POLÍTICA NACIONAL
Brics: mulheres são maiores vítimas da crise climática, dizem debatedoras
Publicado em
3 de junho de 2025por
Da Redação
A participação feminina na formulação de políticas ambientais deve aumentar, disseram nesta terça-feira (3) as debatedoras na sessão de trabalho Fortalecendo as Mulheres para Enfrentar a Crise Climática: Perspectivas do Brics, sequência da Reunião de Mulheres Parlamentares do 11º Fórum Parlamentar do Brics. Na manhã desta terça-feira, o debate salientou a busca da igualdade de gênero na agenda tecnológica.
As representantes de países-membros do grupo chamaram a atenção para a vulnerabilidade das mulheres diante de eventos climáticos extremos, mas enalteceram o papel delas como portadoras de conhecimentos tradicionais que contribuem para o equilíbrio ambiental. Na abertura do evento, a presidente da reunião, senadora Drª Eudócia (PL-AL), afirmou que a crise no clima não afeta indivíduos da mesma maneira.
— Mulheres, especialmente nas regiões rurais, em comunidades ribeirinhas, indígenas e em periferias urbanas, frequentemente vivenciam de modo mais intenso os efeitos da instabilidade ambiental.
No mesmo sentido, a parlamentar Nqabisa Gantsho, da África do Sul, associou a sub-representação política das mulheres em países pobres à exposição desproporcional da população feminina a desastres naturais e humanos.
— Assim aumenta a vulnerabilidade à violência de gênero, às doenças sexualmente transmissíveis (…) e a outras formas de abuso.
Sara Falaknaz, dos Emirados Árabes Unidos, também lembrou que, segundo a Organização das Nações Unidas, as mulheres são quase 30% dos deslocados por mudanças climáticas.
— No entanto, as mulheres continuam sub-representadas em negociações globais, enquanto menos de 10% do financiamento climático é sensível à questão de gênero. Essa lacuna enfraquece nossa resposta.
Empoderamento
As parlamentares ouvidas na reunião defenderam as políticas de seus países para o avanço das participação feminina nas iniciativas de enfrentamento à crise climática. Mostrando estatísticas, Shabari Byreddy, da Índia, expôs as iniciativas em curso para ampliação do acesso à educação e do bem-estar das mulheres. Ela disse que é preciso reconhecer o papel das mulheres no gerenciamento de recursos naturais, incluindo grande parte da produção de alimentos.
— Isso torna o conhecimento e a experiência valiosos para a adaptação e a mitigação climática — avaliou.
Maryam Adbollahi, do Irã, também cobrou reconhecimento dos saberes ancestrais das mulheres no enfrentamento dos desafios climáticos, e Nora Ali, do Egito, sublinhou que as mulheres são mais dependentes de recursos naturais e são detentoras de conhecimento de práticas sustentáveis.
— As mulheres não são meramente vítimas das mudanças climáticas, mas parceiras nos esforços de adaptação.
Roza Chemeris, da Rússia, salientou os “múltiplos papéis” das mulheres na crise do clima, mas considera que elas precisam de apoio para assumir espaços de poder.
— As mulheres desempenham um papel vital na educação das gerações futuras para que atuem de forma responsável na proteção e mitigação das mudanças climáticas.
Pauta humanitária
A deputada brasileira Célia Xakriabá (Psol-MG) disse que é preciso “reflorestar a política”. Ela defendeu os povos indígenas como protetores da biodiversidade e classificou a defesa ambiental como uma pauta humanitária, e não progressista.
— Mulheres indígenas são guardiãs do planeta para a defesa e a cura da humanidade.
A senadora Leila Barros (PDT-DF) considera que o Acordo de Paris não pode aceitar retrocessos de grandes países poluidores, os quais devem arcar com os maiores custos dos esforços globais pelo clima. Ela destacou o papel estratégico do Brics na discussão climática mundial.
— Devemos fortalecer nossas alianças e agir com firmeza, solidariedade e coerência. O tempo de hesitação já passou. O que está em jogo é o futuro dos nossos povos.
Futuro
Na sessão Construindo o Futuro: as Mulheres Parlamentares e a Agenda Brics 2025, a deputada Dandara (PT-MG), que presidiu a reunião, tratou da importância do Brics num contexto de crise de legitimidade das instituições multilaterais. Para ela, o encontro é simbólico da capacidade de articulação dos Legislativos e da importância dedicada pelo grupo de países à equidade de gênero.
— A justiça de gênero é condição para qualquer pacto de sustentabilidade que queira ser duradouro. Portanto, este não é só um espaço protocolar: é também a ponte entre o desenvolvimento econômico e a redistribuição de tempo, de poder e de recursos.
Vice-presidente do Conselho da Federação Russa, Inna Svyatenko associou o aumento da representação feminina do Legislativo russo ao avanço de iniciativas pela qualidade de vida da população, e a indiana Shabari Byreddy avaliou que as mulheres parlamentares são vanguarda da mudança.
— Empoderar as mulheres não é meramente uma questão de justiça social, mas um pré-requisito para o progresso nacional e mundial.
A egípicia Nora Ali defendeu a elaboração de medidas para garantir às mulheres um futuro de igualdade, empoderamento e participação na economia. Ana María Mari Machado, vice-presidente da Assembleia Nacional de Cuba, destacou as políticas de igualdade de gênero de seu país e defendeu o Legislativo como espaço de diálogo e voz para as mulheres. Também Maryam Adbollahi, do Irã, disse esperar que a cooperação econômica do Brics avance na perspectiva de sustentabilidade e garanta que as mulheres sejam ouvidas em todos os níveis.
— A presença nas estruturas de tomada de decisão deve ser institucionalizada e gerar impacto.
Zandile Majozi, da África do Sul, ressaltou que a participação das mulheres leva a um aumento do bem-estar geral. Porém, para ela, o progresso no empoderamento feminino tem sido lento.
— A igualdade de gênero é um direito. Cumprir esse direito é a melhor chance que temos de enfrentar alguns dos maiores desafios de nosso tempo.
Saúde
Procuradora da Mulher da Câmara, a deputada Coronel Fernanda (PL-MT) disse que os Brics têm a oportunidade de liderar um novo paradigma na saúde da mulher por meio de programas multilaterais e intercâmbio de tecnologias. Em seu ponto de vista, a desigualdade econômica fragiliza a saúde da população feminina.
— Insegurança alimentar, trabalho não remunerado, violência doméstica, acesso precário a água e saneamento têm consequências diretas sobre a saúde física e mental.
Por fim, a senadora Professora Dorinha Seabra (União-TO) cobrou um apoio multilateral às mulheres que vá além de termos genéricos. Ela pediu mais participação das mulheres nos parlamentos e criticou as restrições culturais ao acesso de mulheres à educação em alguns países.
— Não devemos julgar mulheres que exerçam papéis tradicionais em suas sociedades de origem por opção, mas devemos discutir os papéis impostos, pela falta de opção, às mulheres.
Na sequência, as parlamentares tiveram uma reunião sobre intercâmbio com o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), também conhecido como Banco do Brics. O tema da reunião foi “Mulheres como agentes e beneficiárias de financiamentos”. O NBD, presidido pela ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff, financia projetos de sustentabilidade em países do bloco e países emergentes.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
POLÍTICA NACIONAL
Criminalização da misoginia: relatora apresenta nova versão do projeto de lei
Published
28 minutos agoon
10 de junho de 2026By
Da Redação
A coordenadora do grupo de trabalho de criminalização da misoginia, deputada Tabata Amaral (PSB-SP), apresentou nesta quarta-feira (10) uma nova versão do Projeto de Lei 896/23 sobre o tema, já aprovado no Senado. A proposta poderá ser votada pelo Plenário da Câmara dos Deputados ainda neste mês.
O texto original equipara a misoginia ao crime de racismo, o que a torna inafiançável e imprescritível. A relatora alterou principalmente a definição de misoginia.
“A fim de preservar a uniformidade conceitual da legislação penal e processual penal sobre o tema, propomos a substituição dos termos ‘ódio’ e ‘aversão’, previstos no projeto para a caracterização da misoginia, pelas expressões ‘menosprezo ou discriminação’ em razão da ‘condição de mulher’.”
Tabata Amaral afirmou que aprovação da proposta será “avanço civilizatório essencial”. A misoginia é descrita como “fenômeno estrutural profundamente enraizado em relações de poder historicamente marcadas pela desigualdade de gênero”.
Machosfera
A deputada também identificou crescente disseminação de comunidades e redes de conteúdo na internet associadas à chamada “machosfera”, que difundem narrativas de hostilidade ao feminino e promovem processos de radicalização, sobretudo entre jovens.
Conhecidos como “red pill”, os participantes desses espaços frequentemente incentivam a objetificação e a desumanização das mulheres e ampliam o alcance de discursos misóginos, com elevado potencial de monetização e engajamento digital. Entre outros pontos, o novo texto (substitutivo) de Tabata Amaral prevê suspensão temporária de conta ou perfil na internet que veiculem conteúdo ilícito.
“Precisamos aprovar esse texto ainda neste mês. Enquanto a legislação não for atualizada, criminosos continuarão se sentindo à vontade para defender que mulheres sejam assassinadas, humilhadas e estupradas. É isso que queremos combater”, reforçou.
Segundo a deputada, as audiências do grupo de trabalho da Câmara mostraram que o feminicídio é muitas vezes uma “morte anunciada” precedida por violência verbal e simbólica.
Tabata Amaral manteve a previsão de pena de 2 a 5 anos de reclusão e multa para crimes praticados em razão de misoginia, mas incluiu, entre os agravantes, o crime contra criança, adolescente e pessoa idosa ou com deficiência.

Próximos passos
O texto ainda poderá passar por novos ajustes até 16 de junho, quando será votado no grupo de trabalho e, depois, levado ao Colégio de Líderes e ao Plenário, possivelmente na mesma semana, de acordo com a deputada.
“Fiquem muito à vontade, nos próximos dias, para me procurar para que a gente possa ir ajustando e que traga de fato um consenso de todos os membros do nosso grupo de trabalho.”
A deputada Talíria Petrone (Psol-RJ) manifestou otimismo quanto à rápida aprovação dos textos no Congresso.
“Há muitas diferenças entre as deputadas da bancada feminina, mas a violência contra a mulher é uma preocupação que nos une. Nos últimos cinco anos, 367 meninas menores de 18 anos foram vítimas de feminicídio. Isso é chocante em um país que registra quase 1.500 mulheres assassinadas por serem mulheres a cada ano.”
Outras propostas
Tabata Amaral também definiu propostas prioritárias complementares ao projeto de lei principal. Duas já estão formalizadas e tratam do enfrentamento à violência digital contra as mulheres:
- Projeto de Lei 6194/25
- Projeto de Lei 805/26
A outra proposta é um anteprojeto sobre investigação e atendimento das vítimas de ato de misoginia, com medidas de prevenção à violência doméstica e familiar contra a mulher.
O grupo de trabalho ainda apresentou uma indicação ao Ministério das Mulheres para a regulamentação de medidas de prevenção e enfrentamento à violência digital contra a mulher, além de ações preventivas em articulação com os órgãos federais.
Reportagem – José Carlos Oliveira
Edição – Geórgia Moraes
Fonte: Câmara dos Deputados
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