POLÍTICA NACIONAL

CRE articula missão diplomática para conter tarifa de Trump contra o Brasil

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Diante da decisão do governo dos Estados Unidos de impor tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, a Comissão de Relações Exteriores (CRE) decidiu criar um grupo de trabalho para atuar diplomaticamente junto ao Congresso norte-americano. A proposta foi apresentada pelo presidente da comissão, senador Nelsinho Trad (PSD-MS), nesta terça-feira (15). Ela prevê o envio de uma missão parlamentar a Washington para dialogar com senadores americanos e tentar reverter as medidas antes que elas entrem em vigor, no início de agosto.

Nelsinho anunciou a iniciativa durante audiência pública em que a comissão debateu a crise tarifária com representantes do governo federal e do setor produtivo (REQ 17/2025 – CRE). Segundo o senador, a ideia é construir uma “ponte de diálogo” com os Estados Unidos, num momento em que os canais diplomáticos tradicionais enfrentam dificuldades. Ele informou que a própria embaixada americana no Brasil sugeriu a criação do grupo.

Info_exportacoes_EUA.png— Vamos formalizar a proposta em requerimento e trabalhar para ampliar o prazo de negociação. Essa situação é ruim para os dois países — afirmou.

Impactos negativos

A decisão do presidente Donald Trump de adotar tarifas de 50% sobre importações brasileiras já é percebida como um golpe direto sobre setores estratégicos, como o agronegócio, a indústria química e a aviação. O diretor de Desenvolvimento Industrial, Tecnologia e Inovação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Jefferson Gomes, alertou que a tarifa compromete negócios de médio e longo prazo e coloca em risco milhares de empregos.

— Os investimentos industriais e o relacionamento entre empresas serão duramente afetados. O superávit americano nas relações com o Brasil chega a US$ 43 bilhões em bens e US$ 165 bilhões em serviços. Essa medida prejudica os dois lados — argumentou.

O secretário de comércio e relações internacionais do Ministério da Agricultura, Luis Rua, informou que os Estados Unidos compraram US$ 12 bilhões em produtos agropecuários brasileiros em 2024. O país foi um dos principais destinos para itens brasileiros como carne bovina, café e suco de laranja.

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Além do impacto imediato sobre os exportadores brasileiros, a possível adoção da reciprocidade pelo Brasil em resposta à decisão americana — impondo as suas próprias tarifas — poderá afetar diretamente os importadores nacionais, como alertou o presidente da Associação Brasileira dos Importadores (Abimp), Michel Platini Juliani.

— Caso o Brasil taxe igualmente os produtos americanos, atingiremos a indústria nacional que depende desses insumos. O mercado buscará alternativas, especialmente na China, sob o risco de a produção ser paralisada — alertou.

Reciprocidade

A Lei da Reciprocidade foi mencionada por diversos participantes como um possível instrumento de reação brasileira. Ela permite ao Brasil se proteger de tarifas unilaterais impostas por qualquer país ou bloco econômico. O texto teve origem em projeto do senador Zequinha Marinho (Podemos-PA), com relatório da senadora Tereza Cristina (PP-MS), e foi aprovado e sancionado em abril deste ano.

A senadora, contudo, ponderou que a lei deve ser usada com responsabilidade, como último recurso.

— Ela não foi criada contra os Estados Unidos, mas para dar ao Brasil uma ferramenta de negociação diante de práticas discriminatórias. Ainda há tempo para o diálogo e esperamos uma solução consensual — ressaltou.

A avaliação dos parlamentares é que o Senado precisa assumir papel de liderança no enfrentamento da crise diplomática e econômica. O senador Esperidião Amin (PP-SC) reforçou a importância de “insistência pacífica”, com base em dados sólidos que demonstram a vantagem comercial dos Estados Unidos frente ao Brasil.

— Precisamos iluminar esse cenário com persistência. Os Estados Unidos têm um enorme superávit, esses números não podem ser manipulados. É um resultado consolidado dos últimos 15 anos de operações, isto desperta solidariedade de lá para cá — argumentou.

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Já o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) pontuou que existem duas estratégias possíveis para o Brasil neste momento: uma mais combativa, com o uso da reciprocidade e ações na Organização Mundial do Comércio (OMC), e outra diplomática. Ele também criticou a tentativa de interferência em questões internas do Brasil, fazendo referência às críticas do presidente Donald Trump ao processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.

— Não aceito que o presidente norte-americano venha meter o bedelho em assuntos que são nossos. Há uma injustiça sendo praticada contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, mas cabe a nós brasileiros resolvermos isso — declarou.

Diplomacia

A audiência também foi marcada por críticas à condução da política externa brasileira. O senador Carlos Viana (Podemos-MG) responsabilizou o atual governo por um alinhamento geopolítico “equivocado”, que teria afastado o Brasil dos países mais desenvolvidos. Para ele, isso fragilizou a diplomacia brasileira e dificultou o diálogo com os Estados Unidos.

— O Brasil tem se aliado a um novo bloco de países que é totalmente contrário às nações mais desenvolvidas, como por exemplo o Irã. Essa geopolítica brasileira enfraqueceu a nossa diplomacia, nos empobreceu na negociação internacional e nos gerou uma situação muito mais complicada nesse momento com os Estados Unidos — afirmou.

Por outro lado, o embaixador Philip Fox, secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Ministério das Relações Exteriores, reforçou que o Brasil segue comprometido com uma solução negociada. Ele ressaltou a importância da relação bilateral ao destacar que os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil e o maior investidor direto no país.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

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POLÍTICA NACIONAL

Especialista propõe análise de custo-benefício para priorizar investimentos públicos em saúde e educação

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O Centro de Estudos e Debates Estratégicos (Cedes) da Câmara dos Deputados promoveu, nesta quarta-feira (13), uma conferência com o acadêmico dinamarquês Björn Lomborg. O debate girou em torno de como governos podem “fazer mais com menos”, utilizando a análise de custo-benefício para priorizar investimentos que tragam o maior retorno social possível. Segundo Lomborg, o que gestores públicos devem se perguntar é onde o dinheiro investido trará o maior benefício.

Lomborg apresentou um ponto de vista polêmico sobre as mudanças climáticas, questionando se o investimento maciço nessas políticas é a forma mais eficaz de melhorar o bem-estar humano. Embora reconheça que o aquecimento global é um problema real, ele afirmou que o cenário não representa o “fim do mundo” diante da capacidade de adaptação humana.

O pesquisador ilustrou a ideia comparando o impacto de desastres naturais em diferentes contextos econômicos. “Um furacão que atinge o Haiti, que é muito pobre, traz muita destruição. Mas um furacão que atinge a Flórida, que é rica, o problema é limitado e não é tão desastroso”, comparou.

A partir desse exemplo, Lomborg justificou que o investimento em crescimento econômico gera prosperidade e, consequentemente, resistência contra eventos climáticos.

Números e prioridades
Björn Lomborg apresentou ainda dados comparativos para sustentar a tese de priorização. Segundo ele, as políticas atuais de “zero líquido” de emissões de carbono até 2050 podem custar anualmente cerca de US$ 27 trilhões para gerar um benefício de apenas 4,5 trilhões. “É como gastar R$ 7 para fazer R$ 1 de benefício”, afirmou.

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Em contraste, o acadêmico apontou a educação e a saúde como investimentos de alto retorno. No caso da educação, ele defende intervenções como a pedagogia estruturada e o uso de softwares educativos poderiam entregar R$ 65 de benefício social para cada real investido. Na saúde, políticas simples, como a ressuscitação neonatal para bebês que não conseguem respirar ao nascer, poderiam salvar milhares de vidas a um custo muito baixo, de acordo com Björn Lomborg.

Questionamentos
Durante o evento, o discurso de Lomborg enfrentou questionamentos do público sobre sua aplicabilidade na realidade brasileira, onde desastres ambientais frequentemente deixam pessoas desalojadas e geram clamor público por soluções imediatas. A dúvida levantada foi se esse tipo de lógica de longo prazo conseguiria emplacar em um cenário de urgência humanitária.

Outro ponto de divergência surgiu quanto ao valor do bem-estar de outras espécies. Lomborg respondeu que, apesar de as pessoas se preocuparem com as baleias nos oceanos, por exemplo, a vida humana deve ser a preocupação central.

“Se as pessoas morrerem de desastres naturais, de frio, de calor, nós vamos nos preocupar sobre as mudanças climáticas. Isso será nossa preocupação central, não virá da biodiversidade”, disse Lomborg. “A minha pergunta seria: quanto você gastou no seu apartamento e quanto você gastou com as baleias?”.

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Critérios
Representantes da Câmara e especialistas destacaram a relevância de qualificar o debate sobre o gasto público.

O deputado Márcio Jerry (PCdoB-MA), presidente do Cedes, disse que governos precisam tomar decisões orientadas por evidências. “Fazer mais com menos deve ser um compromisso inadiável, com a eficiência do gasto público e a melhoria real da vida das pessoas.”

O ministro Nauê Bernardo Azevedo, do Tribunal Superior Eleitoral, ressaltou a importância de entender o desenho das políticas para que o investimento chegue efetivamente à ponta, beneficiando quem mais precisa.

Já o consultor-geral da Câmara, José Evande Araújo, reforçou que a análise de custo-benefício não é um exercício abstrato, mas um “instrumento concreto para melhorar a vida das pessoas”.

A consultora-geral adjunta, Elisangela Moreira Batista, lembrou que, diante da escassez de recursos, as escolhas possíveis devem ser fundamentadas em critérios transparentes e técnicos.

Reportagem – Noéli Nobre
Edição – Ana Chalub

Fonte: Câmara dos Deputados

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