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Otelo e o Feminicídio

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Este ano decidi ler as 38 peças de William Shakespeare.Quando comecei Otelo, imaginei encontrar apenas uma tragédia sobre ciúme e vingança: um homem manipulado por Iago que, tomado pela desconfiança, mata sua esposa, Desdêmona.Mas a peça é mais profunda do que isso. Ela não é apenas sobre o ciúme de um homem ou a manipulação de outro. Ela é, sobretudo, sobre poder.Sobre quem pode falar.Sobre quem é ouvido.E sobre quem paga o preço quando a honra masculina se sente ameaçada.Desdêmona não tem voz. E, quando tenta falar, sua palavra pesa menos do que a de Iago — o “amigo” que manipula, insinua e envenena, movido pelo desejo de se vingar de Otelo. Ela se explica, nega, implora. Mas ninguém realmente a escuta.Porque, no fundo, nunca se tratou da verdade dela — tratava-se da honra dele.
Em determinado momento, Otelo a agride diante de todos. Entre os presentes está Ludovico, tio de Desdêmona, um homem de prestígio e posição social, que poderia intervir e protegê-la. Mas não o faz. Limita-se a assistir. Alguém que “viu e pouco falou sobre os tristes acontecimentos”.Ninguém a defende.Ninguém se levanta.Ninguém o interrompe.
O silêncio coletivo também participa da tragédia.Emília, amiga de Desdêmona, ainda tenta reagir. Questiona, se desespera, confronta. Mas Emília também é ignorada.Porque, naquele mundo — como em tantos outros — a palavra de uma mulher valia pouco. E a palavra de duas mulheres valia menos ainda.Pode parecer algo distante, típico do século XVII. Mas não é.Quando Desdêmona é brutalmente assassinada por Otelo, surge uma das poucas vozes que denunciam o absurdo da situação. Emília, ao descobrir o que aconteceu, confronta Otelo e diz:“O senhor matou uma mulher inocente e tola, cujo único erro foi a escolha que fez ao apaixonar-se por você, seu estúpido! Como pode ser tão ignorante e cego?”Mas já era tarde demais. Desdêmona estava morta.Do acontecimento restam apenas três gritos de indignação:o de Emília, alto e inconformado; o de Desdêmona — abafado pela morte; e o de Otelo, tentando justificar sua própria crueldade: “Digam o que quiserem, não me importo. Espero que me considerem um assassino honrado, pois foi pela honra, e não por ódio, que fiz o que fiz.”A honra. Essa palavra atravessa a peça inteira. E, muitas vezes, atravessa também a história das violências contra mulheres.Mas há um detalhe ainda mais perturbador: Otelo não é preso. Não é julgado. Não é punido por ninguém.Ele mesmo decide o próprio destino. Depois de decidir sobre a vida de Desdêmona, decide também sobre a própria morte: “Fale de mim como realmente sou, sem exageros nem maldade. Peço que, por generosidade, diga que amei profundamente, ainda que com certa imprudência, e que, por não saber lidar com meu ciúme, fui arrastado a excessos que acabaram por me levar à própria ruína, tornando impossível continuar vivendo depois disso.”Ou seja: até o fim é ele quem escolhe. Ele decide sobre a vida dela. E decidetambém sobre a própria morte. Ela nunca teve escolha.E isso também soa assustadoramente atual.No Brasil, mulheres continuam sendo mortas por homens que acreditam ter poder sobre suas vidas. Entre 2015 e 2025, mais de 13 mil mulheres foram assassinadas em crimes de feminicídio.Homens que decidem se a mulher pode se separar. Se pode seguir em frente. Se pode continuar viva.Homens que acreditam que o fim de uma relação é uma ofensa imperdoável aopróprio orgulho.E, às vezes, a perversidade transborda: tiram a vida dos próprios filhos – não poramor, não por desespero — mas por covardia deliberada de quem sacrifica outroinocente para punir a mulher que ousou sair do lugar que eles acreditavam ser dela.A lógica é a mesma. Controle. Controle sobre o corpo. Controle sobre a vida.Controle sobre o destino.Otelo decidiu que Desdêmona deveria morrer.E, séculos depois, ainda há homens que acreditam ter esse mesmo direito.Os séculos passaram, mas a tragédia permanece: agora não apenas escrita nahistória, mas exposta ao vivo e a cores nas redes sociais.E, enquanto mulheres continuarem morrendo para preservar a famigerada “honra” de Otelos, Desdêmonas continuarão morrendo. Emílias continuarão sendo ignoradas. E Ludovicos continuarão assistindo silentes.Que não sejamos Ludovicos.Que protejamos Desdêmonas.Que escutemos Emílias.E que Otelos, finalmente, sejam devidamente responsabilizados!*Izabella Pacheco Coelho é servidora do MPMT.

Fonte: Ministério Público MT – MT

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Ministério Público MT

Júri condena filho de ex-deputado por feminicídio e homicídio

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O Conselho de Sentença do Tribunal do Júri de Cuiabá condenou, nesta sexta-feira (31), Carlos Alberto Gomes Bezerra a 36 anos de reclusão pelo feminicídio de Thays Machado e pelo homicídio de Willian César Moreno. O julgamento foi realizado no Fórum da Capital e presidido pela juíza Mônica Catarina Perri Siqueira. Pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), atuou no plenário o promotor de Justiça Vinícius Gahyva.Os crimes ocorreram em janeiro de 2023, no bairro Consil, em Cuiabá. Conforme sustentado pelo Ministério Público, o acusado agiu de forma premeditada e motivado pela inconformidade com o término do relacionamento com Thays Machado.O Conselho de Sentença acolheu integralmente o entendimento do Ministério Público e reconheceu todas as qualificadoras imputadas ao réu. No homicídio de Willian César Moreno, os jurados acolheram as qualificadoras de motivo torpe, emprego de meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima. Já em relação ao feminicídio de Thays Machado, foram reconhecidas as qualificadoras de motivo torpe, emprego de meio cruel, recurso que dificultou a defesa da vítima e feminicídio praticado em contexto de violência doméstica e de gênero.A acusação destacou que o réu monitorava a rotina da vítima, realizava vigilância constante de seus deslocamentos e conhecia detalhadamente seus hábitos, circunstâncias comprovadas por documentos, anotações e materiais apreendidos durante as investigações.Durante os debates, o promotor de Justiça Vinícius Gahyva sustentou que o conjunto probatório revelou um histórico de controle, perseguição e não aceitação do término do relacionamento por parte do acusado. Para o Ministério Público, o feminicídio ocorreu em contexto de violência doméstica e de gênero e foi precedido por uma crescente escalada de monitoramento da rotina da vítima.“Trata-se da personalidade de alguém possessivo, que possui ciúme exacerbado, que enxerga a mulher não como aquela pessoa com quem gostaria de constituir um casal, mas como um objeto. E, evidentemente, como ocorre com toda posse, quando ela é retirada de quem a considera sua propriedade, a reação é violenta, através da repreensão. Foi o que ele fez quando matou duas pessoas”, afirmou o promotor de Justiça Vinícius Gahyva.Conforme sustentado em plenário pelo promotor de Justiça, as investigações demonstraram que o acusado acompanhava a rotina da vítima, mantinha registros de seus deslocamentos e realizava vigilância constante de locais frequentados por ela, circunstâncias que reforçam as qualificadoras apontadas na denúncia.O promotor de Justiça também destacou que foram identificados 914 registros de chamadas entre o acusado e a vítima entre o fim de dezembro de 2022 e a data do crime, além de elementos que evidenciariam vigilância e controle sobre a vida de Thays Machado.Conforme apresentado pelo Ministério Público, todos os disparos que atingiram Thays ocorreram pelas costas, reforçando a tese de que as vítimas não tiveram qualquer possibilidade de defesa.Após a decisão do Conselho de Sentença, a juíza Mônica Catarina Perri Siqueira fixou a pena de 36 anos de reclusão para Carlos Alberto Gomes Bezerra. O réu permanecerá preso para cumprimento da condenação, nos termos definidos na sentença.

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Fonte: Ministério Público MT – MT

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