POLÍTICA NACIONAL

Defesa nacional deve ter prioridade no Orçamento, apontam debatedores

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A involução nos investimentos e nos repasses públicos e o consequente impacto na capacidade de defesa nacional mostram que as Forças Armadas e a base industrial de defesa precisam de previsibilidade orçamentária. A afirmativa embasou a audiência pública sobre proposta de emenda à Constituição que destina anualmente pelo menos 2% do produto interno bruto (PIB) para o Ministério da Defesa. O debate foi promovido pela Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) nesta terça-feira (9).

A PEC 55/2023 prevê que um mínimo de 35% dos gastos opcionais em defesa seja aplicado em projetos estratégicos para esse segmento da indústria brasileira, como em armamentos, veículos e tecnologias. De acordo com o Portal da Transparência, o Ministério da Defesa registrou, em 2024, R$ 112,25 bilhões em despesas pagas. 

Autor da PEC, o senador Carlos Portinho (PL-RJ) disse que “temos visto um desinvestimento”, porque o orçamento para a defesa vem sofrendo cortes sucessivos e isso “não é exclusividade desse governo, já vem de longa data”.

— Mais até do que o valor do orçamento, o que essa proposta quer trazer e coloca em discussão é que haja uma previsibilidade orçamentária. Não é possível que o país desenvolva tecnologia, a sua indústria de defesa, construção de submarinos, embarcações, compra de aviões, sem que haja um mínimo de previsão no orçamento — disse o senador.

Portinho afirmou ainda que com potencial de defesa, se inibe que outras nações tenham outros interesses, que não a paz com o Brasil. O senador enfatizou que é preciso permitir que as nossas Força Armadas se planejem.

— Além do mais, há a possibilidade de a gente desenvolver novos produtos. A gente vê o mundo em guerra, a gente vê os drones. A guerra hoje na Ucrânia já evoluiu, é uma guerra de drones, e o Brasil podia estar liderando, porque nós temos conhecimento, nós temos uma indústria de defesa — complementou.

Por ser uma proposta de Estado, a relatoria da PEC, em tramitação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), foi concedida ao líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), que salientou que “a situação no cenário em que está, não pode continuar”.

— Nós temos, e isso não é uma questão de governo, mas uma questão de Estado brasileiro, uma continuada desvalorização dos recursos destinados a nossas Forças Armadas. Isso vem, pelo menos, desde os anos 1990, e tivemos um aprofundamento nos últimos anos. […] Estamos diante de uma circunstância colocada atualmente. Temos de deter a acentuada desvalorização, o sucateamento, a perda de recurso das nossas Forças Armadas, sobretudo porque estamos em um mundo cada vez mais belicoso — afirmou Randolfe.

Assim como os senadores Chico Rodrigues (PSB-RR) e Sergio Moro (União-PR), o senador Jorge Seif (PL-SC) declarou apoio à PEC. Ele afirmou que a proposta é uma decisão estratégica para a soberania e segurança nacional. Seif afirmou que, em 2023, o Brasil investiu 0,8% do PIB, enquanto a média global gira em torno de 1,98% do PIB.

— Cuidar do nosso território exige Forças Armadas modernas, equipadas e respeitadas. Fortalecer o orçamento das nossas Forças Armadas é acima de tudo respeito a esses homens e mulheres que cuidam especialmente das nossas fronteiras. […] Investir em defesa é investir em liberdade, paz e desenvolvimento — afirmou Seif.

General da reserva, o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) afirmou que nos últimos 30 anos as Forças Armadas têm vivido com muitas dificuldades.

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— Faz parte da nossa visão estratégica a dissuasão, e dissuasão só existe se tivermos uma Força Armada devidamente equipada e adestrada. A dissuasão é fundamental para um país como o nosso, que não pretende projetar poder fora de nossas fronteiras, mas não pode admitir que essas fronteiras, sejam elas marítimas, aéreas ou terrestres, sejam violadas — expôs Mourão.

Para o senador Esperidão Amin (PP-SC), não tem cabimento um país como o Brasil não honrar os compromissos a médio e longo prazo com a defesa nacional.

— Resultado, as três Forças Armadas convivem hoje com expectativas complicadas. […] Essa reunião tem que apontar sim os riscos que estamos correndo, tanto em termos de Marinha, Aeronáutica e de Exército. […] O governo de plantão tem o compromisso de conduzir o seu turno com a informação das consequências de sua negligência, de sua desatenção ou de seu desvelamento da realidade — disse Amin.

Marinha

Com 7,5 mil quilômetros de litoral, o Brasil enfrenta ameaças ao longo da costa brasileira, com casos já registrados de sombreamento dos cabos marítimos (ameaça de interrupção), incidentes de poluição hídrica e trajetória de navio militar estrangeiro na costa. Para o Almirante de Esquadra Alexandre Rabello de Faria, diretor-geral de desenvolvimento nuclear e tecnológico da Marinha, hoje, “a nossa capacidade de defender o país em mundo cada vez mais conflituoso é questionável”.

— Por isso, nós saudamos essa PEC, que visa a defesa nacional, mas também uma visão muito importante e muito apropriada que é o desenvolvimento da nossa indústria de defesa e consolidação das nossas empresas no setor.

Para o almirante, o Brasil está destoante da realidade mundial, principalmente por ser um país, do ponto de vista econômico, muito importante no cenário global.

— Essas coisas, a meu ver, estão um pouco dissociadas, infelizmente. […] No caso do Marinha, nós tivemos, nos últimos dez anos, uma involução de orçamento de 62%. Isso traz consequências. E a consequência imediata é a redução da nossa quantidade de meios para defender o país.

Aeronáutica

A primeira grande consequência de ter investimento aquém do necessário para a manutenção da capacidade operativa é, segundo o chefe do Estado-Maior da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do Ar Walcyr Josué de Castilho Araújo, a diminuição abrupta de 40%, nos últimos dez anos, da quantidade de aeronaves em condições de operar.

— Outra coisa é a quantidade de horas de voos que a Força Aérea voa anualmente. Nosso esforço aéreo, nós reduzimos ao longo desses dez anos em praticamente 50%. Na medida que temos menos recursos, nós não conseguimos voar essa quantidade de horas e nós temos naturalmente que fazer uma degradação na nossa capacidade operativa. Nossas aeronaves estão em piores condições e nossas tripulações ficam com treinamento sempre aquém daquele que nós temos por ideal — expôs o chefe da Aeronáutica. 

Diante dessa realidade, a Aeronáutica tem assistido evasão de seus pilotos, “que entenderam que teriam condições melhores para manter suas atividades aéreas se estivessem voando na aviação comercial”, o que tem resultado em casos de pedido de demissão da Força Aérea.

A Aeronáutica tem projetos estratégicos que tem por objetivo substituir equipamentos que estão no limite do tempo de vida e que funcionam como investimento da FAB ao alcance de missões, segundo o tenente-brigadeiro.

— Falamos da necessidade de adquirir armamentos, mísseis, drones — que é vital para que a Força Aérea esteja a altura de enfrentar os novos desafios tecnológicos —, investimento em artefatos ligados ao espaço, dos satélites, das nossas bases de lançamento e, claro, da nossa aeronave de caça, de transporte — disse Araújo.

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Exército

Chefe do Escritório de Projetos Estratégicos do Exército, o general de Divisão Everton Pacheco da Silva enfatizou que “cada real investido em defesa gera retorno para a economia, gera retorno para o Brasil”. O Escritório trabalha com 73 projetos, dos quais um terço não foi iniciado por falta de recursos, segundo o general. Alguns tem previsão de recursos para 2026 e os realmente implantados são apenas 26.

— O pouco recebimento de recursos implica aumento daquilo que foi previsto, que foi discutido entre os nossos contratos e com a base industrial de defesa vai ser estendido, provavelmente, em anos. […] A PEC da previsibilidade é extremamente importante para nós. A previsibilidade e o montante adequado de recursos — expôs o general.

Indústria

Presidente da Indústria de Material Bélico do Brasil (Imbel), o general de Divisão Ricardo Rodrigues Canhaci chamou atenção para a interseção entre as três Forças Armadas quanto ao fato de a redução orçamentária provocar aditivos na execução das compras, diante de projetos estratégicos que são sucessivamente postergados o que, consequentemente, impacta na indústria.

— Nós temos que garantir a sustentabilidade econômica e financeira da empresa e a sua longevidade. E quando nós estamos tratando de equipamentos e produtos de defesa, a longevidade é fundamental porque temos de garantir o ciclo de vida desses equipamentos, por 10, 20, até 40 anos. Se a indústria não sobrevive ao tempo, as Forças ficam sem poder manter essa estrutura tão cara, tão dispendiosa, que foi construída pelo país — disse Canhaci.

Vice-presidente de Contratos da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer), Fábio Henrique Caparica Santos destacou que mais de 60 forças armadas e governos utilizam os produtos da empresa, que além da aviação comercial e executiva, atende a defesa e a segurança. No Brasil, a Embraer atende a FAB, com o KC-390, o A-29 Super Tucano e o F-39 Gripen; o Exército com programa Radares e a Marinha com fragatas Tamandaré.

— O encaminhamento desses projetos está altamente dependente da questão orçamentária e anualmente nós trabalhamos, enquanto base da defesa, nesses projetos, junto com as Forças, no desafio de compatibilizar os cronogramas, os contratos, com o orçamento disponível e fazer com isso, o melhor encaminhamento — afirmou Santos.

Segundo o diretor comercial da Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), Paulo Ricardo Gomes, há que se torcer para que a PEC passe “pois os contratos plurianuais de fornecimento de insumos trazem uma redução extremamente grande ao custo do produto e à capacidade de compra de todas as Forças”.  

A audiência também teve a participação do diretor de Relações Institucionais de AEL Sistemas, Sebastian Wantenberg; do representante de Empresa Brasileira Helibras/Airbus Helicopters, Bruno Schweter, dos diretores da Naval Group, na América Latina e no Brasil, Laurent Mourre e Nicolas Viala; do diretor de Operações da Condor Tecnologias Não Letais, Luiz Cristiano Valim Monteiro; do presidente do Grupo Empresarial Thyssenkrupp América do Sul, Paulo Alvarenga e do presidente da Stella Tecnologia Industria e Comercio Aeroespacial, Gilberto Buffara Junior.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

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Discussão sobre fim da escala de trabalho 6×1 continua em agosto

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O fim da chamada escala 6×1, com seis dias de trabalho e um de folga por semana, seguirá em discussão no Senado em agosto, após o recesso parlamentar. A expectativa de alguns senadores é de que a PEC 221/2019 seja votada após a volta dos trabalhos.

Além de acabar coma escala 6×1, a proposta reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem redução de salários.

O texto chegou ao Senado no fim de maio, após aprovação na Câmara dos Deputados. O presidente da Casa, senador Davi Alcolumbre, determinou que a proposta passasse pelas comissões.

O presidente do Senado tem se reunido com os setores interessados no tema para discutir a proposta. No início de julho, a reunião foi com as centrais sindicais, que defenderam o avanço na análise do texto. Antes, em maio, ele já havia recebido integrantes dos empregadores, que defenderam a votação da proposta somente após as eleições.

Agosto

Em entrevista na segunda-feira (13), o líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (PT-AP) afirmou que o fim da escala 6×1 é “prioridade absoluta” para o governo e que continuará trabalhando para que a votação ocorra assim que possível.

—  Mesmo no período das eleições, o Senado vai funcionar em esforços concentrados e remotamente. Não impede que possamos ainda votar a PEC do fim da escala 6×1 em agosto. Nós vamos, ainda, insistir em avançar sobre essa proposta de emenda à Constituição ainda nesse período.

As semanas de esforço concentrado serão entre 10 e 14 de agosto e entre 31 de agosto e 3 de setembro, e devem coincidir com os esforços concentrados na Câmara, conforme anunciado por Davi Alcolumbre na quarta-feira (15).

— O calendário é exatamente o mesmo que será adotado pela Câmara dos Deputados, permitindo que o Congresso Nacional funcione em plenitude e de modo eficiente e harmônico — informou Davi.

Defesa

Em pronunciamentos recentes, o senador Paulo Paim (PT-RS), um dos principais defensores da proposta, disse ter esperança de que a votação ocorra em agosto. Para ele, o debate sobre a redução da jornada não “pertence” ao governo, à oposição e nem aos partidos políticos, e sim ao povo.

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— Tenho muita esperança de que a PEC vai ser votada no mês de agosto, porque, com certeza, o trabalhador brasileiro sabe que não vai nadar, nadar e morrer na beira da praia. Espero que esta Casa compreenda a dimensão histórica dessa decisão — defendeu.

Para Paim, o fim da escala 6×1 fará a produtividade do trabalhador brasileiro aumentar, ao invés de diminuir. Ele argumentou que países com jornadas menores apresentam índices mais elevados de produtividade por hora trabalhada.

Também em defesa do avanço na análise da PEC, o senador Cleitinho (Republicanos-MG) comparou a jornada dos trabalhadores à dos parlamentares. Ele lembrou que o período de campanha eleitoral começa em agosto e disse que o eleitor precisa cobrar seus representantes.

— Muitos que vão aí pedir voto para você não querem votar o fim da escala 6×1, querem fazer você trabalhar igual a um condenado no 6×1, e nós aqui trabalhando, durante este ano de 2026, o que não vai dar nem um mês de trabalho, do jeito que está aí — criticou.

Eleições

Outros senadores demonstram preocupação com os efeitos da PEC e defendem que a votação fique para depois das eleições. Em sessão temática no início de julho, o líder da oposição, senador Rogerio Marinho (PL-RN), defendeu o amadurecimento do debate e a discussão do tema fora do período eleitoral. 

— Não é proibido, não é interditado discutirmos jornada de trabalho. Pelo contrário, é uma discussão que tem que acontecer. Mas por que agora? Por que neste momento? — questionou o senador.

No mesmo debate, o senador Jayme Campos (União-MT) afirmou que votará a favor da PEC, mas defendeu que o debate seja feito com serenidade e que todos os setores sejam ouvidos para que a solução seja equilibrada.

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— Estamos falando da vida de milhões de brasileiros, de tempo dedicado à família, ao descanso, à qualificação profissional e, ao mesmo tempo, da competitividade das empresas e da capacidade de gerar empregos. É justamente por isso que este debate exige serenidade, responsabilidade e diálogo — ponderou.

Outras propostas

Também na sessão temática, o senador Jaime Bagattoli (PL-RO) criticou a falta de estudos de impacto econômico e social da medida durante a análise na Câmara e afirmou que a PEC vai ter consequências negativas na economia.  Ele defendeu a aprovação de outra proposta em análise no Senado.

— Defendemos a PEC 12/2026, que permite ao trabalhador negociar uma jornada flexível de acordo com as suas necessidades. Direitos como férias, décimo terceiro e FGTS seguirão de forma proporcional à jornada acordada — garantiu.

A proposta foi apresentada pelo senador Rogerio Marinho logo após a chegada da PEC 221 ao Senado. Pela proposta, seria possível escolher entre o regime comum previsto pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) ou um regime flexível baseado em horas trabalhadas. A PEC deixa claro que o contrato individual prevalece sobre possíveis acordos coletivos. Benefícios como FGTS, férias e 13º salário também seriam proporcionais às horas trabalhadas.

Na Câmara, a PEC 221 era analisada junto com outra proposta, a PEC 8/2025, da deputada Érika Hilton (PSOL-SP), que previa uma carga máxima de 36 horas em quatro dias de trabalho. O texto foi arquivado.

Outro projeto, o PL 1.838/2026, foi apresentado em abril pelo Executivo. Ele define em 40 horas semanais o limite da jornada normal de trabalho e garantir ao trabalhador dois repousos semanais remunerados de 24 horas consecutivas. Após a aprovação da PEC 221, o governo retirou o pedido de urgência para o projeto, que segue em análise na Câmara.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

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