à realização de todos os outros”, asseverou.
Diante da possibilidade de um sistema alimentar altamente produtivo, o expositor apontou o paradoxo da fome: “Nós definitivamente não temos um problema de falta de alimentos no mundo. O que temos é um problema de distribuição e acesso. Podemos até questionar o tipo de alimento que estamos produzindo, mas não há escassez, o problema é o acesso. Esse é um dos retratos do nosso sistema alimentar. E o outro retrato é que nós, que conseguimos acessar os alimentos, muitas vezes estamos consumindo uma alimentação de baixíssima qualidade. Isso faz com que o número de pessoas com sobrepeso e obesidade já seja maior do que o de pessoas em situação de fome. E, apesar de essas pessoas não serem consideradas desnutridas, elas estão mal nutridas. E isso tem um impacto gigantesco nos nossos ecossistemas e nos nossos sistemas de saúde”, defendeu.
Ao apresentar os dados do relatório The State of Food Security and Nutrition in the World (Sofi), o palestrante defendeu que, do ponto de vista ético e humano, a porcentagem da população mundial em situação de fome deveria seguir uma curva sempre descendente. No entanto, ela sobe e desce ao sabor dos movimentos econômicos, especialmente dentro do sistema alimentar. Hoje, cerca de 8,2% da população mundial está em situação de fome.
Julian Perez-Cassarino também questionou qual deveria ser o enfoque da alimentação: se como um direito humano ou como uma mercadoria. “Um sistema alimentar desenhado para o lucro é baseado em um modelo agrícola hegemônico, centrado na monocultura, na industrialização voltada ao desenvolvimento de ultraprocessados, em um mercado altamente concentrado e na incapacidade de garantir o direito humano à alimentação adequada, tanto do ponto de vista do acesso aos alimentos quanto da qualidade da alimentação”, revelou.
Segundo ele, o modelo de produção agrícola atual é baseado na privatização e industrialização das sementes (como os híbridos e transgênicos), na introdução de maquinário com consequente redução da mão de obra, no uso de agrotóxicos para controle de pragas, doenças e plantas invasoras, na aplicação de nutrientes sintetizados quimicamente (adubos químicos), na integração com o complexo agroindustrial e na produção voltada para exportação.
Utilizando dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre a área colhida no Brasil, o palestrante fez uma comparação com o crescimento da população no mesmo período. “Entre 2007 e 2016, a população brasileira cresceu cerca de 11%. Nesse mesmo período, a área colhida de soja aumentou 40%, a de milho 8% e a de cana-de-açúcar 31%. Agora, olhando para os principais produtos de consumo interno, os dados mostram uma tendência oposta: a área colhida de feijão caiu quase 50%, o arroz também teve uma redução próxima de 50%, a área de trigo aumentou apenas 15%, enquanto a mandioca caiu cerca de 35% e a banana, 10%”, apontou.
Sob o ponto de vista do doutor em Meio Ambiente, é esse movimento que pode fazer o Brasil se tornar uma Venezuela. “Porque a Venezuela foi um país que, historicamente, não se preocupou em produzir seus próprios alimentos, já que produz o bem de maior valor do mundo, que é o petróleo. Então, como tinha petróleo, sempre trocava por alimentos de outros países. E o que nós estamos fazendo no Brasil? Estamos nos tornando, fundamentalmente, um país produtor de soja. E daqui a pouco, vamos estar exportando soja para importar os alimentos que consumimos internamente”, argumentou.
Assim, considerou que, embora o modelo hegemônico traga divisas para o país, ele também impõe custos ao Estado brasileiro: custos ambientais, impactos na saúde humana e prejuízos econômicos.
Biodiversidade – Julian Perez-Cassarino alertou que o modelo alimentar hegemônico está levando à substituição de ecossistemas altamente biodiversos por sistemas extremamente simplificados, baseados em monoculturas. Isso resulta na perda da fertilidade química, física e biológica dos solos, além de provocar desequilíbrios na fauna e na flora. “O sistema alimentar hegemônico hoje é o principal fator de perda da biodiversidade”, consignou.
Assim, defendeu a construção de um sistema alimentar com enfoque na segurança alimentar e nutricional. “A segurança alimentar e nutricional consiste na realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde que respeitem a diversidade cultural e que sejam ambiental, cultural, econômica e socialmente sustentáveis (Lei 11.346/06)”, destacou.
Segundo o expositor convidado, esse é o entendimento que o Estado brasileiro reconheceu com a aprovação da Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (Losan) e a criação do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan).
Por fim, explicou o que é necessário para fazer a transição de um sistema alimentar hegemônico para um sistema centrado na segurança alimentar e nutricional.
“Para ter um sistema alimentar que promova a segurança alimentar e nutricional e, por consequência, realize o direito humano à alimentação adequada, nós precisamos transitar de um sistema alimentar onde prevalecem esses circuitos longos e complexos, da produção em monocultura que vai para a grande indústria, para trabalhar com circuitos curtos e simples, da feirinha, com o fortalecimento dos cinturões verdes. Para que tenha um foco de segurança alimentar, temos duas grandes dimensões: a dimensão dos alimentos, que é como a gente produz e acessa os alimentos, e a dimensão da alimentação, que é como a gente se apropria desses alimentos, que é tão importante quanto”, defendeu.
Agricultura familiar – “A agricultura familiar é extremamente mais eficiente do que o agronegócio. É que não dá pra medir eficiência apenas pelo número de dólares que entram no país. Eficiência também é o quanto se economiza de recursos para gerar esses dólares, o quanto se conserva do meio ambiente e o quanto se gera de emprego”, exprimiu.
De acordo com o palestrante, em nível global, o que se chama de rede camponesa (que inclui agricultores familiares, pescadores e pastores nômades) é responsável por 70% da alimentação do planeta, consumindo apenas 20% dos combustíveis fósseis. Enquanto o modelo alimentar hegemônico consome cerca de 80% da água doce disponível, a rede camponesa utiliza apenas 10%.
Fonte: Ministério Público MT – MT
Ministério Público MT
Inscrições do concurso do Projeto FloreSer são prorrogadas até o dia 16/10
Published
2 horas agoon
30 de setembro de 2026By
Da Redação
As inscrições para o concurso cultural do Projeto FloreSer foram prorrogadas. Estudantes do Ensino Médio da rede pública estadual de Cuiabá têm até o dia 16 de outubro para enviar suas produções audiovisuais e concorrer à premiação.As inscrições devem ser realizadas pelo hotsite do Projeto FloreSer, no portal do Observatório Caliandra, do Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT).O desafio é criar e produzir um vídeo curto, criativo e engajador, destinado às plataformas Instagram, TikTok ou YouTube, abordando o tema “Violências nas relações afetivas adolescentes: como reconhecer e enfrentar”.As produções poderão abordar, entre outros assuntos, violência nas relações de namoro; ciúmes, posse e controle; respeito e autonomia; violência simbólica e digital; relacionamentos afetivos saudáveis; e direitos das meninas e das mulheres.Quem pode participar –Podem participar estudantes regularmente matriculados no 1º, 2º ou 3º ano do Ensino Médio da rede pública estadual de Cuiabá, organizados em equipes de até três integrantes.Os próprios estudantes serão responsáveis pela criação e produção dos vídeos. No momento da inscrição, deverão ser informados os nomes dos participantes, do professor responsável, do diretor e da escola.Também será necessário anexar o vídeo, conforme as especificações previstas no edital, e o respectivo termo de autorização de uso de imagem e conteúdo. Todas as orientações estão disponíveis na página do Projeto FloreSer.Avaliação e votação – Após o encerramento das inscrições, os vídeos serão submetidos a uma avaliação técnica, de acordo com os critérios estabelecidos no edital. As produções selecionadas nessa etapa avançarão para a fase de votação popular.Os três vídeos que obtiverem o maior número de votos serão premiados, assim como as escolas das equipes vencedoras.Regras para os vídeos – Os vídeos deverão ter: duração mínima de 90 segundos e máxima de 2 minutos; ser gravados no formato vertical (9:16); abordar o tema proposto pelo concurso; conter a identificação da escola, série/turma e dos integrantes da equipe; atender às demais especificações previstas no edital.Premiação – As equipes vencedoras receberão:1º lugar: um celular para cada integrante da equipe;
2º lugar: um notebook para cada integrante da equipe;
3º lugar: um tablet para cada integrante da equipe.As escolas públicas das equipes vencedoras também serão contempladas por meio de parceria com a Energisa Mato Grosso, que prevê a implementação de projetos de eficiência energética nas instituições.A iniciativa integra as ações do Projeto FloreSer, desenvolvido pelo Núcleo das Promotorias de Justiça de Enfrentamento da Violência Doméstica e Familiar – Espaço e Observatório Caliandra, do Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT).O projeto busca promover, entre adolescentes, a reflexão e o diálogo sobre as violências presentes nas relações afetivas, contribuindo para o reconhecimento de situações de violência e para a construção de estratégias de prevenção e enfrentamento.Inscrições abertas: 25 de agosto a 16 de outubro de 2026.As inscrições devem ser realizadas por meio do formulário disponível no hotsite do Projeto FloreSer, com indicação obrigatória dos nomes dos estudantes participantes, professor(a) responsável, diretor(a) e escola. Clique aqui para fazer sua inscrição.
Fonte: Ministério Público MT – MT
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