POLÍTICA NACIONAL
Debatedores defendem lei que restringe uso de celular em escolas
Publicado em
10 de março de 2025por
Da Redação
Debatedores que participaram de audiência do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional (CCS) nesta segunda-feira (10) consideraram benéfica a sanção da lei que restringiu o uso de celular em escolas. Os convidados disseram que professores e gestores educacionais não são contrários às tecnologias, mas defendem um uso saudável desses instrumentos. Destinada a subsidiar a regulamentação da norma, ainda em elaboração pelo governo, a reunião foi conduzida pela vice-presidente do CCS, Patrícia Blanco.
Sancionada em 14 de janeiro, a lei determinou que crianças e adolescentes não podem mais utilizar de forma indiscriminada aparelhos eletrônicos portáteis, como celulares, nas escolas públicas e privadas de educação básica de todo o país. Com a norma, ficaram proibidos de usar os aparelhos eletrônicos portáteis (celulares e tablets, entre outros), durante todo o período na escola, os estudantes matriculados na educação infantil, no ensino fundamental e no ensino médio. Em sala de aula, o uso dos celulares passou a ser permitido apenas para fins pedagógicos ou didáticos, mediante orientação dos professores.
Estudos apresentados na audiência pública do CCS apontam que a maioria da população brasileira também se mostra favorável à proibição. E que os próprios estudantes reconhecem que o celular atrapalha sua concentração nas atividades escolares e nas tarefas de casa.
A diretora de apoio à Gestão Educacional no Ministério da Educação, Anita Stefani, mostrou dados do relatório do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) Brasil 2022, segundo os quais 93% de alunos com idade entre 9 e 17 anos usam a internet regularmente. Desse total, 98% dos entrevistados afirmaram que usa a internet por meio do celular.
Aplicado aos estudantes brasileiros no Pisa, o questionário revelou que 80% desses jovens afirmam que se distraem e têm dificuldades de se concentrar nas aulas de matemática, por exemplo, por causa do celular. O estudo é um comparativo internacional realizado a cada três anos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
De acordo com Anita, crianças de 9 a 10 anos que responderam à pesquisa afirmaram que sua primeira experiência de acesso à internet, com celular, aconteceu antes dos 6 anos. Outro dado destacado pela convidada é que, apesar das proibições legais, muitas crianças e adolescentes possuem perfil ativo (conta) nas plataformas digitais.
— Quanto mais jovem é a criança, mais cedo foi seu acesso à internet, o que mostra que as famílias estão com mais dificuldade de manter crianças pequenas afastadas do celular e da internet.
Conteúdo sensível
Anita considerou a restrição de idade para a criação de perfis na internet um ponto importante, e lamentou que a medida não seja totalmente cumprida no Brasil. Ela alertou para o fato de que crianças e adolescentes têm tido acesso a conteúdos sensíveis na internet, que podem afetar severamente sua saúde mental.
Segundo a pesquisa TIC Kids on-line Brasil – 2024, citada pela debatedora, 9% do total de crianças analisadas, entre 11 e 12 anos de idade, tentaram machucar a si mesmas. Esse percentual foi de 12% entre jovens com idades entre 15 a 17 anos. Os que buscaram formas para cometer suicídio devido ao acesso irrestrito à internet somaram 7%, tanto nas crianças entre 11 e 12 anos quanto nos jovens de 15 a 17 anos de idade.
Anita reforçou que a lei que restringiu o uso de aparelhos nas escolas não proíbe o porte do aparelho nessas instituições de ensino. Ela observou que o texto até incentiva o uso intencional dos equipamentos para o desenvolvimento das crianças e adolescentes.
— Não dá para negar a importância da tecnologia, mas precisamos usá-la com consciência e no intuito de promover o desenvolvimento dessas pessoas — destacou a diretora.
Salvaguarda mental
A lei afirma que o objetivo da restrição é salvaguardar “a saúde mental, física e psíquica de crianças e adolescentes”, diante da usual utilização de celulares por parte dos estudantes durante o período de estudo nas salas de aula e nos momentos que deveriam ser destinados à socialização, como recreio ou intervalos entre as aulas.
A norma, no entanto, apontou algumas exceções. Além do uso para fins pedagógicos, os estudantes têm permissão para uso dos celulares, dentro ou fora da sala de aula, quando for preciso garantir a acessibilidade e a inclusão, e também quando for necessário atender às condições de saúde ou garantir direitos fundamentais.
O projeto que deu origem à nova legislação foi aprovado pelo Senado em dezembro. Atual secretário de Educação do município do Rio de Janeiro, Renan Ferreirinha foi o relator da proposta na Câmara dos Deputados. Ele considerou a sanção um marco para a educação brasileira, frisando que o tema se tornou o principal foco da discussão sobre educação no país no início do ano letivo de 2025.
Ferreirinha também destacou que o corpo docente não se mostra contrário às tecnologias nas escolas, mas ressaltou que a ferramenta é considerada importante, desde que usada de maneira consciente, responsável e com fins pedagógicos.
Ao apontar dados de uma consulta pública feita recentemente pelo governo do Rio de Janeiro sobre o tema, o debatedor disse que a restrição é bem sucedida no estado e vem diminuindo inclusive casos de bullying e cyberbullying. Ferreirinha observou ainda que a iniciativa de restringir o uso de celular em escolas partiu, entre outros fatores, do incômodo gerado entre os atores da educação pelo uso exacerbado das telas por crianças e adolescentes. Para ele, o assunto é uma “pauta de país”, sendo fundamental sua regulamentação para se promover um uso consciente da tecnologia nas escolas.
— No Rio de Janeiro, a gente já tinha desejo de realizar algo sobre isso. Começamos com a proibição de uso em todas as escolas, o que deu muito certo. Fizemos, depois, uma consulta pública para colher a opinião da população, na qual tivemos mais de 10 mil participações. Dessas, 83% foram a favor da proibição também nos intervalos das aulas, 11% se posicionaram favoravelmente à proibição somente na sala de aula e, apenas 6%, se mostrou contrária a qualquer tipo de impedimento — informou o secretário.
Mudança almejada
Especialista em educação digital do Instituto Alana, Rodrigo Nejm considerou a escola o ambiente ideal para o uso pedagógico das diversas tecnologias existentes. De acordo com ele, a lei é um instrumento para as mudanças educacionais também almejadas pelos próprios estudantes e suas famílias.
— Estamos muito animados com a nova lei, pela chance que ela traz de amplificação do repertório digital entre os estudantes. É para eles poderem fazer com o celular [na escola] o que jamais fariam sentados nos sofás de suas casas. A gente tem destacado que a lei não significa de forma alguma menos educação digital, mas muito pelo contrário: ela traz um novo panorama de ainda mais educação digital e midiática. O que a gente precisa é apenas de um novo formato de implementação — disse o debatedor.
Video sob demanda
Às 14h, o CCS voltará a se reunir para tratar de assuntos como a votação de um relatório sobre a necessidade de regulação do vídeo sob demanda no Brasil, elaborado pela conselheira Sonia Santana, e uma proposta de manifesto do conselho sobre princípios de democracia e liberdade relacionados à comunicação social, feito pelo conselheiro Davi Emerich. Vídeo sob demanda é o sistema que permite ao usuário assistir quando e onde quiser, a exemplo do YouTube. O conteúdo é distribuído por meio da internet, por tecnologia de banda larga.
O CCS é um órgão auxiliar do Congresso Nacional que tem como atribuição a elaboração de estudos, pareceres, recomendações e outras solicitações que lhe forem encaminhadas pelo Senado e pela Câmara dos Deputados a respeito do tema da comunicação social no Brasil. É composto por 13 membros titulares e o mesmo número de suplentes.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
POLÍTICA NACIONAL
Discussão sobre fim da escala de trabalho 6×1 continua em agosto
Published
1 dia agoon
28 de julho de 2026By
Da Redação
O fim da chamada escala 6×1, com seis dias de trabalho e um de folga por semana, seguirá em discussão no Senado em agosto, após o recesso parlamentar. A expectativa de alguns senadores é de que a PEC 221/2019 seja votada após a volta dos trabalhos.
Além de acabar coma escala 6×1, a proposta reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem redução de salários.
O texto chegou ao Senado no fim de maio, após aprovação na Câmara dos Deputados. O presidente da Casa, senador Davi Alcolumbre, determinou que a proposta passasse pelas comissões.
O presidente do Senado tem se reunido com os setores interessados no tema para discutir a proposta. No início de julho, a reunião foi com as centrais sindicais, que defenderam o avanço na análise do texto. Antes, em maio, ele já havia recebido integrantes dos empregadores, que defenderam a votação da proposta somente após as eleições.
Agosto
Em entrevista na segunda-feira (13), o líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) afirmou que o fim da escala 6×1 é “prioridade absoluta” para o governo e que continuará trabalhando para que a votação ocorra assim que possível.
— Mesmo no período das eleições, o Senado vai funcionar em esforços concentrados e remotamente. Não impede que possamos ainda votar a PEC do fim da escala 6×1 em agosto. Nós vamos, ainda, insistir em avançar sobre essa proposta de emenda à Constituição ainda nesse período.
As semanas de esforço concentrado serão entre 10 e 14 de agosto e entre 31 de agosto e 3 de setembro, e devem coincidir com os esforços concentrados na Câmara, conforme anunciado por Davi Alcolumbre na quarta-feira (15).
— O calendário é exatamente o mesmo que será adotado pela Câmara dos Deputados, permitindo que o Congresso Nacional funcione em plenitude e de modo eficiente e harmônico — informou Davi.
Defesa
Em pronunciamentos recentes, o senador Paulo Paim (PT-RS), um dos principais defensores da proposta, disse ter esperança de que a votação ocorra em agosto. Para ele, o debate sobre a redução da jornada não “pertence” ao governo, à oposição e nem aos partidos políticos, e sim ao povo.
— Tenho muita esperança de que a PEC vai ser votada no mês de agosto, porque, com certeza, o trabalhador brasileiro sabe que não vai nadar, nadar e morrer na beira da praia. Espero que esta Casa compreenda a dimensão histórica dessa decisão — defendeu.
Para Paim, o fim da escala 6×1 fará a produtividade do trabalhador brasileiro aumentar, ao invés de diminuir. Ele argumentou que países com jornadas menores apresentam índices mais elevados de produtividade por hora trabalhada.
Também em defesa do avanço na análise da PEC, o senador Cleitinho (Republicanos-MG) comparou a jornada dos trabalhadores à dos parlamentares. Ele lembrou que o período de campanha eleitoral começa em agosto e disse que o eleitor precisa cobrar seus representantes.
— Muitos que vão aí pedir voto para você não querem votar o fim da escala 6×1, querem fazer você trabalhar igual a um condenado no 6×1, e nós aqui trabalhando, durante este ano de 2026, o que não vai dar nem um mês de trabalho, do jeito que está aí — criticou.
Eleições
Outros senadores demonstram preocupação com os efeitos da PEC e defendem que a votação fique para depois das eleições. Em sessão temática no início de julho, o líder da oposição, senador Rogerio Marinho (PL-RN), defendeu o amadurecimento do debate e a discussão do tema fora do período eleitoral.
— Não é proibido, não é interditado discutirmos jornada de trabalho. Pelo contrário, é uma discussão que tem que acontecer. Mas por que agora? Por que neste momento? — questionou o senador.
No mesmo debate, o senador Jayme Campos (União-MT) afirmou que votará a favor da PEC, mas defendeu que o debate seja feito com serenidade e que todos os setores sejam ouvidos para que a solução seja equilibrada.
— Estamos falando da vida de milhões de brasileiros, de tempo dedicado à família, ao descanso, à qualificação profissional e, ao mesmo tempo, da competitividade das empresas e da capacidade de gerar empregos. É justamente por isso que este debate exige serenidade, responsabilidade e diálogo — ponderou.
Outras propostas
Também na sessão temática, o senador Jaime Bagattoli (PL-RO) criticou a falta de estudos de impacto econômico e social da medida durante a análise na Câmara e afirmou que a PEC vai ter consequências negativas na economia. Ele defendeu a aprovação de outra proposta em análise no Senado.
— Defendemos a PEC 12/2026, que permite ao trabalhador negociar uma jornada flexível de acordo com as suas necessidades. Direitos como férias, décimo terceiro e FGTS seguirão de forma proporcional à jornada acordada — garantiu.
A proposta foi apresentada pelo senador Rogerio Marinho logo após a chegada da PEC 221 ao Senado. Pela proposta, seria possível escolher entre o regime comum previsto pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) ou um regime flexível baseado em horas trabalhadas. A PEC deixa claro que o contrato individual prevalece sobre possíveis acordos coletivos. Benefícios como FGTS, férias e 13º salário também seriam proporcionais às horas trabalhadas.
Na Câmara, a PEC 221 era analisada junto com outra proposta, a PEC 8/2025, da deputada Érika Hilton (PSOL-SP), que previa uma carga máxima de 36 horas em quatro dias de trabalho. O texto foi arquivado.
Outro projeto, o PL 1.838/2026, foi apresentado em abril pelo Executivo. Ele define em 40 horas semanais o limite da jornada normal de trabalho e garantir ao trabalhador dois repousos semanais remunerados de 24 horas consecutivas. Após a aprovação da PEC 221, o governo retirou o pedido de urgência para o projeto, que segue em análise na Câmara.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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