POLÍTICA NACIONAL

Soberania e custo de exploração de terras raras são destaque em audiência na CI

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Como tornar o Brasil uma potência mundial na exploração e transformação no uso de minerais críticos, que gere riqueza e desenvolvimento interno para o país? O tema foi debatido em audiência pública nesta quarta-feira (27), na Comissão de Serviços de Infraestrutura (CI). A reunião faz parte dos trabalhos para instruir o Projeto de Lei (PL) 4.443/2025, que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, proposta em discussão na comissão, de autoria do senador Renan Calheiros (MDB-AL).  

O debate, presidido pelo senador Wilder Morais (PL-GO), reuniu representantes do governo, da indústria, da mineração e da pesquisa para discutir o papel desses minerais no desenvolvimento tecnológico, na transição energética, na segurança econômica e na competitividade do país. Eles concordaram que é preciso conciliar investimentos da iniciativa privada e do poder público, dar celeridade na exploração, investir em pesquisa e tecnologia e focar na criação de um ambiente de negócios propício para o setor, tendo como premissa a soberania do Brasil.

Na abertura da reunião, o senador Wilder Morais afirmou que o tema se tornou central para economia, a indústria, a segurança energética e a soberania tecnológica. Segundo ele, o debate ganha ainda mais relevância diante do avanço desta discussão também na Câmara dos Deputados, que recentemente aprovou o Projeto de Lei (PL) 2.780/2024, estabelecendo diretrizes para política nacional de minerais críticos e estratégicos. O parlamentar afirmou que, em conversas com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, solicitou a relatoria do projeto na Casa.

— O mundo vive hoje uma profunda reorganização das cadeias globais de suplementos. Minerais como lídio, grafita, níquel, cobre, cobalto, nióbio, já ocupam posições estratégicas para o setor, como mobilidade elétrica, fertilizantes, defesa, semicondutores, infraestrutura digital e transição energética. Os minerais oriundos das terrar raras reforçam esta tendência de uma nova ordem mineral mundial. Neste cenário, o Brasil possui uma oportunidade histórica. Somos uma das maiores potências minerais do planeta e precisamos discutir, não apenas a expansão da atividade mineral, mas principalmente como transformar riqueza geológica em desenvolvimento industrial, inovação tecnológica e agregação de valores no território nacional — disse.

Para o parlamentar, o debate legislativo em curso traz tema relevante como a rastreabilidade mineral, segurança do suprimento, verticalização das cadeias produtivas, financiamento a inovação, pesquisa mineral, licenciamento, governança regulatória e inserção estratégica do Brasil nas cadeias globais de valor.

— Também é importante refletir sobre o equilíbrio entre as competitividades, sustentabilidade ambiental e segurança jurídica, garantindo ambiente regulatório moderno, eficiente, capaz de atrair investimento de longo prazo.

Debate

O primeiro convidado a falar na audiência foi Frederico Bedran Oliveira, diretor da Associação de Minerais Críticos (AMC). Ele afirmou que o Brasil é um potencial grande ator para a cadeia desses minerais, e que o Senado tem um papel muito importante destravar esta pauta e discutir a política para o setor, com cautela e parcimônia. Ele lembrou que boa parte dos investimentos em mineração são de capital estrangeiro e o país deve propiciar um ambiente de negócios favorável, respeitando a soberania do Brasil.

— É importante destacar que a mineração de alto custo exige investimentos de altíssimo vulto, com tempo de maturação significativo, o que exige uma previsibilidade para todos os players — observou.  Ele criticou, porém, a criação de um conselho com poderes de controle de transações societárias no projeto aprovado na Câmara, o que geraria insegurança jurídica.

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Representando o Ministério de Minas e Energia (MME), Ana Paula Lima Vieira Bittencourt, secretária nacional de Geologia, Mineração e Transformação Mineral, destacou que a premissa fundamental para o desenvolvimento do setor deve ser aproveitar os recursos naturais que o país dispõe de maneira soberana e gerar riqueza para a população. Isto significa a possibilidade que o país tem de escolher até onde vai esta cadeia produtiva, quem vão ser os parceiros estratégicos, e a criação de um ambiente econômico propício. Ela reforçou que os interesses e investimentos privados são a mola propulsora do setor mineral no Brasil.

— Como que nós vamos equilibrar a necessidade indispensável destes investidores, na medida em que o Estado brasileiro sequer teria fôlego para fazer isso diretamente, nós sabemos disso. Quanto de recursos são necessários para que a gente consiga tirar do chão, digamos assim, um projeto de terras raras, quiçá se a gente for considerar todo potencial mineral que tem no Brasil e se a gente considerar que o estado brasileiro teria que ser o único protagonista nisto. Não, sabemos ser indispensável esta parceria com este capital — defendeu.

Ela afirmou que insumos minerais que são indispensáveis para tecnologia hoje podem não ser amanhã, e que um ativo que é grande para o Brasil hoje pode deixar de ser no futuro se o país não conseguir aproveitar a oportunidade de agora.

Já Maria Tereza Almeida Cunha de Castro, especialista em políticas e indústria da Confederação Nacional da Indústria (CNI), lembrou que a mineração é a base de toda a indústria, e que os projetos em discussão no Senado integram a agenda legislativa da indústria. Ela reforçou que o momento é fundamental para o país avançar e não perder a oportunidade de se destacar no setor. Ela trouxe ainda exemplos de boas iniciativas de convergência na pesquisa e tecnologia do país já vigentes, como o projeto MAGBRAS, na separação e terras raras, em parceria com o Senai.

Enio Rodrigues, diretor-executivo do Sindicato da Indústria de Condutores Elétricos, Trefilação e Laminação de Metais Não Ferrosos do Estado de São Paulo (Sindicel), trouxe exemplos práticos da cadeia do cobre, que é estratégico para o Brasil e o mundo. Cotado na bolsa de Londres por US$14 mil dólares a tonelada, há um ano atrás o insumo estava a US$ 9.500, aumento de 50% nos últimos meses, encarecendo a cadeia e dificultando a indústria nacional que depende do insumo. Além disso, observou que a demanda cresce absurdamente e que a tendência é ficar incontrolável se o Brasil não administrar bem o recurso, indispensável entre outros, para data centers e carros elétricos.

—  A cada carro elétrico fabricado, 48 kg de cobre vão estar lá dentro de algum tipo de cabo, de algum tipo de transmissão lá dentro. Imagina em um caminhão — exemplificou.

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Silvia Cristina Alves França, diretora do Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), afirmou que sem pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação não haverá agregação de valor na cadeia produtiva dos minerais críticos.

— Quando a gente fala dos países que se desenvolveram tecnologicamente e hoje são os grandes players mundiais na produção não apenas dos minérios, mas na produção dos produtos acabados de uso pela sociedade, para descarbonização, para alta tecnologia e para questão de defesa, a gente precisa entender que estes países Investiram fortemente em pesquisa, desenvolvimento e inovação, mas também na industrialização dos seus países, e nisso o Brasil está bastante para trás, e a gente tem então que dar passos mais largos para diminuir esta distância.

Ela disse que o projeto da Câmara prevê que 0,5%, da receita bruta dos minerais críticos e estratégicos devem ir para pesquisa e inovação, porcentagem abaixo dos países que possuem cadeias desenvolvidas, de acordo com a pesquisadora, que investem em média 1% da receita bruta.

Terras raras e minerais críticos

O projeto define minerais críticos como aqueles cuja disponibilidade está em risco devido a limitações na cadeia de suprimento, e cuja escassez poderia afetar setores considerados prioritários da economia nacional, como transição energética, segurança alimentar e nutricional ou segurança nacional.

Já os estratégicos são aqueles que têm importância para o Brasil em razão de o país possuir reservas significativas essenciais para a economia na geração de superávit comercial e desenvolvimento tecnológico ou para redução de emissões de gases do efeito estufa.

As terras-raras são um conjunto de 17 minerais usados como matéria-prima para setores considerados críticos, como mobilidade, defesa, eletrônica avançada e transição energética.

Túlio, térbio, gadolínio, cério, neodímio, disprósio, érbio, európio, lutécio, hólmio, lantânio, promécio, praseodímio, escândio, samário, ítrio e itérbio. Os 17 elementos conhecidos como terras raras são usados na produção de carros elétricos, turbinas eólicas, tecnologias de iluminação e sistemas militares. Classificados como minerais críticos, ao lado do cobalto, do lítio e do grafite, são essenciais para projetos de transição energética e de tecnologias de ponta, como painéis solares, smartphones e notebooks. 

Listas e instrumentos

A lista brasileira de minerais críticos e estratégicos será atualizada periodicamente pelo governo federal e deve orientar o uso dos instrumentos de estímulo previstos, como:

  • zonas de processamento de transformação mineral (ZPTMs);
  • incentivos fiscais e creditícios;
  • financiamentos específicos;
  • parcerias público-privadas e consórcios de pesquisa.

A proposta também inclui cobre e minerais nucleares entre os estratégicos e introduz regras de rastreabilidade da cadeia mineral, com informações sobre origem, volume e agentes envolvidos.

Além disso, o projeto altera o Código de Mineração para acelerar o retorno de áreas disponíveis à exploração e impedir retenção especulativa, com a previsão da redução mínima de 50% da área autorizada na segunda prorrogação da pesquisa.

A política deverá ser regulamentada pelo Ministério de Minas e Energia e alinhada às diretrizes nacionais de transição energética e soberania tecnológica.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

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POLÍTICA NACIONAL

Debatedores defendem manutenção do prazo de 20 anos para patentes de remédios

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Participantes de audiência pública na Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados defenderam, nesta terça-feira (14), a manutenção do prazo de 20 anos para a vigência de patentes no Brasil, contados da data de depósito do pedido.

Os palestrantes argumentaram que o cumprimento desse limite é importante para garantir a sustentabilidade do Sistema Único de Saúde (SUS) e permitir a entrada de medicamentos genéricos e biossimilares no mercado, o que reduz preços e amplia o acesso da população a tratamentos de ponta.

Na audiência, representantes da indústria nacional e do governo rejeitaram qualquer extensão do período de exclusividade. O presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos e Biossimilares (PróGenéricos), Tiago de Moraes Vicente, resumiu a posição do setor com o lema “20 anos e nem um dia mais”.

Segundo Tiago Vicente, qualquer tentativa de estender esse prazo, seja por via judicial ou legislativa, é nociva e gera prejuízos bilionários ao sistema público e ao bolso do consumidor.

O presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Química Fina (Abifina), Andrey Freitas, reforçou que o prazo atual é “mais do que suficiente” para o retorno financeiro das empresas inovadoras. Ele citou um estudo internacional indicando que 91% dos produtos oncológicos, que estão entre os mais complexos e caros, recuperam seus investimentos em pesquisa e desenvolvimento em apenas oito anos.

“Do ponto de vista econômico, a gente não tem nenhum tipo de dado concreto que comprove a necessidade de extensão de patente”, ressaltou Freitas.

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Para o presidente da Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais (Alanac), Henrique Tada, a extensão do prazo “não trata de proteger uma invenção, mas de manter um único fornecedor por mais tempo”, o que prejudica a concorrência e o parque industrial nacional.

Propriedade intelectual
Apesar da defesa do limite temporal, os debatedores reconheceram a importância da propriedade intelectual para o desenvolvimento do país.

A coordenadora-geral de Promoção e Regulação do Complexo Industrial do Ministério da Saúde, Constance Chabin, destacou que a patente é um instrumento importante de incentivo à inovação que permite o fortalecimento tecnológico e econômico da indústria.

Bruno Spada / Câmara dos Deputados
Audiência Pública - Impactos da extensão de patentes sobre o orçamento da União e no financiamento do SUS. Coordenadora-Geral de Promoção e Regulação do Complexo Industrial - Ministério da Saúde, Constance Marie Meiners Chabin.
Constance Chabin: pedidos judiciais de extensão de patentes geram impacto no SUS

Andrey Freitas acrescentou que o Brasil é defensor da propriedade industrial e que a legislação atual ajudou a construir uma indústria farmacêutica sólida. “Não dá para falar sobre indústria farmacêutica no Brasil sem estar associada diretamente a uma defesa ferrenha de proteção patentária”, declarou.

O equilíbrio, segundo os especialistas, reside em respeitar o privilégio temporário do inventor, mas garantir que a inovação entre em domínio público após os 20 anos.

Impactos no SUS
O debate ocorreu em um momento de pressão sobre os prazos das patentes. Constance Chabin informou que, apenas no primeiro semestre de 2026, foram contabilizados 41 pedidos judiciais de extensão de patentes, a maioria alegando atrasos na análise pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). No entanto, ela ressaltou que muitos atrasos podem ser imputados às próprias empresas depositantes.

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Um estudo do Ministério da Saúde estimou que a extensão das patentes por via judicial pode gerar um impacto financeiro no SUS entre R$ 7,1 bilhões e R$ 16,2 bilhões.

De acordo com Chabin, apenas cinco medicamentos são responsáveis por 70% desse impacto estimado.“Os impactos não são só de ordem orçamentária”, destacou. “A compra de medicamentos com preço elevado gera um atraso na incorporação de tecnologias realmente inovadoras, porque estamos pagando um preço elevado por tecnologias que entraram no mercado há 10, 12 anos atrás.”

Projetos
O presidente da Comissão de Defesa do Consumidor, deputado Clodoaldo Magalhães (PV-PE), alertou para a existência de projetos de lei no Congresso que tentam restabelecer mecanismos de extensão de prazo extintos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2021.

Ele também destacou a necessidade de a sociedade se mobilizar para que o investimento em inovação não ocorra em prejuízo da vida e da longevidade das pessoas. “Toda essa inovação, para que vai servir, se não para a vida humana?”, refletiu.

Clodoaldo Magalhães disse aguardar a sanção do projeto de lei (PL 2583/20) que garante a autonomia do Brasil na produção de medicamentos, vacinas, equipamentos e insumos médicos. A proposta, já aprovada pela Câmara e pelo Senado, cria a Estratégia Nacional de Saúde.

Reportagem – Noéli Nobre
Edição – Ana Chalub

Fonte: Câmara dos Deputados

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