POLÍTICA NACIONAL

Debatedores pedem rigor para liberdade provisória e criticam audiência de custódia

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Debatedores que participaram de audiência pública na Comissão de Constituição e Justiça  (CCJ) nesta terça-feira (14) defenderam a aprovação de projeto de lei que impede a concessão de liberdade provisória em crimes considerados graves (PL 714/2023).

Na opinião deles, o instrumento da audiência de custódia (em que o suspeito detido pode ser liberado pelo juiz) tem sido usado de forma irresponsável no Brasil, sendo necessário reforçar o arcabouço jurídico para o enfrentamento de crimes graves e a garantia de uma atuação mais efetiva da segurança pública.

O debate foi coordenado pelo senador Marcio Bittar (PL-AC), autor do requerimento da audiência e relator do PL 714/2023. O projeto, em tramitação na CCJ, altera o Código de Processo Penal para determinar que o juiz não poderá conceder liberdade provisória em caso de prisão em flagrante de envolvido em facção ou milícia, reincidente ou que tenha praticado crime com violência ou grave ameaça com arma de fogo.  

Bittar elogiou a proposta, dizendo que é um mecanismo para reduzir a sensação de impunidade do país, e informou que não pretende fazer alterações no texto aprovado pela Câmara. Para ele, a sociedade brasileira exige mudanças para evitar que criminosos e até integrantes da cúpula de facções possam passar por uma audiência de custódia, ser liberados e continuar praticando o delito.

— É sempre bom lembrar que nessa inversão [de prisão para medida protetiva] estão crimes hediondos, participação do bandido em organização criminosa, reincidência. O que se quer evitar é a reincidência. 

Na opinião do deputado Federal Coronel Ulysses (União-AC), autor do projeto, o instrumento da audiência de custódia tem sido usado de forma irresponsável, tornando-se, segundo ele, um vexame em nível internacional para o Brasil. Na visão dele, isso desacredita o sistema de justiça criminal e desestimula os profissionais da segurança pública. 

— A sociedade não admite mais que  uma pessoa cometa um crime por dezenas de vezes. Eu já fiz um estudo, e tem uma pessoa que cometeu 84 crimes e foi liberada 84 vezes pela audiência de custódia. Temos várias situações, muitas vezes são crimes de impacto à sociedade. Estupro, assassinato, situações graves onde o criminoso se apresenta ao juiz em 24 horas e é colocado em liberdade. E o pior de tudo é que se tornou uma constância. 

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Pelo texto do projeto, o juiz deverá negar liberdade provisória se houver indícios fundamentados de existência e autoria do crime e também se o acusado:

  • for reincidente;
  • já tiver sido preso em flagrante por mais de uma vez e solto após audiência de custódia;
  • portar ilegalmente arma de fogo de uso proibido ou restrito; ou
  • tenha se envolvido em outras situações previstas na lei sobre tráfico de drogas.

Para a tomada de decisão, o delegado ou membro do Ministério Público deverá informar ao juiz, com provas, se a pessoa integra organização criminosa armada ou milícia. Em qualquer caso, a decisão deverá considerar a conduta social e os antecedentes criminais do preso, diz a proposta em análise na CCJ.

Reinterpretação 

A audiência de custódia surgiu em tratados  internacionais de direitos humanos, como o Pacto de San Jose da Costa Rica, e foi adotada no Brasil inicialmente pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em 2015.

Após discussões sobre sua legalidade, o Pacote Anticrime (Lei 13.964, de 2019) regulamentou o instituto no Código de Processo Penal, consolidando sua aplicação em todo o território nacional. O instrumento foi adotado para garantir que o preso seja apresentado a um juiz em até 24 horas, para avaliação da legalidade da prisão e coibição de maus-tratos. 

Para o jornalista e especialista em segurança pública Roberto Motta, no entanto, a forma como a audiência de custódia foi adotada no Brasil “foi muito além do que o tratado exige”. Ele disse que o mecanismo representa uma distorção, quando prioriza, segundo ele, “o bem-estar do criminoso em detrimento da vítima e da população”. 

— Essa reinterpretação do pacto não foi um erro; ela serviu a uma agenda oculta que só depois foi revelada. Essa agenda é o desencarceramento. O propósito declarado da audiência [de custódia] é verificar a legalidade da prisão e a ocorrência de violência policial; o propósito verdadeiro é reduzir a população carcerária, soltar criminosos. 

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Inversão da lógica 

No entendimento do procurador Danilo Lovisaro do Nascimento, do Ministério Público do Acre, o projeto de lei busca estabelecer uma presunção de que o indivíduo que praticou crimes graves é perigoso, que ele pode fugir e que a estrutura da organização criminosa a qual ele pertence é capaz de intimidar as demais pessoas.

Na opinião do procurador, é preciso inverter a lógica do ordenamento jurídico brasileiro para decretar a prisão, convertendo-a de flagrante a preventiva, fazendo com que o juiz fundamente a reclusão e não recorra à adoção de medidas protetivas alternativas. 

— É uma lógica importante para situações graves em que o indivíduo que tem um comportamento criminoso já estabelecido, é reincidente, já foi preso em flagrante mais de uma vez, pratica crimes com violência ou grave ameaça, com emprego de arma de fogo; ou em hipótese de tráfico de droga e com causas de aumento, que são aquelas situações gravíssimas do tráfico que ocorre no presídio ou nas proximidades de escolas, e tráfico interestadual também. 

Participação do público

A audiência contou também com a participação de internautas por meio do Portal e-Cidadania. Eles enviaram suas manifestações sobre o projeto, como Clemilton, do Maranhão. Ele concordou com o conteúdo da matéria. 

“Determinados benefícios para determinados tipos de crime têm que acabar, ou então a sensação de impunidade continuará”, disse em mensagem. 

Por outro lado, Ricardo, de Santa Catarina, reconheceu que endurecer as medidas é legítimo, mas salientou que a prisão automática fere decisão individualizada e pode gerar nulidades e superlotação de presídios “sem ganhos claros”. 

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

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POLÍTICA NACIONAL

Especialistas alertam para vício em jogos entre idosos e pedem regulação de publicidade das bets

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Participantes de audiência pública realizada nesta quarta-feira (20) por duas comissões da Câmara alertaram para o crescimento da ludopatia — o vício em jogos — entre idosos e a necessidade de regulação urgente da publicidade das plataformas.

O avanço das plataformas de apostas online, conhecidas como bets, está gerando graves impactos financeiros, sociais e de saúde pública para a população idosa no Brasil. O alerta foi feito por especialistas e representantes do governo federal durante audiência pública conjunta das comissões de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial e de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa da Câmara dos Deputados.

O debate atendeu a requerimentos de autoria de diversos parlamentares, entre eles o deputado Luiz Couto (PT-PB). Durante a reunião, participantes apontaram que a facilidade do Pix e o acesso digital direto às contas de aposentadoria têm facilitado o superendividamento desse público.

Luiz Couto destacou que os alertas servem de subsídio para a análise de projeto de sua autoria voltado a resguardar a dignidade financeira dos idosos.

“Nós temos aí o Projeto de Lei 4466/24, que estabelece regras para proteger as pessoas idosas contra o vício de apostas, que muito acontece e os deixa sem nada”, afirmou o parlamentar.

Segundo ele, a análise do projeto na Comissão de Direitos Humanos reforça a proteção contra a perda de direitos essenciais.

“São direitos humanos que muitas vezes são retirados das pessoas idosas”, pontuou.

Kayo Magalhães / Câmara dos Deputados
Audiência Pública - Impactos das bets na população idosa no Brasil. Grupo de Trabalho Atendimento à Pessoa Idosa e à Pessoa com Deficiência - Defensoria Pública da União, Thaíssa Assunção Faria.
Thaíssa Faria: vício em jogos está  ligado ao superendividamento

Superendividamento
A defensora pública federal Thaíssa Assunção de Faria, integrante do grupo de trabalho de atendimento à pessoa idosa e à pessoa com deficiência da Defensoria Pública da União (DPU), explicou que a ludopatia é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno mental. O vício atua no sistema de recompensa do cérebro por meio da liberação de dopamina.

“O vício em apostas online já é considerado o terceiro maior vício do país, atrás apenas do tabagismo e do alcoolismo”, alertou a defensora. Ela explicou que o problema está diretamente ligado ao fenômeno do superendividamento, que retira o “mínimo existencial” dos cidadãos.

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De acordo com Thaíssa, as empresas enxergam as pessoas idosas como um público-alvo valioso devido à garantia da renda fixa de aposentadorias ou do Benefício de Prestação Continuada (BPC), o que facilita a obtenção de empréstimos consignados abusivos para cobrir as perdas nos jogos.

“Não estamos falando de dinheiro de sobra. Estamos falando de desvios de recursos vitais originariamente destinados para medicamentos, alimentação e moradia”, criticou a defensora.

Ela acrescentou que o sentimento de vergonha pelo colapso financeiro faz com que as vítimas escondam o vício, agravando quadros de ansiedade severa e depressão.

Violência patrimonial silenciosa
A coordenadora-geral de política do direito da pessoa idosa em situação de vulnerabilidade e discriminação múltipla do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Paula Érica Batista, caracterizou a atuação das bets sobre esse público como uma forma de violência patrimonial e financeira (veja no infográfico abaixo).

“As bets trazem uma perspectiva muito violenta e muito silenciosa, porque adentram um universo tecnológico que muitas vezes as políticas públicas não conseguem acessar”, explicou a coordenadora.

Ela apresentou dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos que registrou, de janeiro a maio de 2026, 17.690 denúncias de violência patrimonial e financeira contra pessoas idosas de 60 a 90 anos, resultando em 17.880 violações.

Como resposta, Paula Érica destacou as ações do programa federal Viva Mais Cidadania Digital. O projeto promove o letramento digital e a educação midiática em territórios vulneráveis para ensinar idosos a identificar riscos, golpes e o funcionamento dessas plataformas. O ministério também disponibiliza em seu site oficial uma cartilha de orientação e enfrentamento à violência financeira.

Estratégias de proteção social
Representando o Ministério do Desenvolvimento Social, a especialista em envelhecimento Daniela Jinkings defendeu que o problema não pode ser tratado como uma escolha individual, mas sim como uma questão intersetorial de proteção social.

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Ela sugeriu quatro frentes principais de atuação pública:

  • fortalecer os mecanismos regulatórios sobre a publicidade agressiva das bets, que associa os jogos ao sucesso financeiro e à felicidade;
  • desenvolver estratégias de educação financeira e digital com linguagem adaptada;
  • capacitar profissionais do Sistema Único de Assistência Social (Suas) e do Sistema Único de Saúde (SUS) para identificar os sinais do uso problemático de jogos nos atendimentos territoriais (como nos Cras, Creas e UBS); e
  • fortalecer políticas de convivência comunitária para combater a solidão e o isolamento social, fatores que aumentam a busca pelas plataformas.

“Muitas vezes, o que começa como entretenimento evolui para o endividamento. As plataformas vendem a ilusão de pertencimento, de diversão e de ganho fácil”, alertou Daniela.

Ações na saúde pública
O coordenador-geral da Rede de Atenção Psicossocial do Ministério da Saúde, Bruno Ferrari, apontou que o Brasil vive as consequências de um hiato regulatório de cinco anos, período entre a legalização das apostas (em 2018) e a primeira regulamentação (em 2023), no qual o mercado de marketing expandiu-se sem restrições. Ele informou que o ministério passou a tratar o tema formalmente como um problema de saúde pública.

Bruno destacou dados do Ministério da Saúde: das pessoas que buscam atendimento nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) por problemas relacionados a jogos, cerca de 4% são pessoas idosas. Já nos serviços de urgência, emergência ou internações hospitalares decorrentes do vício, essa população representa cerca de 7% dos casos.

Como resposta pública, o coordenador destacou a criação de uma linha de cuidado específica e o lançamento de um guia de orientação para trabalhadores da saúde. Além disso, informou que a plataforma centralizada de autoexclusão das plataformas de apostas registrou quase 220 mil adesões em seus primeiros 40 dias de funcionamento, direcionando os usuários que desejam suporte para o atendimento digital de telessaúde integrada ao SUS.

Da Redação – GM

Fonte: Câmara dos Deputados

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