POLÍTICA NACIONAL
Rico Melquiades admite acordo com Ministério Público, mas nega ilegalidades
Publicado em
14 de maio de 2025por
Da Redação
O influenciador digital Luiz Ricardo Melquiades, conhecido como Rico Melquiades, admitiu à CPI das Bets que assinou um acordo com o Ministério Público de Alagoas que evita processo penal relativo a investigações sobre divulgação irregular de jogos de apostas on-line (acordo de não persecução penal). Ele prestou depoimento à CPI nesta quarta-feira (14).
Convocado como testemunha, Rico manteve silêncio sobre o conteúdo do acordo por ser sigiloso e afirmou que houve vazamento. Ele afirmou que não fez nada ilegal e que desconhecia supostas atividades investigadas de lavagem de dinheiro relacionadas a organizações criminosas.
— Eu fazia [propaganda para] a Blaze. Eu desconheço esse negócio de formação de quadrilha. A minha relação com as plataformas de apostas foi só como influenciador; fiz campanhas publicitárias. Tudo foi documentado de forma legal. Eu sempre segui as regras que eram vigentes na época — declarou Rico, que se comprometeu a entregar cópia dos contratos aos senadores.
Relatora da CPI, a senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS) questionou três postagens de divulgação de apostas feitas por Melquiades entre 2023 e 2024, em que ele apenas apresenta a logomarca da empresa. Segundo Soraya, apesar de o período ser anterior às regras para publicidade no setor vigentes a partir de 2025, as divulgações não observaram outras normas de propaganda.
— Contraria o Código do Consumidor, que garante ao público o direito à informação clara e adequada sobre o produto que você divulga. Também contraria as regras do Conar [Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária], que exigem que toda publicidade feita por influenciadores esteja devidamente identificada — disse a senadora.
As apostas esportivas on-line e os jogos de azar on-line tiveram o primeiro passo para a legalização em 2018, com a Lei 13.756, que exigia a regulamentação do Poder Executivo. O setor recebeu novas regras em 2023 (Lei 14.790) e, após seis meses de transição, passou a ter a regulamentação totalmente vigente a partir de janeiro de 2025.
Investigação
A informação do acordo de não persecução penal, feito depois de abril de 2025, veio do senador Izalci Lucas (PL-DF), que citou trechos do documento. Esse acordo é uma negociação promovida entre o Ministério Público e o investigado, e prevê o cumprimento de certas condições.
— O senhor confessou formalmente a sua participação nos crimes de associação criminosa e falsidade ideológica no contexto da promoção do “jogo do tigrinho”. Essa confissão resultou na homologação de um acordo que incluiu um pagamento de multa de R$ 1 milhão. O que motivou a mudança da sua posição inicial, em que negava qualquer irregularidade? — indagou o senador.
O advogado de Rico Melquiades, Diego Luiz Cavalcanti Duca, afirmou que as informações de Izalci se referem à investigação da operação Game Over 2, da Polícia Civil de Alagoas, “e não necessariamente que ele confessou”.
Alertas de risco
Em resposta a Soraya, Rico disse que sua forma de fazer a propaganda das bets não mudou após o acordo com o Ministério Público. Segundo ele, essa não é a sua única fonte de renda — o depoente lembrou que foi vencedor do programa de televisão A Fazenda e já realizou diversas peças publicitárias.
— Eu sempre tive o critério que eu tenho até hoje, que foi sempre falar dos riscos que você tem quando joga. Sempre deixava muito claro: “Olha, você pode conseguir pagar uma conta de energia, uma conta de água, mas jogando com cautela”. Nunca mostro ganhos altos quando eu divulgo. Nunca falei: “Olha, você vai jogar e você vai comprar um carro”. Eu [também] posto apertando o botão [do jogo] e perdendo. Eu paro quando eu ganho. Hoje existe uma imagem que eles mandam para a gente colocar nela a numeração da regulamentação, falando que é para maiores de 18 anos — declarou Rico.
Izalci, por sua vez, criticou influenciadores que “fazem propaganda dentro de iate de luxo, demonstrando subliminarmente que [o iate] foi fruto do jogo”. Já o senador Dr. Hiran (PP-RR), presidente da CPI das Bets, apontou que os avisos “não são enfáticos” o suficiente.
— Às vezes, influencers mostram uma vida que gera uma ansiedade tremenda nas pessoas, e essa ansiedade gera depressão, uma sensação de que não se está construindo nada na vida — observou Hiran.
Ludopatia
Ao responder a outro questionamento de Soraya, Rico afirmou que não conhecia o termo “ludopatia”, transtorno mental que se refere ao vício em jogos de aposta. Na opinião da senadora, uma “pandemia de ludopatia está acometendo o nosso país”.
— [Ludopatia] é o que o senhor promove. Nós temos recebido um número muito significativo de relatos de pessoas que estão viciadas. Famílias que foram à bancarrota, pessoas devendo para agiotas, pessoas que ceifaram suas vidas…
Segundo Rico, as restrições à propaganda das bets devem vir do Congresso Nacional. E argumentou que alertar sobre os riscos é o que ele pode fazer.
— Eu não obrigo ninguém a jogar. Antes [das bets e dos influenciadores] já existia jogo do bicho, loteria. Não mudou muita coisa. E do mesmo jeito que tem pessoas que se endividam para jogar, tem pessoas que se endividam para beber.
O senador Eduardo Girão (Novo-CE) — assim como fez com a influenciadora Virgínia Fonseca, que compareceu à CPI na terça-feira (13) — sugeriu que Rico, que possui mais de 10 milhões de seguidores na rede social Instagram, deixasse de realizar esse tipo de propaganda.
— Nem tudo que é legal é moral. Não é só jogar a culpa no Congresso Nacional; o senhor tem também o livre arbítrio — enfatizou Girão.
Para a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), os congressistas devem “trazer para as bets as regras do cigarro”.
— A gente vai ter de tomar uma decisão: influenciador não divulgar mais bets. O que a gente pode fazer é fechar a torneira. Que eles encontrem um outro produto; o Rico vai encontrar — defendeu a senadora.
Nova empresa
Rico também informou que há cerca de um mês possui contrato de exclusividade com outra empresa de apostas, a ZeroumBet. Segundo ele, o contrato é de cachê fixo, sem “metas para bater” e sem ganhos variáveis, para realizar quinze postagens por mês no Instagram.
Segundo Soraya, a influenciadora Deolane Bezerra — que já foi convocada pela CPI, mas não compareceu — já foi sócia da ZeroumBet. A relatora também ressaltou que a empresa trocou de dono de forma suspeita nos últimos meses; Soraya afirmou que a advogada de Deolane, Adélia de Jesus Soares, passou sua parte na sociedade da Zeroumbet para a esposa ou um parente de Daniel Pardim, que foi preso na CPI sob acusação de falso testemunho.
Aos senadores, Rico afirmou que conhece Deolane — que chegou a ser presa em uma operação da polícia civil de Pernambuco —, mas que não sabia que ela tinha sido sócia da empresa para a qual agora faz publicidade.
Adélia foi convocada para depor juntamente com Rico, mas não compareceu, amparada por decisão do Supremo Tribunal Federal.
Demonstração
A pedido dos senadores, o influenciador demonstrou em um aparelho celular como funcionam os jogos on-line. Soraya avaliou que as informações sobre as possibilidades de ganho na plataforma não são claras.
Os parlamentares questionaram se o influenciador utilizava uma “conta de demonstração” em que empresas de apostas disponibilizariam plataformas ou contas especiais (a quem divulga a empresa) para que os resultados anunciados sejam positivos para fins de publicidade. O convocado afirmou que nunca utilizou isso.
— Eu posso falar do que eu divulgava, que eu perdia e ganhava também… Não tenho conhecimento [de outros artifícios como “contas de demonstração”]. Desde janeiro [após a regulamentação], eu crio o meu usuário. Tem que botar seu documento, seu CPF. Eu que boto dinheiro na conta para fazer as divulgações — disse ele.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
POLÍTICA NACIONAL
Levantamento inédito do DataSenado confirma violência contra trans e travestis
Published
27 minutos agoon
23 de junho de 2026By
Da Redação
Agressões, constrangimentos em espaços coletivos, discriminação no mercado de trabalho, problemas no atendimento em órgãos públicos e violência sexual. Essas são algumas das situações relatadas por mulheres transexuais e travestis entrevistadas na 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do DataSenado. O levantamento mostra que 56% das entrevistadas passaram por situações de violência nos últimos 12 meses.
Conduzida entre maio e julho de 2025 pelo DataSenado, em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), a edição mais recente da pesquisa traz um recorte inédito, específico sobre as mulheres trans. Das 43 entrevistadas que se identificaram como trans ou travestis, 40% relataram agressões verbais associadas diretamente à sua identidade de gênero. Outras 17% disseram terem sido agredidas fisicamente e 12% sofreram violência sexual no último ano.
Rolf Regehr, psicólogo e chefe do serviço de pesquisa e análise do DataSenado, ressalva que a falta de dados populacionais oficiais sobre mulheres trans e travestis no Brasil restringe análises com maior precisão estatística. Mas os dados desse novo recorte da pesquisa, explica, ajudam a entender aspectos como a naturalização das violências sofridas, detectada nas entrevistas.
— [Os resultados da pesquisa] são achados exploratórios sobre o grupo entrevistado. A pesquisa, nesse sentido, procura contribuir para uma compreensão mais precisa de aspectos relevantes de suas vivências, como nesse caso, a recorrência e naturalização das violências sofridas — diz Regehr.
Naturalização das agressões
Para o psicólogo, a naturalização das agressões no cotidiano fica clara quando muitas das situações enfrentadas diariamente por essas mulheres sequer são identificadas prontamente como violência. Apenas 4% das entrevistadas afirmaram, inicialmente, ter sofrido violência de gênero. Depois, quando questionadas situações específicas, 56% delas afirmaram ter passado por algumas delas no último ano.

Foi o medo de passar por situações como essas que fez a escritora Rafaela Miranda, de 37 anos, parar de frequentar certos espaços públicos, como banheiros coletivos.
— Eu não frequento de forma alguma. Prefiro ficar me segurando, porque sei que se eu entrar num banheiro público as pessoas vão começar a olhar de forma diferente, já que não tenho “passabilidade” — diz Rafaela, usando o termo que se refere ao reconhecimento social das mulheres trans como mulheres.
A violência de gênero, no caso de Rafaela, também se mostra no tratamento por pronomes masculinos, mesmo com todos os documentos retificados e a identificação como mulher trans.
De acordo com a antropóloga Beatriz Accioly, essas exclusões, pela frequência com que acontecem, podem acabar sendo naturalizadas e fazer com que mulheres trans entendam que determinados espaços não são feitos para elas.
— Quando uma mulher é hostilizada na rua, mal atendida em um serviço público ou tem sua identidade constantemente questionada, ela recebe a mensagem de que aquele espaço não foi feito para ela. Esses episódios produzem medo, restringem a circulação e afetam o acesso a direitos — explicou ao DataSenado Beatriz, que é gerente de políticas públicas pelo Fim da Violência Contra Mulheres no Instituto Natura, parceiro no Mapa Nacional da Violência de Gênero.
Mesmo nos serviços públicos, as mulheres trans relatam episódios de mau atendimento e transfobia. É o caso de uma das mulheres entrevistadas pela pesquisa, moradora do Distrito Federal, que relatou dificuldade ao procurar serviços de saúde: “Só por eu falar meu nome de mulher, né? Ele falava meu nome de homem, e eu pedindo pra falar meu nome de mulher, e não queriam me atender como mulher.”
Tornar essas experiências visíveis, explica Vitória Régia da Silva, diretora executiva da organização Gênero e Número — também parceira do Senado no mapa —, é um passo fundamental para ampliar a produção de evidências, fortalecer políticas de proteção e garantir que mulheres trans e travestis sejam incluídas no debate público sobre enfrentamento à violência de gênero.
Violência Doméstica
Das entrevistadas, 47% disseram já ter sofrido violência doméstica. Para 70% das vítimas, a violência afetou o convívio com outras pessoas e para 55%, a rotina diária. A vida profissional (45%) e os estudos (35%) também são prejudicados pela violência, que é, na maior parte das vezes, psicológica.

Mercado de trabalho
No mercado de trabalho, a exclusão das mulheres trans e travestis também fica clara. Apesar de ser qualificada, Rafaela tem dificuldade de conseguir emprego e relata que o comportamento dos recrutadores muitas vezes muda quando ela se identifica como uma mulher trans.
— Mandei um currículo para uma empresa. A pessoa começou conversar comigo pelo WhatsApp, me tratou bem, elogiou meu currículo. No final da entrevista, eu sempre aviso que sou transexual, para não ter o constrangimento de chegar no dia da entrevista presencial e ficarem me tratando diferente, né? Assim que eu falei que era transexual, a empresa simplesmente parou de me responder — lamenta.
A dificuldade relatada por Rafaela aparece nos resultados da pesquisa, com 26% das entrevistadas tendo declarado que não conseguem se sustentar. “Tenho três formações, chego pra fazer entrevista vejo no olhar do entrevistador que não vai me chamar”, disse uma das mulheres entrevistadas, do Paraná.
— Então o que está em avaliação não é a competência, não é a formação, não é o quanto a pessoa estudou, é ela ser trans. São pessoas capacitadas em alguma profissão, mas que não conseguem emprego, ou só conseguem com renda muito baixa — disse Rolf ao comentar o resultado da pesquisa.
Das mulheres ouvidas no levantamento, 51% se declararam ocupadas e 42% estão fora da força de trabalho. Outras 7% estão desocupadas. Em relação à renda, 56% das mulheres ganham menos que dois salários mínimos, 19% ganham entre dois e seis salários mínimos e 14%, acima de seis. Outras 12% não quiseram ou souberam informar.
Copeira do Senado há dois anos, Scarlety Pereira só teve a primeira carteira de trabalho assinada aos 30 anos. Para ela, é preciso dar oportunidades para que as mulheres trans possam deixar o rótulo de que nasceram para servir, inclusive na prostituição.
— O Senado me deu oportunidade de estudar. Hoje eu faço jornalismo e secretariado. Graças a Deus, esse trabalho me deu a oportunidade de aprender e de poder me colocar em um lugar melhor na sociedade — comemora.
Mapa Nacional
O recorte sobre mulheres trans e travestis estará disponível, a partir de quinta-feira (25), na página “Pesquisa Nacional” do Mapa Nacional da Violência de Gênero, uma parceria entre o Senado, o Instituto Natura e a Gênero e Número, que reuniram seus projetos em uma plataforma pública e interativa com dados sobre a violência de gênero no Brasil.
Criado em 2016 pelo Senado, o Observatório da Mulher contra a Violência reúne, analisa e divulga dados sobre a violência de gênero no Brasil. Em parceria com o Instituto DataSenado, produz e integra informações para subsidiar políticas públicas e alimentar o intercâmbio entre as principais instituições envolvidas no enfrentamento à violência contra mulheres.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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