POLÍTICA NACIONAL

Defesa da igualdade de gênero e multilateralismo marcam 1º dia do Fórum

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Multilateralismo, preocupação com barreiras tarifárias e desenvolvimento com igualdade de gênero foram alguns dos destaques no primeiro dia da 11ª edição do Fórum Parlamentar do Brics, no Congresso Nacional, em Brasília. A abertura oficial do evento está marcada para quarta-feira (4), mas a programação de terça-feira (3) incluiu dois eventos paralelos: o Encontro dos Presidentes das Comissões de Relações Exteriores dos Parlamentos do Brics e a Reunião de Mulheres Parlamentares do Brics. 

O evento reúne 15 países — 11 do bloco e o restante de nações parceiras — e cerca de 150 parlamentares. O Brics atua como fórum de articulação político-diplomática e de cooperação do chamado Sul global. O encontro do grupo pode trazer avanços na cooperação interparlamentar entre os países-membros e fortalecer o diálogo político, o intercâmbio de boas práticas e a construção de uma agenda comum voltada para o desenvolvimento sustentável, a justiça social e a governança multilateral.

Mulheres

A Reunião de Mulheres Parlamentares propôs reflexões sobre o papel da mulher diante das transformações tecnológicas e ambientais. Foram três painéis ao longo do dia. Para a senadora Leila Barros (PDT-DF), líder da bancada feminina do Senado brasileiro, é impossível pensar o desenvolvimento sem levar em conta as questões de gênero.

— Não é possível falar em desenvolvimento sem igualdade de gênero. Estamos aqui para construir um Brics com rosto feminino, que reconheça a pluralidade das nossas experiências — afirmou.

Durante o primeiro painel, com o tema “Mulheres na Era da Inteligência Artificial: entre a proteção de direitos e a inclusão feminina na economia digital”, Sara Falaknaz, do Conselho Nacional Federal (parlamento unicameral) dos Emirados Árabes Unidos, afirmou que a IA e a economia digital não são neutras em termos de gênero e tendem a afetar mais meninas e mulheres.

— Como parlamentares, temos a responsabilidade de garantir que o desenvolvimento tecnológico esteja ancorado na ética, na transparência e na dignidade humana — disse a parlamentar dos Emirados Árabes.

Na segunda sessão de trabalho, destinada a debater o fortalecimento das mulheres para enfrentar a crise climática, a parlamentar sul-africana Nqabisa Gantsho lembrou que as mulheres são excluídas dos processos de decisão e sofrem com mais intensidade os impactos dos desastres climáticos naturais e também dos causados pela ação do homem.

— As nações unidas reportam que as mulheres têm 14 vezes mais risco de morrer do que os homens em desastres naturais — disse a deputada sul-africana ao sugerir que os países membros devem ter uma agenda para mitigar esses riscos para as mulheres.

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A terceira sessão tratou do futuro e das mulheres na agenda Brics 2025. Para a deputada brasileira Dandara, que conduziu a sessão, o fórum é um gesto político de grande simbolismo e uma oportunidade para dar continuidade à institucionalização desse espaço de reflexão e de conjunção de esforços parlamentares. A desigualdade de gênero, afirmou, não pode ficar de fora do debate.

— A desigualdade de gênero nunca foi um tema setorial, não pode e nem deve caber em uma caixinha. É estrutural, organiza relações de poder na sociedade através de todas as dimensões políticas das economias globais — alertou a deputada brasileira.

Parlamentares também tiveram uma reunião de intercâmbio com o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), também conhecido como o Banco do Brics. O tema da reunião foi  “Mulheres como agentes e beneficiárias de financiamentos”. O NBD, presidido pela ex-presidente do Brasil Dilma Roussef, financia projetos de sustentabilidade em países do bloco e em países emergentes.

Relações exteriores

Também nesta terça-feira, os presidentes das Comissões de Relações Exteriores dos parlamentos nacionais fizeram três debates durante o Encontro dos Presidentes das Comissões de Relações Exteriores dos Parlamentos do Brics. Os debates buscaram alinhar estratégias de fortalecimento do Brics no cenário global e as ações parlamentares voltadas para o desenvolvimento e a inovação.

 A necessidade de fortalecer o multilateralismo e a preocupação com a expansão de medidas protecionistas nortearam o debate “Fortalecendo o comércio do Brics no atual cenário internacional”, que ocorreu pela manhã. Durante a sessão de trabalho, representantes do Brasil, China e Índia defenderam o multilateralismo.

— O Brics propicia aos países em desenvolvimento uma plataforma relevante para expressar suas preocupações e interesses, bem como para participar ativamente da promoção de uma ordem internacional mais justa e inclusiva. Estamos seriamente preocupados com a perspectiva de fragmentação da economia global e enfraquecimento do multilateralismo — afirmou o presidente da CRE no Senado brasileiro, senador Nelsinho Trad (PSD-MS), que presidiu os trabalhos.

Representante da câmara baixa do Legislativo da Índia, o deputado Vijay Baghel destacou o potencial das trocas comerciais com os parceiros do bloco e assegurou que seu país acredita nos princípios do multilateralismo e numa ordem global equilibrada e justa.

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— No atual cenário, são grandes as oportunidades diante dos complexos desafios econômicos e as tensões geopolíticas, incluindo as tendências protecionistas e sanções que causam crise global — avaliou o deputado indiano.

Desenvolvimento sustentável e finanças

Durante a segunda sessão de trabalho, sobre promoção de investimentos e transferência de tecnologia para o desenvolvimento sustentável, o presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados do Brasil, deputado Filipe Barros (PL-PR), defendeu o intercâmbio entre os pesquisadores, o compartilhamento de experiências e a troca de conhecimentos.

Parlamentares também chamaram a atenção para a responsabilidade dos países diante das consequências do aquecimento global. O deputado Hussein Fadlulloh, vice-presidente da Comissão de Cooperação Intraparlamentar da Câmara dos Representantes da Indonésia, afirmou que o desenvolvimento sustentável está ligado à transferência de tecnologia, mas lembrou que nem todos os países têm condição de fazer um investimento pesado em energias limpas, daí a importância das parcerias entre os integrantes do bloco.

Na terceira sessão, os parlamentares debateram instrumentos financeiros para um Brics mais resiliente e sustentável.  O fortalecimento do NBD, a preferência pelos negócios no sul global e regras mais eficientes foram apontadas como medidas para conseguir o objetivo de tornar o Brics um bloco mais forte e com um sistema financeiro mais justo e seguro.

— As propostas apresentadas aqui hoje podem criar uma estrutura mais resiliente para o Brics — afirmou o parlamentar Ahmad Naderi, do Irã, ao defender investimentos conjuntos para formar um escudo financeiro, diminuindo a dependência dos países do Norte.

Programação

A solenidade de abertura do 11º Fórum Parlamentar do Brics, no Plenário do Senado brasileiro, está marcada para a quarta-feira (4), às 10h30. A programação do fórum aprofunda os debates estratégicos, com sessões sobre saúde global, desenvolvimento econômico, sustentabilidade, inteligência artificial e reforma da arquitetura multilateral de paz e segurança.

Na quinta-feira (5), a sessão final será dedicada à cooperação interparlamentar, com a adoção de um documento conjunto que deverá consolidar as principais diretrizes políticas discutidas ao longo dos três dias de evento. O documento será encaminhado à Cúpula de Líderes do bloco, que ocorrerá no Rio de Janeiro, nos dias 6 e 7 de julho de 2025.

Veja toda a programação aqui

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Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

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POLÍTICA NACIONAL

Comissão aprova proibição de leilão e penhora de espaços culturais tombados

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A Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 66/2026, do deputado Lindbergh Farias (PT-RJ), que proíbe a penhora, o leilão e outras formas de expropriação de imóveis indispensáveis à preservação de bens tombados ou de patrimônios culturais imateriais reconhecidos pelo poder público.

A vedação vale sempre que o ato puder:

  • comprometer a continuidade, a integridade ou a autenticidade do bem cultural;
  • alterar o uso do espaço de forma incompatível com sua função cultural; e
  • descaracterizar social, simbólica, econômica ou funcionalmente a prática protegida.

A regra vale para execuções fiscais, trabalhistas, cíveis ou administrativas, contra entes públicos ou privados. O projeto busca proteger o chamado “espaço cultural essencial”, o imóvel público ou privado com função indispensável para a manutenção desses bens tombados.

Se já houver processo judicial ou administrativo de penhora ou leilão sobre um desses bens, o juiz ou a autoridade competente é obrigado a suspender a ação de forma imediata.

A medida pode ser determinada de ofício ou a pedido do Ministério Público, do órgão de proteção ao patrimônio cultural ou de entidade representativa da comunidade envolvida.

A suspensão não impede a apuração da dívida. O projeto determina que sejam priorizadas soluções alternativas, como negociação, parcelamento ou compensação. Qualquer decisão que afaste a suspensão deverá ser expressamente fundamentada, sob pena de nulidade.

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Exceções
O projeto admite exceções à proibição, porém somente se forem cumpridos cumulativamente os seguintes requisitos:

  • parecer técnico favorável do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) ou de órgão cultural competente;
  • estudo de impacto cultural, social e econômico, com participação da comunidade;
  • autorização expressa do Poder Legislativo correspondente — Congresso Nacional, Assembleia Legislativa, Câmara Legislativa ou Câmara Municipal —, conforme o nível de reconhecimento do bem.

O estudo de impacto cultural deverá avaliar a historicidade da prática, os vínculos sociais e identitários com o espaço, a possibilidade real de continuidade em outro local e os impactos sobre trabalho e renda. A ausência de qualquer requisito torna o ato nulo.

Alternativas à expropriação
O poder público deverá priorizar saídas que preservem o espaço cultural, como a renegociação de dívidas, a transferência da gestão do imóvel para associações ou cooperativas da comunidade e a celebração de convênios ou parcerias voltadas à sustentabilidade do bem protegido.

Lindbergh Farias citou a ameaça de leilão do imóvel da Feira de São Cristóvão, no Rio de Janeiro — sede do Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, reconhecido por lei federal como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil —, como exemplo do problema que o projeto busca resolver.

Vinicius Loures / Câmara dos Deputados
Audiência Pública - Situação da BR-393 no trecho entre Jamapará (Sapucaia/RJ) e Volta Redonda/RJ. Dep. Lindbergh Farias (PT-RJ)
Lindbergh citou a ameaça de leilão do imóvel da Feira de São Cristóvão, no Rio

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Para a relatora, deputada Sâmia Bomfim (Psol-SP) o projeto assegura, na prática, a continuidade das manifestações culturais. “A eventual alienação ou descaracterização desses espaços não representa apenas uma mudança de titularidade patrimonial, mas pode implicar a ruptura de vínculos históricos, sociais e simbólicos que sustentam determinadas práticas culturais”, disse.

Sâmia Bomfim afirmou que as alternativas propostas pelo projeto, como a renegociação de dívidas, a gestão compartilhada e a celebração de parcerias, oferecem uma perspectiva equilibrada entre a proteção do patrimônio cultural e a viabilidade econômica dos espaços envolvidos, buscando o diálogo e o consenso.

Próximos passos
A proposta ainda será analisada, em caráter conclusivo, pelas comissões de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Para virar lei, precisa ser aprovada pela Câmara e pelo Senado.

Reportagem – Tiago Miranda
Edição – Roberto Seabra

Fonte: Câmara dos Deputados

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