POLÍTICA NACIONAL
CRA: debatedores avaliam que legislação europeia pode prejudicar principalmente pequenos produtores
Publicado em
4 de dezembro de 2024por
Da Redação
As normas da legislação europeia podem ser nocivas para os pequenos produtores rurais, cuja maioria não apresenta condições de atender a um conjunto de regras ambientais que entrarão em vigor no próximo ano.
Essa é a avaliação do diretor do Departamento de Política Comercial do Ministério das Relações Exteriores, Fernando Meirelles de Azevedo Pimentel. Durante audiência pública na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária (CRA) nesta quarta-feira (4), o embaixador defendeu o entendimento e destacou as conversações que estão sendo mantidas com os europeus em favor dos diversos setores produtivos para o cumprimento adequado da legislação.
— A lei que teoricamente seria aplicada daqui a poucas semanas, até hoje não tem um sistema digital para entregar os documentos que eles estão pedindo. A lei realmente não tinha como aplicar. Adiar a lei por um ano é só um refresco: a gente não resolveu o problema, a gente tem várias questões práticas no setor privado, a segregação no caso do café e da soja, a questão do cacau no Brasil, a questão das florestas plantadas, várias características da nossa produção que ainda estão a descoberto — listou Pimentel.
A audiência debateu os impactos futuros da Regulação Europeia sobre Desmatamento (EUDR), sobre a economia e o comércio. A norma prevê que as empresas que exportam madeira, borracha, gado, café, cacau, óleo de palma e soja para a União Europeia deverão provar que esses produtos não foram produzidos em áreas desmatadas após 2020.
— O Brasil é um país continental, o que mais preserva florestas nativas. A gente vai continuar trabalhando. A comunidade europeia é muto dura na negociação, é muito hermética. Mas a gente continuará trabalhando nesse processo e com o setor privado para ver o que está faltando. Esse projeto europeu é nocivo para pequenos produtores, tem uma longa distância entre a realidade e o que é pedido. A gente tem conversado com os europeus. A gente está no engajamento intenso para defender e tentar projetar a imagem da agricultura tropical regenerativa brasileira no exterior – afirmou o representante do Ministério das Relações Exteriores.
Agricultura tropical
Realizado por iniciativa do presidente da CRA, senador Alan Rick (União-AC), e do ex-senador Beto Faro (PA), o debate foi comandado pela senadora Tereza Cristina (PP-MS). Ela fez questão de ressaltar que a agricultura tropical praticada no Brasil é diferente da agricultura europeia.
— Nós temos que bater nessa [definição]:agricultura tropical brasileira. Não é a mesma que eles praticam lá. Talvez por isso, às vezes, nós apanhamos sem ter culpa, fazendo uma agricultura altamente sustentável. Somos protagonistas de uma agricultura moderna, pujante, mas altamente sustentável, mas a gente tem uma narrativa, às vezes, não sei se por interesse ou por desconhecimento, que penaliza aqui os nossos produtores, sejam eles pequenos, médios ou grandes produtores rurais – afirmou Tereza Cristina.
“Embora a implementação da medida da comunidade europeia tenha sido prorrogada por um ano, é preciso adaptar o país de modo efetivo às futuras normas relacionadas às questões ambientais”, ressalta Beto Faro, no requerimento.
Elementos contraditórios
A subsecretária de Articulação em Temas Comerciais do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Heloisa Pereira, apontou a multiplicação de medidas multilaterais que restringem o comércio com a justificativa ambiental, não só pela União Europeia, mas também pelos Estados Unidos. Ela ressaltou que, de 2019 para cá, a União Europeia impôs 300 medidas de sustentabilidade, com impactos em investimentos e no comércio.
— A questão envolve a temática de qual vai ser a resposta do governo brasileiro diante de tantos elementos contraditórios que a gente vê hoje, seja dessas medidas unilaterais, que têm um fundo protecionista, seja da função estratégica da Amazônia para mitigar as mudanças climáticas e toda a diversidade, seja o interesse de preservar os nossos interesses econômicos. Então, como conciliar esses três elementos? Para dar resposta a essa pergunta, é muito importante que a gente entenda o que a gente está vivendo hoje, que mundo a gente está vivendo hoje — afirmou.
Heloísa apontou três mudanças que precisam ser observadas para que se possa entender a resposta do governo diante desse contexto internacional: o enfraquecimento das instituições multilaterais; a multiplicação de padrões unilaterais que restringem o comércio com a justificativa ambiental; e o fato da única corte internacional que poderia resolver esses problemas, que era o sistema de solução de controvérsias da OMC [Organização Mundial do Comércio], o qual atuava como se fosse um tribunal do comércio internacional, não funcionar mais desde 2019.
Sob pressão
O consultor na área de meio ambiente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Rodrigo Justus de Brito, ponderou que a postergação do início da implementação da norma europeia decorre de pressões que vêm de mais de 70 entidades de diversos países que se opuseram, inclusive de 21 países da própria União Europeia.
— Vejam que ela não é um consenso absoluto da União Europeia, que hoje nos impõe tudo isso. Veja a questão dos países africanos, também. Quando se mostra que nós temos um cadastro ambiental rural e que todos os produtores que estão na cadeia produtiva, com seus problemas ou não, estão inscritos no Brasil, estão com suas áreas georreferenciadas. E daí olhamos a África, que não tem cadastro ambiental rural, não tem geolocalização de atividades e produz lá 70 % do cacau do mundo, quase 20 % do café que existe no mundo. E temos ainda a borracha, onde mais de 70 % de toda a produção mundial pega muito áreas do sudeste asiático, também não devidamente geolocalizadas. [Temos] a discussão de outras questões relacionadas à legalidade completa do empreendimento — avaliou.
Brito ressaltou que “o Brasil já está pagando as consequências disso tudo” e apontou a existência de insegurança jurídica que prejudica o setor produtivo.
Barreiras ao comércio
O diretor do Departamento de Desenvolvimento das Cadeias Produtivas e de Indicações Geográficas do Ministério da Agricultura (Mapa), Clecivaldo de Sousa Ribeiro, disse que é necessário ter respostas às medidas que estão se impondo como barreiras ao comércio, não só com a Uniao Europeia.
— Fomos sempre muito exigidos no que se refere a parte sanitária: disponibilizarmos um produto seguro para o mundo. A gente sempre fez isso. A diferença agora é a exigência socioambiental, ou seja, não basta só eu abrir um novo mercado para vender os nossos produtos, eu tenho que dizer como estou produzindo.
Informou que em resposta a todas essas barreiras que estão surgindo, e não só na Europa, está em processo de construção a plataforma Agrobrasil Mais Sustentável, que tem foco nos bancos de dados oficiais sobre meio ambiente, com a finalidade de qualificar a produção agropecuária brasileira para qualquer mercado.
— O advento do regulamento europeu nos acelera, nos apressa para a gente ter uma resposta. E a gente sabe o quanto que o produtor brasileiro já está preparado para isso, principalmente o grande produtor — afirmou.
Importador europeu
O diretor do Departamento de Políticas de Controle do Desmatamento e Queimadas da Secretaria Extraordinária de Controle do Desmatamento e Ordenamento Ambiental Territorial do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), Raoni Guerra Lucas Rajão, destacou que a legislação, a exemplo do que já vem sendo discutido no Reino Unido, China e outros países, segue uma série de produtos que têm um volume de venda muito significativo principalmente para o Brasil, como madeira, soja, carne bovina, cacau, café, borracha e derivados, entre outros.
— Não é uma legislação que impacta de maneira direta, no Brasil, os produtores brasileiros. O ente fiscalizado é o importador europeu. Isso, inclusive, torna ela até com um peso maior, porque cria um desincentivo para que esses importadores europeus possam comprar de países como o Brasil. Isso, obviamente, é algo que nos preocupa muito.
Muitas agriculturas
A secretária de Meio Ambiente da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag), Sandra Paula Bonetti, ressaltou que o Brasil possui “muitas agriculturas”, entre elas a agricultura familiar, que reúne 73% dos estabelecimentos em 23% do território nacional. Ela afirmou ainda que a União Europeia “não é o nosso maior comprador” e defendeu a ampliação do debate.
— A decisão de prorrogar e melhor discutir a legislação da União Europeia é muito importante, em função de se criar mecanismos e estabelecer algumas regras de como a gente vai criar condições para que toda a agricultura, independentemente do tamanho dela, possa de fato não ser afetada por uma lei que não dialoga conosco. Se a legislação brasileira de fato fosse cumprida, a gente não estaria tão preocupado com supostos embargos que virão — afirmou.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
POLÍTICA NACIONAL
Deputados aprovam projeto que torna crime aumento abusivo de preços de combustíveis
Published
2 horas agoon
20 de maio de 2026By
Da Redação
A Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei que cria um crime específico contra as relações de consumo pelo aumento abusivo de preços de combustíveis. A matéria será enviada ao Senado.
De autoria do Poder Executivo, o Projeto de Lei 1625/26 foi aprovado na forma de um substitutivo do relator, deputado Merlong Solano (PT-PI), e estipula pena de detenção de 2 a 4 anos e multa para quem aumentar, de forma artificial e sem justa causa, o preço dos combustíveis com o objetivo de obter vantagem econômica indevida.
Solano retirou do texto a faixa de aplicação da multa, que variava de 1/30 a 5 vezes o salário mínimo (atualmente em R$ 1621,00).
O projeto considera sem justa causa o aumento que esteja dissociado de fundamentos econômicos verificáveis, especialmente de custos de produção, distribuição, importação, reposição, comercialização, logísticos, tributários e regulatórios.
Além disso, a justa causa deve resultar de conduta considerada anticoncorrencial pela Lei de Defesa da Concorrência.
Essa prática é considerada infração da ordem econômica, independentemente de culpa e envolve atos que produzam os seguintes efeitos, mesmo se não alcançados:
– limitar, falsear ou de qualquer forma prejudicar a livre concorrência ou a livre iniciativa;
– dominar mercado relevante de bens ou serviços;
– aumentar arbitrariamente os lucros; e
– exercer de forma abusiva posição dominante
Para apurar o delito criado pelo projeto, o Ministério Público deverá firmar acordos de cooperação com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) a fim de compartilhar subsídios técnicos especializados na aferição dos elementos caracterizadores dessa prática de infração à ordem econômica.
Agravantes
As penas serão aumentadas de 1/3 até a metade se a conduta ocorrer em contexto de calamidade pública, crise de abastecimento
Outro motivo de aumento da pena é a prática da infração por agente econômico que detenha posição dominante no mercado.
Essa posição dominante é definida pela Lei 12.529/11, que institui o sistema brasileiro de defesa da concorrência. Essa lei diz que será presumida a posição dominante sempre que uma empresa ou grupo de empresas for capaz de alterar unilateral ou coordenadamente as condições de mercado ou quando controlar 20% ou mais do mercado relevante. O percentual pode ser alterado pelo Cade para setores específicos da economia.
Na última versão do relatório que foi a voto, o relator retirou do texto agravante para o caso de prática de aumento considerado abusivo devido a instabilidade relevante do mercado fornecedor.
Esse seria o caso, por exemplo, da provocada recentemente pela crise advinda com a guerra no Golfo Pérsico entre Estados Unidos, Israel e Irã.
Efeito difuso
Para o governo, a prática de aumento abusivo de preços “apresenta elevado potencial de dano social, com efeitos por toda a cadeia produtiva ao influenciar custos de transporte, alimentos e serviços, produzindo impactos inflacionários que atingem de maneira mais intensa as camadas socialmente mais vulneráveis”.
Para o relator, deputado Merlong Solano, a proposta é oportuna e relevante diante do contexto econômico recente, marcado por significativa volatilidade nos preços dos combustíveis. “A escalada dos preços no mercado internacional de petróleo, intensificada pela instabilidade geopolítica decorrente da guerra no Oriente Médio, tem provocado distorções na cadeia global de abastecimento e pressionado os preços internos”, disse.
A guerra no Irã, iniciada no final de fevereiro, por Estados Unidos e Israel fez com que o Irã aumentasse o controle sobre o Estreito de Ormuz, região por onde passa cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) do mundo. Localizado entre o Irã e Omã, conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã, sendo vital para o transporte de energia da Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait e Emirados Árabes Unidos.
Solano disse que, apesar dos diferentes esforços do governo federal para reduzir os preços, com medidas provisórias e decretos que reduzem alíquotas, ainda assim há elevação dos preços nos postos de combustíveis. “Esse cenário evidencia a existência de falhas na transmissão dos efeitos das políticas públicas ao consumidor final, levantando preocupações quanto à ocorrência de práticas abusivas de precificação”, declarou.
Formação de preços
A proposta preserva a dinâmica regular de formação de preços em ambiente de mercado, ao mesmo tempo em que permite a responsabilização por condutas manifestamente abusivas e oportunistas, sobretudo em momentos de maior vulnerabilidade social e instabilidade econômica, de acordo com Solano.
“Ao fortalecer os mecanismos de repressão a práticas abusivas, o projeto contribui para a proteção do consumidor, a preservação da ordem econômica e a promoção de maior equilíbrio nas relações de mercado”, disse o relator.
Merlong Solano citou que, diferente de outros países, 15% da demanda de gasolina e 30% do diesel são atendidos pela importação dos combustíveis. “Não precisava ter uma sensibilidade tão rápida para aumentar preços como outros países que dependem inteiramente de combustível importado.”
Proposta inócua
Porém, para o deputado Lafayette de Andrada (PL-MG), a proposta é inócua. “Está criando, na prática, mais uma possibilidade de incriminar posto de gasolina e prender dono de posto”, disse, ao citar que já existem ferramentas na legislação para punir eventuais infrações.
Lafayette acusou o governo de usar a proposta para “sabotar” as distribuidoras. “A Petrobras que é a grande importadora de óleo diesel cruzou os braços e está forçando que as distribuidoras diretamente importem óleo diesel mais caro e o governo falará: tá vendo, os empresários que estão aumentando os preços”, criticou.
O líder da oposição, deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB), fez as mesmas críticas e afirmou que, desde abril, a Petrobras não importa mais diesel e, com isso, obriga as distribuidoras a importar para maquiar preços.
O deputado Bohn Gass (PT-RS), vice-líder do PT, afirmou que a proposta permite o aumento de preços, porém ele não deve ser feito de forma criminosa. “E quando aumentar criminosamente tem de punir, para defender o consumidor”, disse.
Na opinião do deputado Luiz Lima (PL-RJ), o projeto não deixa claro a partir de qual percentual de aumento a prática pode ser considerada abusiva e passível de punição. “Tá escrito onde? Não tem resposta. É abstrato como um quadro de Picasso.”
O relator, Melong Solano, disse que só poderia haver preço definido se fosse tabelado, e não o de mercado, com variações a depender de diferentes critérios.
Empate
A votação da alteração do texto chegou a ficar empatada, mas foi refeita porque o voto do deputado Joaquim Passarinho, que presidia a sessão, foi incluído. Porém, o presidente da sessão só vota em casos de desempate. Na sequência, a alteração foi rejeitada por quatro votos.
Reportagem – Eduardo Piovesan e Tiago Miranda
Edição – Rachel Librelon
Fonte: Câmara dos Deputados
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