Tribunal de Justiça de MT
Grupo Reflexivo de Barra do Garças reduz reincidência e fortalece prevenção à violência doméstica
Publicado em
27 de fevereiro de 2026por
Da Redação
A atuação preventiva no enfrentamento à violência doméstica tem ganhado força em Mato Grosso com a implantação de 24 Grupos Reflexivos para Homens Autores de Violência Doméstica e Familiar em diferentes comarcas. A iniciativa, que complementa as medidas judiciais tradicionais, apresenta resultados concretos: em Barra do Garças, onde o projeto funciona há mais de dez anos, dos 56 participantes em 2025, apenas cinco registraram nova ocorrência, mantendo a taxa de reincidência abaixo de 10%.
O juiz Marcelo Sousa Melo Bento de Resende, titular da 2ª Vara Criminal de Barra do Garças, destaca que o avanço dos grupos reflexivos tem sido impulsionado pela atuação da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cemulher-MT), sob coordenação da desembargadora Maria Erotides.
O encaminhamento ocorre quando é deferida a medida protetiva. Após o pedido da vítima e a concessão da medida, o autor da agressão é intimado a comparecer obrigatoriamente a, pelo menos, oito encontros, sob pena de prisão em caso de descumprimento. Essa determinação também pode constar em sentença condenatória, como parte das medidas impostas ao autor da violência.
Em Barra do Garças, o grupo já era referência antes mesmo da chegada do magistrado à comarca, em 2020. “É fundamental trabalharmos a violência doméstica não apenas sob a ótica da punição ou da prisão. Precisamos de alternativas que atuem na raiz do problema”, afirma.
Reflexão para transformar comportamentos
Os grupos são conduzidos por profissionais da Psicologia e seguem diretrizes estabelecidas pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Ao longo de oito a doze encontros, os participantes são convidados a refletir sobre padrões de comportamento, especialmente aqueles ligados ao machismo estrutural.
De acordo com o juiz, muitos homens chegam ao sistema de Justiça sem perceber que reproduzem condutas aprendidas ao longo da vida. “É comum que estejam repetindo comportamentos vistos dentro de casa, muitas vezes naturalizados pela sociedade. Eles cresceram ouvindo que precisam ser duros, agressivos, que não podem demonstrar fragilidade. Esse modelo acaba gerando prejuízos e, em alguns casos, culmina em crime”, explica.
Nos encontros, são debatidos temas como a Lei Maria da Penha, saúde do homem, comunicação não violenta, gestão da raiva, responsabilização e os impactos do álcool nas relações familiares.
Resultados e impacto social
O magistrado reforça que o trabalho desenvolvido nos encontros busca enfrentar o machismo de forma reflexiva e estruturada.
Ao longo de oito reuniões, o tema é debatido em tópicos específicos, com o objetivo de levar o participante a reconhecer que a agressão contra a mulher não é apenas um crime, mas também um comportamento que lhe causa prejuízos pessoais, familiares e sociais. A proposta é provocar uma mudança de consciência, fazendo com que ele perceba as consequências de seus atos para além da responsabilização penal.
“Esse processo de conscientização representa o ponto de virada: quando o homem entende que pode transformar a própria vida, como pai, marido, companheiro e cidadão, ao rever atitudes e romper padrões de violência”. O magistrado explica que os encontros são realizados de forma consecutiva, garantindo continuidade no acompanhamento e favorecendo a consolidação das reflexões e mudanças de comportamento.
“Em regra, percebemos uma redução significativa da reincidência. Quando há novos casos, muitas vezes estão associados ao abuso de álcool ou a outros fatores externos”, pontua.
Além da proteção às mulheres, o projeto também chama atenção para os impactos do machismo sobre os próprios homens. Dados nacionais indicam que a população carcerária é majoritariamente masculina e que a expectativa de vida dos homens é, em média, cinco a seis anos menor que a das mulheres.
“Não se trata de minimizar a violência sofrida pelas mulheres, que são as principais vítimas, inclusive de feminicídio, mas de compreender que esse modelo de masculinidade também impõe perdas e limitações aos próprios homens. O grupo reflexivo é um espaço de aprendizado e de reconstrução de trajetórias”, conclui o juiz.
Ampliação
A ampliação dos Grupos Reflexivos integra o “Plano de Diretrizes e Metas – Gestão 2025-2026” da Cemulher-MT, que estabelece como objetivo estratégico expandir o número de comarcas com programas ativos. A iniciativa reafirma o papel do Poder Judiciário não apenas na responsabilização, mas também na prevenção, educação e na transformação social, contribuindo para a construção de relações mais saudáveis e para a redução da violência contra a mulher em Mato Grosso.
Atualmente, os grupos estão em funcionamento nas comarcas de Alto Araguaia, Alto Taquari, Barra do Bugres, Barra do Garças, Campo Verde, Chapada dos Guimarães, Colíder, Cuiabá, Feliz Natal, Juína, Lucas do Rio Verde, Matupá, Mirassol D’Oeste, Nova Mutum, Pontes e Lacerda, Primavera do Leste, Rio Branco, Rondonópolis, Sinop, Sorriso, Tabaporã, Tangará da Serra, Várzea Grande e Vila Bela da Santíssima Trindade.
Autor: Patrícia Neves
Fotografo:
Departamento: Coordenadoria de Comunicação Social do TJMT
Email: [email protected]
Tribunal de Justiça de MT
Encontro de almas: diligência abriu as portas da paternidade para agente da Infância e Juventude
Published
1 mês agoon
9 de agosto de 2026By
Da Redação

Uma bebê foi abandonada pela mãe na casa da parteira, uma senhora muito pobre e sem condições de cuidar da criança, em Barra do Bugres. Nomeado guardião legal da criança, Aparecido levou a bebê com apenas quatro dias de nascida para casa. Ele e a então esposa cuidaram da recém-nascida até que ela restabelecesse a saúde, ao longo de três meses. O cuidado foi tamanho que o servidor, que também trabalhava como professor no período noturno, deixou este emprego para se dedicar ao cuidado com a menina.
Aparecido revela que não tinha interesse em adotar, mas, após três meses de acolhimento daquela bebezinha, decidiu que queria ficar com ela para sempre e pediu para entrar na fila da adoção. O processo levou tempo, pois investigações foram feitas e a mãe biológica foi identificada. Ela teve que registrar a criança, mas acabou perdendo o pátrio poder e, então a menina pôde participar do processo de adoção. “Ela veio como um presente de Deus”, afirma Aparecido.
Já estava escrito
“Eu acho que tudo já estava escrito pra ser dessa forma. Ele já era meu pai, só foi me buscar”, afirma Érica Taiane Buzato da Silva, 36 anos, filha mais velha de Aparecido, que sente o mesmo. “Pra mim, já existia uma paternidade de verdade, o vínculo, o cuidado e o amor vieram antes da ‘chegada’. Quando ela diz isso, eu sinto que a nossa história confirmou o que a gente viveu todos os dias”, diz o servidor.
Érica conta que seus “pais do coração” sempre foram transparentes em relação à sua origem e que, mesmo passando anos questionando o porquê do abandono, o amor que recebeu da família a levou a superar todas as dores.
“Eu sempre soube que eu era adotada. Fui a primeira filha deles. Depois, eu tive mais dois irmãos e a gente cresceu muito feliz. O meu pai é uma pessoa maravilhosa na minha vida! Não sei nem como agradecer porque, se não fosse ele, eu não sei o que poderia ter acontecido comigo. Sou muito grata ao meu pai e à minha mãe porque cuidaram de mim com todo amor, sem nenhuma diferença de mim e os meus irmãos”, diz.
A gratidão relatada por Érica é sentida também por parte do pai dela. “Me sinto profundamente grato e em paz. Olhando pra trás, vejo que o acolhimento que demos à Érica foi mais do que cuidados: foi amor que sustentou a ela e a mim”, afirma. Em relação à paternidade, que começou com a chegada de Érica em sua vida, Aparecido conta que sempre viu como algo muito simples a educação dada a ela e aos demais filhos, Evili e Lucas. “Nunca vi a Érica diferente, mas sim como filha, igual aos outros”, conta.
Legado construído com exemplo
Aparecido destaca que sempre priorizou transmitir aos filhos valores como honestidade, caráter e determinação para batalhar pelos objetivos. “Eu sempre busquei passar esses valores no comportamento e nas escolhas do dia a dia, sendo honesto, firme e batalhador, para que eles aprendessem com a nossa convivência, não só com palavras”, pontua.
Para Érica, ficaram desses ensinamentos a admiração e o desejo de seguir os mesmos passos do pai. “Meu pai é uma pessoa de muito caráter, muito esforçado, inteligente, batalhador. Eu sei que a vida dele também foi muito difícil. Eu não sou igual a ele, mas tento ser e me espelho nele porque é uma pessoa maravilhosa. Ele me ensinou a ser uma pessoa honesta e a lutar pelos meus objetivos, pela minha felicidade. Eu conto tudo pra ele, então, a gente tem realmente uma ligação muito forte”, afirma Érica.
Ela destaca que se considera parecida até fisicamente com Aparecido. “É estranho, mas eu acho que a convivência faz a gente ficar parecido. Dizem que pai é quem cria, mas, pra mim, é mais do que isso: meu pai é meu porto seguro, minha referência”.
Por sua vez, Aparecido diz ser muito gratificante e emocionante ver os frutos do seu amor de pai. “Saber que a minha presença ajudou a formar o caráter dela e que hoje existe essa conexão me dá orgulho, e também me faz querer continuar fazendo o certo todos os dias”.
Apoio incondicional
Encontrar nos pais um porto seguro fez com que Érica tivesse coragem para encarar de frente seu passado e, depois de adulta, buscar suas origens. “Eu não perguntava por que achava que era algo que machucava eles, de certa forma. Mas, quando eu perguntei, ele foi atrás, conseguiu o contato de outro pai que também tinha adotado a minha outra irmã. Meu pai me ajudou e eu conheci ela e outro irmão, filho dessa minha mãe biológica. E foi muito legal conhecê-los porque faz parte da minha história, de certa forma, porque têm o meu sangue”, relata Érica. Ao reencontrar os irmãos biológicos, sua genitora havia falecido um ano antes.
Da parte de Aparecido, ele conta que ajudar Érica nesse processo de resgatar o contato com a família biológica foi um misto de carinho e responsabilidade. “Eu entendia o desejo dela de conhecer as origens e apoiei esse caminho. Ao mesmo tempo, eu precisava respeitar o tempo dela e garantir que essa busca não virasse dor ou culpa. Ver que ela conseguiu se aproximar com segurança me deixa muito satisfeito”, avalia.

Pai e apoiador, Aparecido confirma que a distância aperta o coração, mas que, ao mesmo tempo, sente orgulho ao ver que Érica está correndo atrás dos próprios objetivos com coragem. “A gente procura estar presente do jeito que dá, com diálogo, apoio e carinho. E isso ajuda a transformar a saudade em motivação”.
Adoção
Enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido ressalta que a Justiça tem um papel fundamental em garantir que toda criança tenha o direito de crescer em um ambiente seguro, com afeto, dignidade e oportunidades. “A adoção não é apenas um ato jurídico; é a construção de uma família baseada no amor e na responsabilidade”, avalia.
Ele lembra que, desde quando adotou Érica até os dias atuais, a legislação evoluiu muito. “Hoje, o processo de adoção é mais estruturado, transparente e voltado, acima de tudo, ao melhor interesse da criança e do adolescente. Há uma preparação maior das famílias, acompanhamento técnico e mecanismos que buscam reduzir o tempo de permanência de crianças em acolhimento institucional, sempre preservando seus direitos”, explica.
Aparecido aproveita este Dia dos Pais para deixar uma mensagem a todos os pais: “Aos pais biológicos, que valorizem o privilégio de acompanhar o crescimento dos seus filhos com amor, presença e responsabilidade. E aos pais de coração, que nunca duvidem da força do amor que escolheram oferecer. A verdadeira paternidade não é definida pelo sangue, mas pela presença, pelo cuidado, pelo exemplo e pelo compromisso de estar ao lado do filho em todos os momentos da vida. É esse amor que transforma histórias, fortalece famílias e constrói seres humanos melhores”, declara.
Érica, por sua vez, afirma: “Adoção não é sobre preencher um vazio, mas sobre transbordar o amor, porque é isso que eu sinto”.
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