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Práticas restaurativas transformam escolas e clima escolar, afirma consultora das Nações Unidas

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Com o painel “Práticas restaurativas e desafios da escola pública”, a consultora da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) para o Ministério da Educação (MEC), Josevanda Franco, destacou a urgência de fortalecer a escola pública como espaço central das aprendizagens e da construção de soluções coletivas para os conflitos. A fala integrou a programação do Seminário “Justiça Restaurativa na Educação e na Ambiência Institucional”, promovido pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), por meio do Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa (NUGJUR), em parceria com a Secretaria de Estado de Educação (SEDUC) nos dias 13 e 14 de novembro, em Cuiabá.

Palestrante segura microfone enquanto fala a um público sentado em auditório. Ela usa blusa marrom e saia clara. Ao fundo, palco com tapete, plantas decorativas e painel de mármore claro.Com uma trajetória marcada pela atuação na educação, direitos humanos e enfrentamento da violência escolar, Josevanda enfatizou que a escola não é a ponta, mas o centro do sistema educacional, e que só prospera quando há cooperação entre Justiça, educadores, famílias e sociedade.

Logo no início, a palestrante reforçou que a educação caminhou sozinha por muito tempo e que a parceria com o Sistema de Justiça representa um “ganho gigantesco”, especialmente na expansão das práticas restaurativas. Ela destacou o impacto do novo curso nacional promovido pelo MEC, que alcançou duas turmas lotadas, cada uma com 210 participantes, além de uma lista de espera com mais de 5 mil profissionais. “Isso mostra o quanto os educadores querem falar e ouvir sobre práticas restaurativas”, afirmou.

Palestrante fala ao microfone em auditório, usando blusa marrom e saia clara. Planta ornamental está ao lado. Fundo com palco elevado e painel escuro.Josevanda apresentou um panorama sensível da realidade escolar brasileira, especialmente no atendimento às crianças com necessidades educacionais específicas. Dados do Censo Escolar (2022) apontam 2,3 milhões de estudantes com laudo, podendo ultrapassar 5 milhões ao considerar aqueles ainda sem diagnóstico. Para ela, essas crianças precisam ser vistas “numa perspectiva restaurativa, e não meramente curricular”, pois muitas vezes a aprendizagem envolve habilidades básicas de autonomia, como acender uma luz ou pedir para ir ao banheiro. “Toda criança é especial. Toda criança precisa de oportunidade”, reforçou.

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Ao discutir violência nas escolas, a palestrante dividiu o fenômeno em três dimensões: a violência praticada pela escola, a percebida pela escola e a que a escola sofre. Para Josevanda, a mais grave delas é não respeitar a capacidade de compreensão de cada estudante individualmente, perpetuando práticas punitivas e comparações que reforçam desigualdades. Ela defendeu a revisão de regimentos internos com base em comunicação não violenta, além da valorização das inteligências múltiplas e das diferentes formas de aprender.

Em sua fala, ressaltou ainda que as práticas restaurativas transformam o clima escolar, baseadas no diálogo, escuta ativa e corresponsabilidade. “O conflito não é ruim. Ele é ponto de partida. O que precisamos é mediar coletivamente, para que ninguém carregue o peso da decisão sozinho”, explicou, relatando experiências concretas de círculos restaurativos que evitaram conflitos maiores e reconstruíram vínculos fragilizados.

Josevanda também chamou atenção para a importância do clima escolar físico e emocional, lembrando que crianças não aprendem em ambientes quentes, rígidos ou pouco acolhedores. Criticou a manutenção de estruturas escolares com “arquitetura de presídio” e defendeu espaços coloridos, arborizados e humanizados, capazes de acolher e inspirar. “Ambiente agradável é condição de aprendizagem. Decisões tomadas isoladamente podem gerar danos incalculáveis”.

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Por fim, reforçou o papel do protagonismo estudantil e a necessidade de escutar crianças e adolescentes como sujeitos de direito, capazes de participar das decisões do cotidiano escolar. “As práticas restaurativas são hoje uma das ferramentas mais potentes para fortalecer a cultura de paz e reconstruir ambientes escolares mais humanos, inclusivos e democráticos”, concluiu a especialista.

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Autor: Naiara Martins

Fotografo: Josi Dias

Departamento: Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa – NugJur

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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Avanços no papel e entraves na prática mostram que a inclusão ainda carece de efetividade

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Apesar da existência de um arcabouço jurídico avançado, a garantia de direitos às pessoas com deficiência ainda enfrenta entraves concretos para sua execução. A avaliação foi apresentada pela advogada doutora Jennyfer Bathemarque durante a palestra “A Pessoa com Deficiência no Sistema de Justiça: Direitos, desafios e o papel do Judiciário na efetivação da inclusão”, realizada dentro da programação do evento “TJMT Inclusivo: Autismo e Direitos das Pessoas com Deficiência”, realizado na quinta-feira (16), na Igreja Lagoinha, em Cuiabá.

A advogada conhece na pele as dificuldades de uma mãe atípica e da necessidade de recorrer ao sistema de Justiça para garantir que o amor de sua vida, seu filho, quando ainda um bebezinho de seis meses, pudesse ser submetido a uma intervenção cirúrgica cardíaca de alta complexidade.

Ao aprofundar a reflexão, a palestrante adotou um tom crítico ao provocar o público sobre a distância entre o que está previsto na legislação e o que, de fato, é entregue à população: o que determina a “Lei Berenice Piana” quanto à responsabilidade dos municípios na proteção das pessoas com autismo?

Segundo ela, o país não carece de normas, mas de efetividade. “Temos um arcabouço jurídico robusto, mas que ainda falha na execução. O direito existe no papel, mas não chega com a mesma força na vida real de quem precisa”, pontuou.

Na avaliação da advogada, essa desconexão se reflete em violações recorrentes: negativa de terapias por planos de saúde, ausência de profissionais especializados nas escolas, falta de atendimento adequado no SUS, escassez de especialistas, longas filas de espera e entraves no acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC). “O que vemos é um sistema que empurra as famílias para decisões difíceis, muitas vezes abrindo mão de estabilidade financeira para tentar garantir o mínimo de dignidade”, alertou.

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A crítica se intensifica quando o acesso a direitos passa, quase sempre, pelo Judiciário, evidenciando um cenário que exige reflexão: direitos básicos ainda dependem de ação judicial para serem garantidos, enquanto a morosidade processual compromete tratamentos que não podem esperar.

A advogada cita ainda que se soma a isso a exigência excessiva de laudos, que acaba se tornando mais uma barreira de acesso, além da falta de uniformidade nas decisões, gerando insegurança jurídica. Nesse contexto, também se coloca em debate a própria capacidade do sistema de Justiça de compreender, em sua complexidade, as dimensões clínicas e sociais que envolvem as pessoas com deficiência.

Ela também chamou atenção para o que classificou como distorções estruturais: por que a judicialização deixou de ser exceção e passou a ser regra? Por que decisões ainda se baseiam, muitas vezes, em critérios exclusivamente formais? Onde está o olhar multidisciplinar? E por que, mesmo após decisões favoráveis, ainda há descumprimento, dependência de bloqueios judiciais e um ciclo contínuo de novas ações?

Para Jennyfer, esse cenário evidencia uma inversão preocupante. “O que deveria ser resolvido administrativamente tem sido transferido ao Judiciário. Isso revela não apenas a fragilidade das políticas públicas, mas também a sobrecarga de um sistema que acaba sendo acionado para garantir o básico”.

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A advogada também fez questão de elogiar o serviço prestado por meio do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), com destaque para a realização do evento TJ Inclusivo, que, segundo ela, evidencia o compromisso institucional com a promoção da acessibilidade e da inclusão.

Para a advogada, iniciativas como essa ampliam o diálogo com a sociedade e, a cada interação, contribuem para uma compreensão mais clara das falhas ainda existentes, auxiliando na promoção de ações mais efetivas, sensíveis e alinhadas às necessidades das pessoas em situação de vulnerabilidade.

TJMT Inclusivo – O projeto reforça o compromisso do Poder Judiciário de Mato Grosso, por meio da Comissão de Acessibilidade e Inclusão, com o respeito à neurodiversidade e dá cumprimento à Resolução 401/2021 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que dispõe sobre o desenvolvimento de diretrizes de acessibilidade e inclusão de pessoas com deficiência nos órgãos do Judiciário, e à Lei federal nº 12.764/2012 – Lei Berenice Piana, que institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.

Autor: Patrícia Neves

Fotografo: Alair Ribeiro

Departamento: Coordenadoria de Comunicação Social do TJMT

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT

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