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“Todo mundo pode morrer, menos a mãe do autista”: relato expõe a realidade da maternidade atípica

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“Todo mundo pode morrer, menos a mãe do autista.” A reflexão, dita sem rodeios por Magdala Barreto da Silva, não pede explicação, ela expõe uma verdade avassaladora e preocupação genuína, sem limites de tradução. Mãe de Davi, de cinco anos, diagnosticado com autismo nível 3 de suporte, a cuidadora de alunos com deficiência (CAD) participou do “TJMT Inclusivo: Autismo e Direitos das Pessoas com Deficiência”. Magdala, assim como milhares de outras mulheres, aprende todo dia um pouco a ser mãe atípica e a carregar todo amor, medo e desconhecimento que rodeiam a maternidade.

O evento, realizado pelo Poder Judiciário de Mato Grosso na Igreja Lagoinha, no dia 16, reuniu especialistas de diferentes áreas para discutir os desafios do neurodesenvolvimento, da educação inclusiva e da garantia de direitos. Ao longo do dia, educadores e cuidadores (CAD) que assistiram as palestras construíram um panorama que transitou entre a técnica e a realidade cotidiana das famílias. No meio de mais de 2,1 mil participantes estava Magdala, atenta a cada um dos temas. A sua vida pede mais conhecimento.

Na abertura, o neurologista pediátrico Thiago Gusmão apresentou os principais transtornos do neurodesenvolvimento no ambiente escolar, destacando caminhos possíveis para professores e cuidadores lidarem com diferentes perfis em sala de aula. A abordagem trouxe elementos práticos, mas também reforçou a necessidade de formação continuada e sensibilidade no trato com crianças neurodivergentes.

Em seguida, o psicólogo Marcelo Zanotti da Silva tratou de um aspecto menos visível: os desafios do transtorno do espectro autista nível I de suporte. Ao destacar que nem sempre as dificuldades são evidentes, ele chamou a atenção para a tendência de invisibilização desses alunos, que muitas vezes não recebem o suporte necessário justamente por não se encaixarem em padrões mais conhecidos.

A terceira palestra deslocou o debate para o campo jurídico. O advogado Dr. Bruno Henrique Saldanha Farias abordou a educação e a saúde como direitos fundamentais, ressaltando que a Constituição assegura garantias que ainda encontram barreiras na prática. A sua fala evidenciou um ponto recorrente: o acesso a direitos básicos frequentemente depende de judicialização, algo que, na prática, transfere às famílias um ônus que deveria ser do Estado.

Foi nesse momento que Magdala se reconheceu ainda mais. Formada em contabilidade e pós-graduada, ela conta que precisou interromper a carreira para se dedicar ao filho. “Eu tive que largar tudo. Profissão, planos, rotina. Quando ele falou das dificuldades, parecia que estava contando a minha história”, disse.

A programação seguiu com a superintendente de Promoção e Articulação de Políticas Públicas para Pessoas com Deficiência da Secretaria de Estado de Assistência Social e Cidadania (Setasc-MT), Taís Augusta de Paula, que ampliou o olhar sobre a pluralidade das deficiências. A palestra trouxe a necessidade de compreender as especificidades de cada condição, evitando generalizações e reforçando a importância de políticas públicas articuladas.

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Encerrando o ciclo, a advogada Jennyfer Bathemarque discutiu a presença da pessoa com deficiência no sistema de Justiça, abordando direitos, entraves e o papel do Judiciário na efetivação da inclusão. A exposição destacou avanços, mas também apontou lacunas que ainda persistem no acesso e na garantia de direitos.

Entre uma palestra e outra, o que emergia era um contraste constante entre o que está previsto e o que é vivido. Magdala conhece esse percurso, todos os dias. Formada e pós-graduada em Ciências Contábeis e servidora do Centro Municipal de Educação Infantil Professora Jaira Cuiabano Corrêa da Costa, no bairro Pedra 90, em Cuiabá, ela divide o tempo entre o trabalho e o acompanhamento do filho em terapias e na rotina escolar. Ela consegue trabalhar, pois tem o direito de carga horária reduzida em 50% sem prejuízo pecuniário na rede municipal da capital. O pequeno Davi é atendido na mesma escola em que ela atua.

“Já ouvi que eu deveria ficar em casa cuidando do meu filho. A exclusão ainda acontece em todos os espaços”, relatou. Ela também fala das perdas que vieram com a maternidade atípica: “Eu perdi muita coisa, inclusive, em alguns momentos, a minha identidade”.

Ela conta que ao participar do TJMT Inclusivo, percebeu o quanto momentos como esse fazem diferença. ‘Somos em nove cuidadoras na unidade onde trabalho, mas hoje seis conseguiram estar aqui, as demais já participaram em outra oportunidade, porque todas nós entendemos que o que fazemos exige dedicação constante. Eu vejo isso nas minhas colegas: elas amam o que fazem, e esse cuidado reflete diretamente na vida do Davi. Ainda sinto que muita gente não compreende a importância do trabalho de uma cuidadora de alunos com deficiência, e isso transparece. No meu caso, tenho a sorte de estar em um espaço acolhedor”.

Ela finaliza defendendo a ampliação do atendimento especializado nas unidades escolares. “Vejo meu filho mais tranquilo, justamente porque foi recebido com amor, carinho e respeito. Isso é o que é mais importante, porque todos deveriam saber a atender também o neurodivergente”.

O evento

Ao longo de dois dias (15 e 16 de abril), o evento reuniu magistrados, assessores, educadores e cuidadores de crianças com deficiência em um amplo espaço de diálogo e construção coletiva, reafirmando o papel institucional do Judiciário na promoção de políticas públicas mais inclusivas e efetivas. No dia 15, a programação foi realizada no Fórum de Cuiabá. Já no dia 16, atendeu – prioritariamente – a educadores e cuidadores da rede municipal de Cuiabá e profissionais da rede estadual de ensino.

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O projeto reforça o compromisso do Poder Judiciário de Mato Grosso, por meio da Comissão de Acessibilidade e Inclusão, presidida pela desembargadora Nilza Maria Pôssas de Carvalho, com o respeito à neurodiversidade e dá cumprimento à Resolução 401/2021 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que dispõe sobre desenvolvimento de diretrizes de acessibilidade e inclusão de pessoas com deficiência nos órgãos do Judiciário, e à Lei federal nº 12.764/2012 – Lei Berenice Piana, que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.

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Autor: Patrícia Neves

Fotografo: Alair Ribeiro

Departamento: Coordenadoria de Comunicação Social do TJMT

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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Tribunal de Justiça de MT

Mais verde na cidade: instituições unem forças para ampliar a arborização

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Dois homens de chapéu de palha agachados em um gramado verde, sob sol forte. O homem da esquerda, de barba e camisa xadrez, olha para frente. O da direita, de camisa azul clara, planta uma muda alta e fina. Ao fundo, um acostamento e mato.A região do Córrego do Barbado voltou a receber mais uma mobilização ambiental na última quinta-feira (16) e na sexta-feira (17). Após ganhar 200 novas árvores no sábado anterior (11), o programa Verde Novo, do Poder Judiciário, promoveu o plantio de outras 200 mudas no canteiro central e nas calçadas do bairro Jardim das Américas, em Cuiabá. Com isso, a região passa a contar com 400 árvores plantadas em menos de uma semana.

A ação é realizada em parceria com o Tribunal de Contas do Estado e a Prefeitura de Cuiabá. O trabalho começou no dia 11 de abril (sábado), em conjunto com a Casa da Amizade, e marca o fortalecimento da cooperação entre as instituições para ampliar a arborização urbana da Capital.

Homem jovem, de barba, óculos e camisa social azul clara, fala olhando para a esquerda. Ele é rodeado por microfones e um celular rosa. O ambiente é ao ar livre, com um gramado verde e árvores ao fundo.Fortalecimento da parceria institucional

Coordenador do Programa Verde Novo do Poder Judiciário de Mato Grosso, Sérgio Savioli destacou que a iniciativa representa um novo momento na atuação conjunta entre os órgãos.

“O Verde Novo já conta, em seu termo de cooperação técnica, com a participação da Prefeitura de Cuiabá e também do Tribunal de Contas do Estado. Mas, efetivamente, esta é a primeira ação de plantio que realizamos juntos. Então, é um marco para nós”, afirmou.

Segundo ele, a integração permitirá a organização de um calendário mais amplo de ações ao longo do ano. “O objetivo do Município, já declarado pelo prefeito, é plantar 20 mil mudas neste ano. O Verde Novo está à disposição para auxiliar no cumprimento dessa meta. Com a parceria agora fortalecida pelo Tribunal de Contas, acredito que seja possível até superar esse número”, ressaltou.

Um homem jovem, de barba e polo azul marinho com logo "tce mt", sorri enquanto fala, olhando para a esquerda. Ele é cercado por microfones e um celular vermelho que o grava. A cena se passa em uma rua com gramado e carros ao fundo.União em defesa do meio ambiente

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Representando o Tribunal de Contas, o engenheiro sanitarista e assistente da Comissão Permanente de Meio Ambiente e Sustentabilidade, Lucas José de Oliveira, enfatizou a importância da união entre as instituições para fortalecer a política ambiental.

“Essa união entre o Tribunal de Contas, o Tribunal de Justiça e a Prefeitura de Cuiabá em favor de uma ação ambiental, é fundamental para a reconstrução da Cidade Verde. A arborização urbana é uma pauta extremamente importante e vem sendo tratada no Tribunal de Contas”, pontuou.

Ele destacou ainda os benefícios diretos do plantio. “Sabemos que o plantio melhora a qualidade do ar, previne processos erosivos no solo e contribui para o enfrentamento das mudanças climáticas, com a preservação do carbono”, explicou.

Vista em plano médio de duas pessoas de chapéu plantando uma muda de árvore. O homem da esquerda, de calça jeans e camisa xadrez, segura o caule. O da direita, de camisa azul claro, ajeita a terra na cova. Eles estão cercados por grama verde.Meta de 20 mil mudas

O diretor de Planejamento Ambiental da Prefeitura de Cuiabá, Fábio Moura, avaliou que a parceria fortalece o cumprimento da meta municipal de arborização.

“Isso é muito importante para nós. Hoje estamos consolidando essa parceria. Já vínhamos realizando plantios com o Verde Novo, e este é o primeiro com o Tribunal de Contas. Isso será fundamental para que consigamos arborizar cada vez mais a cidade”, afirmou.

Ele lembrou que, na segunda semana de abril, foram plantadas 200 árvores na mesma avenida e que, agora, outras 200 foram inseridas no local.

“Nossa meta é plantar 20 mil mudas neste ano. É uma meta audaciosa, mas temos uma equipe capaz e vamos trabalhar para alcançá-la”, garantiu.

Compartilhamento de mudas e planejamento

Sérgio Savioli explicou que a cooperação também envolve o aproveitamento das estruturas e dos viveiros mantidos pelas instituições parceiras.

“O Verde Novo possui mudas, o Horto Florestal do município possui e o Tribunal de Contas também. A intenção é estabelecer essa comunicação, porque há diversidade de espécies entre os três parceiros e, com isso conseguimos atender melhor a população”, disse.

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Um grupo de cinco pessoas em pé em um gramado conversando. Uma mulher de boné e blusa azul com logo "Mato Grosso" fala para as outras. Ao seu lado, um homem de chapéu camuflado e camisa verde/branca com logo "Horta Florestal". Outras pessoas observam.Educação ambiental nas escolas

Além do plantio em vias públicas, a Prefeitura já se organiza para ampliar as ações em escolas, praças e parques durante o período de estiagem.

“Nesse período de seca, vamos focar em praças, parques e escolas, onde conseguimos garantir a irrigação. Queremos mobilizar as crianças e levar nossos técnicos para avaliar o espaçamento e as espécies adequadas. A ideia é fazer o máximo possível e retomar o plantio em maior escala a partir de outubro”, explicou Fábio Moura.

Lucas José de Oliveira acrescentou que a parceria também prevê ações educativas. “Além do plantio, vamos trabalhar a educação ambiental nas escolas, com cartilhas e orientação. A arborização precisa vir acompanhada de conscientização”, destacou.

Programa Verde Novo

Idealizado pelo desembargador Rodrigo Roberto Curvo em 2017, o Programa Verde Novo é uma iniciativa do Poder Judiciário de Mato Grosso voltada à recuperação das florestas urbanas. Ao longo dos anos, já distribuiu e plantou mais de 250 mil mudas de espécies nativas e frutíferas do Cerrado em diversos municípios do estado.

Como participar

Cidadãos e instituições interessados podem solicitar a distribuição gratuita ou o plantio de mudas pelo e-mail [email protected] ou pelo ZapMudas, no telefone (65) 3617-3090. Também é possível se cadastrar como voluntário no site do programa e contribuir com as próximas ações de arborização.

Autor: Flávia Borges

Fotografo: Maycon Xavier

Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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