Tribunal de Justiça de MT
Comissões Regionais de Soluções Fundiárias do TJMT e TRF1 realizam visita técnica em Nova Olímpia
Publicado em
18 de setembro de 2025por
Da Redação
Em ação inédita em Mato Grosso, a Comissão Regional de Soluções Fundiárias do Poder Judiciário de Mato Grosso e a Comissão de Soluções Fundiárias do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) realizaram uma visita técnica conjunta a Reserva Legal Coletiva do Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) Nova Conquista, a cerca de 60 km de Nova Olímpia. Cerca de 160 famílias recepcionaram os membros das Comissões que foram conhecer in loco a realidade e registrar informações que subsidiarão decisões do Judiciário de forma mais justa, pacífica e responsável.
O local é objeto de uma demanda de reintegração de posse de cerca de dois mil hectares de área de preservação ambiental ajuizada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) na Justiça Federal.
A diligência ocorreu nos dias 08 e 09 de setembro e foi conduzida pelo juiz do Poder Judiciário mato-grossense, Eduardo Calmon de Almeida Cézar e pelo juiz federal, Victor Curado, com o apoio de 30 servidores estaduais e federais e de representantes da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp), de Meio Ambiente (Sema), de Assistência Social e Cidadania (Setasc), Incra, Polícia Militar e Prefeitura de Nova Olímpia.
Reunião comunitária – No dia 08 de setembro, na véspera da visita, membros das Comissões se reuniram com representantes da Associação Reconquista, no auditório da Prefeitura de Nova Olímpia. Os juízes conversaram com as famílias, explicando o papel da Comissão e reforçando o compromisso do Judiciário com decisões humanizadas, transparentes e respeitosas.
“Estamos aqui para dialogar, para buscar meios adequados e humanos para a situação. Temos aqui diversos atores envolvidos, incluindo o Incra, para que possamos encontrar alternativas, seja a retirada, a realocação ou outra solução”, disse o magistrado Eduardo Calmon.
Visita técnica – No dia 09 de setembro, a visita foi dividida em duas partes, a primeira, pela manhã, teve o cadastradas de 160 famílias ocupantes por meio de formulário próprio da Comissão, alinhado às diretrizes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O documento coleta dados socioeconômicos, condições de moradia e vulnerabilidades das famílias.
E a tarde com a visita a cerca de 20 residências, com registros fotográficos e análise das condições de moradia. A equipe verificou moradias de madeira, alvenaria simples e construções mistas, muitas sem acabamento. Também foi constatada a falta de saneamento básico, ruas sem pavimentação e coleta irregular de lixo.
“A visita técnica tem um papel muito importante, conseguimos cadastrar todas as famílias, visitar as casas e conhecer de perto a situação de cada um para a partir daí formularmos um relatório que servirá de apoio ao juiz de causa”, pontuou o juiz federal, Victor Curado.
O presidente do Assentamento Nova Conquista, Jairo José da Silva Salvador Filho, agradeceu a presença de todos. “Estamos a bastante tempo esperando uma solução, é muito gratificante receber vocês aqui para conhecer a realidade, não só a minha, como de muitos produtores”, disse. A moradora, Maria Ivani Vieira também celebrou a presença de diversas instituições no assentamento. “Esperamos que agora, com a visita técnica, tudo seja resolvido”, afirmou.
Além dos magistrados participaram da visita técnica a secretária da Comissão Regional, Keila Souza da Cunha, o conciliador do TRF1, Ramon Carvalho, o assessor militar da CGJ-MT, Edilson Benedito de Oliveira Costa, representantes da Sema, Ten. Cel Bruno Saturnino do Nascimento, da Setasc, Tânia Mara Resende, da Sesp, José da Conceição dos Santos Arruda e Antunes André de Oliveira Barbosa, do Incra, Daniel Araújo de Assis e Edilson Ramos Varanda, da Prefeitura de Nova Olímpia, Idamildo Dunga Lira, Elaine Graciely Zanata de Oliveira, Deyvid Alves Maciel Bonfim e Claudia Lúcia Diniz Soares Vasconcelos Ferreira, além dos servidores da Diretoria do Foro de Barra do Bugres, Daniel Xavier Pinheiro e Celma Antônia Sansão Gouveia.
Relatório – Após a visita, a Comissão Regional de Soluções Fundiárias do Poder Judiciário de Mato Grosso produzirá um relatório detalhado, contendo dados sobre a área do conflito, imagens do local, identificação dos ocupantes e das lideranças, a situação social e os elementos históricos da ocupação, bem como o que está sendo produzido no local; como são as moradias, qual é o modo de comercialização da produção obtida e como é feita a distribuição do trabalho e da renda.
O documento será encaminhado a Comissão de Soluções Fundiárias do Tribunal Regional Federal da 1ª Região e servirá de base para: realização de audiências de mediação, elaboração de um plano de desocupação humanizado, se necessário, observando a ADPF 828 e para orientar políticas públicas de assistência às famílias.
Histórico processo – Segundo os autos, as famílias não beneficiárias do programa de reforma agrária ocuparam irregularmente a área de preservação ambiental. Embora tenha sido deferida liminar de desocupação, o cumprimento revelou-se inviável, pois apenas 25% das famílias deixaram o local e muitas retornaram logo em seguida. O que configurou uma situação de ocupação coletiva reiterada e de alta vulnerabilidade social, com presença de mais de 160 famílias, incluindo crianças, idosos, mulheres e pessoas com deficiência.
Diante do impasse e em razão da relevância social e ambiental do litígio, o processo foi encaminhado à Comissão Regional de Soluções Fundiárias do Poder Judiciário de Mato Grosso por determinação do Supremo Tribunal Federal, em conformidade com o art. 4º da Resolução CNJ nº 510/2023.
Em preparação a visita técnica, uma reunião foi realizada no dia 28 de julho, para definir a data da visita e da reunião comunitária, assim como para organizar a logística, segurança institucional e infraestrutura para o cadastramento das famílias ocupantes.
De acordo com o juiz Eduardo Calmon esta foi à primeira vez no Estado que dois tribunais, o TJMT e o TRF1 trabalharam em conjunto pela solução de um conflito fundiário.
“Este é um caso emblemático, um processo que é uma ação federal e a nossa Comissão Estadual está dando o apoio. Mostrando a importância da cooperação interinstitucional e do protagonismo do Poder Judiciário na construção de soluções fundiárias pautadas pela dignidade humana e pelo diálogo social”, afirmou.
Para o magistrado federal, Victor Curado, essa soma de esforços é muito produtiva. “É muito interessante essa parceria entre o TJMT e a Justiça Federal. Mato Grosso deu todo o apoio técnico e logístico para que esta visita técnica acontecesse e a gente possa construir de soluções pacíficas para o conflito fundiário coletivo”, destacou.
Comissão Mato-grossense – Desde sua criação em novembro de 2022, a Comissão realiza visitas técnicas nos locais de litígios e tem produzido relatórios que funcionam como apoio operacional aos juízes responsáveis pelos processos nas comarcas.
Compõem a Comissão como membros titulares os magistrados: Myrian Pavan, Adriana Sant’Anna Coningham, Alex Nunes de Figueiredo, Eduardo Calmon de Almeida Cézar e Jorge Lafelice dos Santos. A Comissão ainda é presidida pelo corregedor-geral da Justiça, desembargador José Luiz Leite Lindote e conta com a participação de órgãos públicos e entidades da sociedade civil como agentes convidados.
Autor: Larissa Klein
Fotografo:
Departamento: Assessoria de Comunicação da CGJ-TJMT
Email: [email protected]
Tribunal de Justiça de MT
Encontro de almas: diligência abriu as portas da paternidade para agente da Infância e Juventude
Published
1 mês agoon
9 de agosto de 2026By
Da Redação

Uma bebê foi abandonada pela mãe na casa da parteira, uma senhora muito pobre e sem condições de cuidar da criança, em Barra do Bugres. Nomeado guardião legal da criança, Aparecido levou a bebê com apenas quatro dias de nascida para casa. Ele e a então esposa cuidaram da recém-nascida até que ela restabelecesse a saúde, ao longo de três meses. O cuidado foi tamanho que o servidor, que também trabalhava como professor no período noturno, deixou este emprego para se dedicar ao cuidado com a menina.
Aparecido revela que não tinha interesse em adotar, mas, após três meses de acolhimento daquela bebezinha, decidiu que queria ficar com ela para sempre e pediu para entrar na fila da adoção. O processo levou tempo, pois investigações foram feitas e a mãe biológica foi identificada. Ela teve que registrar a criança, mas acabou perdendo o pátrio poder e, então a menina pôde participar do processo de adoção. “Ela veio como um presente de Deus”, afirma Aparecido.
Já estava escrito
“Eu acho que tudo já estava escrito pra ser dessa forma. Ele já era meu pai, só foi me buscar”, afirma Érica Taiane Buzato da Silva, 36 anos, filha mais velha de Aparecido, que sente o mesmo. “Pra mim, já existia uma paternidade de verdade, o vínculo, o cuidado e o amor vieram antes da ‘chegada’. Quando ela diz isso, eu sinto que a nossa história confirmou o que a gente viveu todos os dias”, diz o servidor.
Érica conta que seus “pais do coração” sempre foram transparentes em relação à sua origem e que, mesmo passando anos questionando o porquê do abandono, o amor que recebeu da família a levou a superar todas as dores.
“Eu sempre soube que eu era adotada. Fui a primeira filha deles. Depois, eu tive mais dois irmãos e a gente cresceu muito feliz. O meu pai é uma pessoa maravilhosa na minha vida! Não sei nem como agradecer porque, se não fosse ele, eu não sei o que poderia ter acontecido comigo. Sou muito grata ao meu pai e à minha mãe porque cuidaram de mim com todo amor, sem nenhuma diferença de mim e os meus irmãos”, diz.
A gratidão relatada por Érica é sentida também por parte do pai dela. “Me sinto profundamente grato e em paz. Olhando pra trás, vejo que o acolhimento que demos à Érica foi mais do que cuidados: foi amor que sustentou a ela e a mim”, afirma. Em relação à paternidade, que começou com a chegada de Érica em sua vida, Aparecido conta que sempre viu como algo muito simples a educação dada a ela e aos demais filhos, Evili e Lucas. “Nunca vi a Érica diferente, mas sim como filha, igual aos outros”, conta.
Legado construído com exemplo
Aparecido destaca que sempre priorizou transmitir aos filhos valores como honestidade, caráter e determinação para batalhar pelos objetivos. “Eu sempre busquei passar esses valores no comportamento e nas escolhas do dia a dia, sendo honesto, firme e batalhador, para que eles aprendessem com a nossa convivência, não só com palavras”, pontua.
Para Érica, ficaram desses ensinamentos a admiração e o desejo de seguir os mesmos passos do pai. “Meu pai é uma pessoa de muito caráter, muito esforçado, inteligente, batalhador. Eu sei que a vida dele também foi muito difícil. Eu não sou igual a ele, mas tento ser e me espelho nele porque é uma pessoa maravilhosa. Ele me ensinou a ser uma pessoa honesta e a lutar pelos meus objetivos, pela minha felicidade. Eu conto tudo pra ele, então, a gente tem realmente uma ligação muito forte”, afirma Érica.
Ela destaca que se considera parecida até fisicamente com Aparecido. “É estranho, mas eu acho que a convivência faz a gente ficar parecido. Dizem que pai é quem cria, mas, pra mim, é mais do que isso: meu pai é meu porto seguro, minha referência”.
Por sua vez, Aparecido diz ser muito gratificante e emocionante ver os frutos do seu amor de pai. “Saber que a minha presença ajudou a formar o caráter dela e que hoje existe essa conexão me dá orgulho, e também me faz querer continuar fazendo o certo todos os dias”.
Apoio incondicional
Encontrar nos pais um porto seguro fez com que Érica tivesse coragem para encarar de frente seu passado e, depois de adulta, buscar suas origens. “Eu não perguntava por que achava que era algo que machucava eles, de certa forma. Mas, quando eu perguntei, ele foi atrás, conseguiu o contato de outro pai que também tinha adotado a minha outra irmã. Meu pai me ajudou e eu conheci ela e outro irmão, filho dessa minha mãe biológica. E foi muito legal conhecê-los porque faz parte da minha história, de certa forma, porque têm o meu sangue”, relata Érica. Ao reencontrar os irmãos biológicos, sua genitora havia falecido um ano antes.
Da parte de Aparecido, ele conta que ajudar Érica nesse processo de resgatar o contato com a família biológica foi um misto de carinho e responsabilidade. “Eu entendia o desejo dela de conhecer as origens e apoiei esse caminho. Ao mesmo tempo, eu precisava respeitar o tempo dela e garantir que essa busca não virasse dor ou culpa. Ver que ela conseguiu se aproximar com segurança me deixa muito satisfeito”, avalia.

Pai e apoiador, Aparecido confirma que a distância aperta o coração, mas que, ao mesmo tempo, sente orgulho ao ver que Érica está correndo atrás dos próprios objetivos com coragem. “A gente procura estar presente do jeito que dá, com diálogo, apoio e carinho. E isso ajuda a transformar a saudade em motivação”.
Adoção
Enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido ressalta que a Justiça tem um papel fundamental em garantir que toda criança tenha o direito de crescer em um ambiente seguro, com afeto, dignidade e oportunidades. “A adoção não é apenas um ato jurídico; é a construção de uma família baseada no amor e na responsabilidade”, avalia.
Ele lembra que, desde quando adotou Érica até os dias atuais, a legislação evoluiu muito. “Hoje, o processo de adoção é mais estruturado, transparente e voltado, acima de tudo, ao melhor interesse da criança e do adolescente. Há uma preparação maior das famílias, acompanhamento técnico e mecanismos que buscam reduzir o tempo de permanência de crianças em acolhimento institucional, sempre preservando seus direitos”, explica.
Aparecido aproveita este Dia dos Pais para deixar uma mensagem a todos os pais: “Aos pais biológicos, que valorizem o privilégio de acompanhar o crescimento dos seus filhos com amor, presença e responsabilidade. E aos pais de coração, que nunca duvidem da força do amor que escolheram oferecer. A verdadeira paternidade não é definida pelo sangue, mas pela presença, pelo cuidado, pelo exemplo e pelo compromisso de estar ao lado do filho em todos os momentos da vida. É esse amor que transforma histórias, fortalece famílias e constrói seres humanos melhores”, declara.
Érica, por sua vez, afirma: “Adoção não é sobre preencher um vazio, mas sobre transbordar o amor, porque é isso que eu sinto”.
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