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Curso no TJMT propõe reflexão sobre envelhecimento e qualidade de vida

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Começou nesta quarta-feira (27 de agosto) o curso “Resolução CNJ 520/2023: Política Judiciária sobre Pessoas Idosas e suas Interseccionalidades”, promovido pela Escola Superior da Magistratura de Mato Grosso (Esmagis-MT). O evento segue até sexta-feira (29), na sede da instituição em Cuiabá, com atividades presenciais nos períodos da manhã e da tarde.

A capacitação é direcionada a magistrados e assessores que atuam em Cuiabá e Várzea Grande, além de parte das vagas reservadas a juízes do interior.

O curso é coordenado pelo desembargador Orlando de Almeida Perri, presidente da Comissão de Atenção à Pessoa Idosa do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), e reconhecido pela Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados (Enfam).

Na abertura, o desembargador ressaltou que o Judiciário precisa se preparar para lidar com os desafios do envelhecimento populacional, destacando que a questão já não é uma previsão de futuro, mas uma realidade que bate à porta do Brasil e, em especial, de Mato Grosso. Ele alertou que a magistratura deve estar atenta a esse novo cenário e capacitada para dar respostas efetivas.

“Nós temos que preparar para nossa realidade, a atual realidade que já nos bate à porta, que é a questão dos idosos. O número de idosos é cada vez maior no Brasil e nós temos que estar preparados para enfrentar as situações provenientes do envelhecimento da população brasileira”.

Ainda durante sua fala, Orlando Perri destacou que o curso tem a função de preparar juízes e servidores para esse novo momento, reforçando que a criação de comissões voltadas à questão da pessoa idosa é uma determinação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Segundo ele, o tema tende a se tornar um dos principais desafios do Judiciário brasileiro nos próximos anos.

“Este curso é uma preparação para esse momento, direcionado a juízes e servidores, porque temos o papel de representar a sociedade. O CNJ, inclusive, determina que os tribunais criem comissões de atenção à pessoa idosa, e penso que este será um dos grandes temas a ser enfrentado pelo Judiciário nacional”.

O magistrado finalizou lembrando que, apenas em Mato Grosso, já existem cerca de 400 mil pessoas idosas, um dado que por si só demonstra a urgência do debate.

“Em nosso Estado, temos hoje cerca de 400 mil idosos. É uma realidade que já está posta e precisa ser enfrentada”.

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Em seguida, o desembargador Mário Kono, presidente do Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos (Nupemec), trouxe uma análise sobre as mudanças demográficas do país e a necessidade de adaptação das instituições públicas. Para ele, o aumento da população idosa exige do Judiciário uma nova forma de atuação, voltada para garantir proteção e inclusão.

“Nós somos um país que cada vez mais terá idosos. Talvez haja uma redução no número de crianças e jovens, mas haverá um acréscimo significativo de idosos”, disse.

Kono explicou que essa preocupação levou o CNJ a editar a Resolução 520, norma que estabelece diretrizes para que os tribunais assegurem tratamento prioritário aos idosos, tanto no andamento de processos quanto na criação de políticas voltadas à sua proteção.

“O CNJ, preocupado com isso, editou a Resolução 520, determinando que o Judiciário dê mais atenção ao idoso, garantindo atendimento célere, participação na sociedade e proteção”.

Ele ressaltou, ainda, que a capacitação de magistrados e servidores é uma das medidas centrais previstas pela resolução e que ferramentas como a mediação podem ser fundamentais para lidar com demandas que envolvem essa parcela da população.

“Uma das determinações é justamente a capacitação dos profissionais que lidam com essa realidade, utilizando, inclusive, ferramentas como a mediação. Por isso, estamos aqui junto com o professor Vladimir para oferecer essa formação aos colegas magistrados e servidores”.

O juiz federal Vladimir Santos Vitovsky, responsável por ministrar parte das aulas, trouxe uma visão histórica e jurídica sobre a proteção da pessoa idosa no Brasil. Ele lembrou que, embora a Constituição de 1988 e o Estatuto do Idoso já representem marcos importantes, ainda há necessidade de efetivar essas garantias dentro do sistema de Justiça.

“Embora a Constituição de 1988 já proteja os direitos dos idosos, tivemos depois o Estatuto do Idoso, em 2003, e, mais recentemente, o CNJ lançou a Política Nacional Judiciária de Proteção à Pessoa Idosa, em 2023. Essa política prevê, no artigo 15, a realização de capacitações, como esta, que disseminam e implementam as diretrizes da resolução.”

Vitovsky detalhou que a formação vai além das aulas teóricas e inclui visitas técnicas e momentos de integração com diferentes áreas do atendimento à população idosa. O objetivo é aproximar a magistratura da realidade vivida por essas pessoas e criar mecanismos mais eficientes de proteção.

“Durante o curso, vamos discutir os termos da resolução, as suas origens e boas práticas de outros tribunais, como o TJDFT. Também realizaremos visitas técnicas a CRAS, CREAS, instituições de longa permanência e à Vara Especializada de Proteção ao Idoso”.

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Ao final, o magistrado destacou que o curso será encerrado com um exercício prático de consolidação das experiências vividas pelos participantes.

“Na sexta-feira, vamos sistematizar essas experiências para construir um manual de orientação de implementação da política aqui em Mato Grosso”.

Entre os participantes, o juiz José Antônio Bezerra Filho, coordenador estadual do Programa Justiça Comunitária, fez uma avaliação sobre a importância da formação. Ele ressaltou que a Resolução 520 do CNJ representa uma oportunidade de reflexão sobre o envelhecimento, lembrando que todos, em algum momento, viverão essa etapa da vida.

“Todos nós chegaremos a terceira idade. Esta manhã foi extremamente produtiva e nos fez refletir sobre o que podemos ser, pensar e agir”.

Para o magistrado, a Justiça Comunitária dialoga diretamente com o tema, na medida em que busca aproximar o Judiciário da realidade das pessoas e fomentar a solidariedade social.

“É um olhar diferente sobre a velhice com qualidade de vida, não só para nós, mas para o nosso semelhante. A Justiça Comunitária tem exatamente esse propósito: olhar para o outro”.

Encerrando sua fala, José Antônio Bezerra destacou que o curso desperta a necessidade de mudanças e de políticas públicas sérias para atender a população idosa. Ele elogiou a iniciativa e disse acreditar que os resultados da formação já começam a provocar mudanças de percepção entre os participantes.

“Saio desta manhã com reflexões do que precisamos mudar, de políticas públicas sérias que já deveríamos ter implementado. Parabenizo os idealizadores, porque este debate é de alta reflexão e tenho certeza que o nosso amanhã já será diferente a partir dos ensaios de hoje”.

Ao longo do curso serão abordados também temas como o Estatuto do Idoso (Lei 10.741/2003), os fluxos de tratamento de denúncias nos tribunais, a prioridade na tramitação de processos, além de debates sobre mediação, conciliação e atuação do Nupemec em casos que envolvem a população idosa. Também são discutidos aspectos como envelhecimento, violência contra pessoas idosas, cuidados necessários e rede de enfrentamento a abusos.

Autor: Flávia Borges

Fotografo: Eduardo Guimarães

Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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Encontro de almas: diligência abriu as portas da paternidade para agente da Infância e Juventude

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Foto horizontal dos anos 1990 que mostra o agente da Infância e Juventude Aparecido Donizete abraçado com a filha Érica, que tinha cerca de 10 anos na foto. Ela era uma menina de pele clara com longos cabelos loiros e cacheados.

Das histórias de tantas crianças e adolescentes que ajudou a reescrever, enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido Donizete da Silva, atualmente lotado na Comarca de Várzea Grande, encontrou em uma de suas diligências, em 1990, a primeira página de sua própria jornada enquanto pai.

Uma bebê foi abandonada pela mãe na casa da parteira, uma senhora muito pobre e sem condições de cuidar da criança, em Barra do Bugres. Nomeado guardião legal da criança, Aparecido levou a bebê com apenas quatro dias de nascida para casa. Ele e a então esposa cuidaram da recém-nascida até que ela restabelecesse a saúde, ao longo de três meses. O cuidado foi tamanho que o servidor, que também trabalhava como professor no período noturno, deixou este emprego para se dedicar ao cuidado com a menina.

Aparecido revela que não tinha interesse em adotar, mas, após três meses de acolhimento daquela bebezinha, decidiu que queria ficar com ela para sempre e pediu para entrar na fila da adoção. O processo levou tempo, pois investigações foram feitas e a mãe biológica foi identificada. Ela teve que registrar a criança, mas acabou perdendo o pátrio poder e, então a menina pôde participar do processo de adoção. “Ela veio como um presente de Deus”, afirma Aparecido.

Já estava escrito

“Eu acho que tudo já estava escrito pra ser dessa forma. Ele já era meu pai, só foi me buscar”, afirma Érica Taiane Buzato da Silva, 36 anos, filha mais velha de Aparecido, que sente o mesmo. “Pra mim, já existia uma paternidade de verdade, o vínculo, o cuidado e o amor vieram antes da ‘chegada’. Quando ela diz isso, eu sinto que a nossa história confirmou o que a gente viveu todos os dias”, diz o servidor.

Érica conta que seus “pais do coração” sempre foram transparentes em relação à sua origem e que, mesmo passando anos questionando o porquê do abandono, o amor que recebeu da família a levou a superar todas as dores.

“Eu sempre soube que eu era adotada. Fui a primeira filha deles. Depois, eu tive mais dois irmãos e a gente cresceu muito feliz. O meu pai é uma pessoa maravilhosa na minha vida! Não sei nem como agradecer porque, se não fosse ele, eu não sei o que poderia ter acontecido comigo. Sou muito grata ao meu pai e à minha mãe porque cuidaram de mim com todo amor, sem nenhuma diferença de mim e os meus irmãos”, diz.

A gratidão relatada por Érica é sentida também por parte do pai dela. “Me sinto profundamente grato e em paz. Olhando pra trás, vejo que o acolhimento que demos à Érica foi mais do que cuidados: foi amor que sustentou a ela e a mim”, afirma. Em relação à paternidade, que começou com a chegada de Érica em sua vida, Aparecido conta que sempre viu como algo muito simples a educação dada a ela e aos demais filhos, Evili e Lucas. “Nunca vi a Érica diferente, mas sim como filha, igual aos outros”, conta.

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Foto vertical antiga que mostra o agente da Infância e Juventude, Aparecido Donizete, com a ex-mulher, duas filhas e o filho ainda crianças, em uma festa. Eles posam sorrindo para a foto.Legado construído com exemplo

Aparecido destaca que sempre priorizou transmitir aos filhos valores como honestidade, caráter e determinação para batalhar pelos objetivos. “Eu sempre busquei passar esses valores no comportamento e nas escolhas do dia a dia, sendo honesto, firme e batalhador, para que eles aprendessem com a nossa convivência, não só com palavras”, pontua.

Para Érica, ficaram desses ensinamentos a admiração e o desejo de seguir os mesmos passos do pai. “Meu pai é uma pessoa de muito caráter, muito esforçado, inteligente, batalhador. Eu sei que a vida dele também foi muito difícil. Eu não sou igual a ele, mas tento ser e me espelho nele porque é uma pessoa maravilhosa. Ele me ensinou a ser uma pessoa honesta e a lutar pelos meus objetivos, pela minha felicidade. Eu conto tudo pra ele, então, a gente tem realmente uma ligação muito forte”, afirma Érica.

Ela destaca que se considera parecida até fisicamente com Aparecido. “É estranho, mas eu acho que a convivência faz a gente ficar parecido. Dizem que pai é quem cria, mas, pra mim, é mais do que isso: meu pai é meu porto seguro, minha referência”.

Por sua vez, Aparecido diz ser muito gratificante e emocionante ver os frutos do seu amor de pai. “Saber que a minha presença ajudou a formar o caráter dela e que hoje existe essa conexão me dá orgulho, e também me faz querer continuar fazendo o certo todos os dias”.

Apoio incondicional

Encontrar nos pais um porto seguro fez com que Érica tivesse coragem para encarar de frente seu passado e, depois de adulta, buscar suas origens. “Eu não perguntava por que achava que era algo que machucava eles, de certa forma. Mas, quando eu perguntei, ele foi atrás, conseguiu o contato de outro pai que também tinha adotado a minha outra irmã. Meu pai me ajudou e eu conheci ela e outro irmão, filho dessa minha mãe biológica. E foi muito legal conhecê-los porque faz parte da minha história, de certa forma, porque têm o meu sangue”, relata Érica. Ao reencontrar os irmãos biológicos, sua genitora havia falecido um ano antes.

Da parte de Aparecido, ele conta que ajudar Érica nesse processo de resgatar o contato com a família biológica foi um misto de carinho e responsabilidade. “Eu entendia o desejo dela de conhecer as origens e apoiei esse caminho. Ao mesmo tempo, eu precisava respeitar o tempo dela e garantir que essa busca não virasse dor ou culpa. Ver que ela conseguiu se aproximar com segurança me deixa muito satisfeito”, avalia.

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Imagem quadrada gerada com auxílio de inteligência artificial que mostra o agente da Infância e Juventude Aparecido Donizete e sua filha Érica abraçados, com um fundo verde de um parque. Ele é um homem pardo de cabelo grisalho e ela uma jovem branca e loira.

Há oito anos morando na Europa, Érica afirma ser difícil estar longe da família, especialmente em datas comemorativas, como o Dia dos Pais, mas que a única palavra que vem à sua mente nessas horas é gratidão. “Quero que ele saiba que é o melhor pai do mundo, que eu sou muito grata a ele por cada gesto, por cada abraço. Minha maior certeza na vida é que eu amo muito ele. Mesmo distantes fisicamente, graças a Deus somos muito próximos, pois, de certa forma ele me deu a vida”, assevera Érica.

Pai e apoiador, Aparecido confirma que a distância aperta o coração, mas que, ao mesmo tempo, sente orgulho ao ver que Érica está correndo atrás dos próprios objetivos com coragem. “A gente procura estar presente do jeito que dá, com diálogo, apoio e carinho. E isso ajuda a transformar a saudade em motivação”.

Adoção

Enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido ressalta que a Justiça tem um papel fundamental em garantir que toda criança tenha o direito de crescer em um ambiente seguro, com afeto, dignidade e oportunidades. “A adoção não é apenas um ato jurídico; é a construção de uma família baseada no amor e na responsabilidade”, avalia.

Ele lembra que, desde quando adotou Érica até os dias atuais, a legislação evoluiu muito. “Hoje, o processo de adoção é mais estruturado, transparente e voltado, acima de tudo, ao melhor interesse da criança e do adolescente. Há uma preparação maior das famílias, acompanhamento técnico e mecanismos que buscam reduzir o tempo de permanência de crianças em acolhimento institucional, sempre preservando seus direitos”, explica.

Aparecido aproveita este Dia dos Pais para deixar uma mensagem a todos os pais: “Aos pais biológicos, que valorizem o privilégio de acompanhar o crescimento dos seus filhos com amor, presença e responsabilidade. E aos pais de coração, que nunca duvidem da força do amor que escolheram oferecer. A verdadeira paternidade não é definida pelo sangue, mas pela presença, pelo cuidado, pelo exemplo e pelo compromisso de estar ao lado do filho em todos os momentos da vida. É esse amor que transforma histórias, fortalece famílias e constrói seres humanos melhores”, declara.

Érica, por sua vez, afirma: “Adoção não é sobre preencher um vazio, mas sobre transbordar o amor, porque é isso que eu sinto”.

Celly Silva

Coordenadoria de Comunicação do TJMT

[email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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