POLÍTICA NACIONAL

Estudantes e especialistas cobram estratégias antirracistas no novo Plano Nacional de Educação

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Estudantes e representantes da sociedade civil exigiram estratégias antirracistas e antissexistas no novo Plano Nacional de Educação (PNE), proposto no Projeto de Lei 2614/24, em análise na Câmara dos Deputados, que traz metas e diretrizes de ensino até 2034.

A superação de variadas desigualdades e violências em ambiente escolar é uma das metas, segundo Benilda Brito, do N’zinga Coletivo de Mulheres Negras. “Se você perguntar por passagens de racismo na escola, todos, todas e todes vão poder dizer”, lamentou.

Durante o debate, realizado na Comissão de Educação na última quarta-feira (23), Benilda Brito também alertou para a evasão escolar e cobrou políticas que garantam não só o acesso, mas a permanência de crianças e adolescentes nas escolas. “Há salas de aula de ensino médio que têm vagas e não têm criança. Uma educação antirracista garante o acesso, a permanência e o sucesso de pessoas negras na escola”, enumerou.

Ela denunciou ainda a violência contra jovens pretos. “O projeto de educação que o País tem para nós, povo preto, começa no útero, quando a mãe engravida, e termina no cárcere. Isso para aqueles que não passam pelo genocídio, porque a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no País”, disse.

Vinicius Loures/Câmara dos Deputados
Audiência Pública - Educação Antirracista e Antissexista no Brasil no Novo Plano Nacional de Educação. Dep. Dandara (PT - MG)
Dandara: “Não pode e não deve ser normal a escola ser um lugar que causa dor”

Desigualdade
O Ministério da Educação enfrenta o problema por meio da Política Nacional de Equidade para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola, criada no ano passado.

Coordenadora dessa área na pasta, Lara Vilela mostrou dados da persistente desigualdade entre crianças e jovens brancos e negros nas escolas, a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad):

  • De 0 a 3 anos de idade, por exemplo, 40% das crianças brancas estavam em creches em 2019, enquanto as negras não passavam de 34%.
  • No ensino médio, 80% dos jovens brancos de 15 a 17 anos frequentaram ou concluíram o curso em 2021; entre os negros, esse índice ficou em apenas 70%.
  • Outro dado revela que 52% dos estudantes indígenas não dispõem de escola com infraestrutura adequada.
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“Não é possível manter essa desigualdade persistente que houve ao longo dos anos. O PNE precisa trazer metas claras da desigualdade que a gente precisa enfrentar”, reforçou Vilela.

A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Quilombolas, o Coletivo N’Zinga e o Instituto de Estudos Socioeconômicos desenvolvem o Projeto Dandaras e Carolinas com foco em políticas antirracistas e inspirado na heroína Dandara dos Palmares e na escritora Carolina Maria de Jesus.

Violência
A meta é combater violências como as enfrentadas da creche ao ensino médio pela estudante Luísa Paiva, em Minas Gerais. Hoje com 17 anos, Luísa relembrou racismos disfarçados de bullying que a fizeram se entender como negra de forma bem violenta para uma criança ou uma adolescente.

“Eu acho que me tornei negra na creche: tinha uma colega que excluía todas as três meninas pretas da sala e falava que todo lugar em que a gente encostava tinha bactéria, mas ela era protegida por uma professora branca que também me odiava”, contou Luísa.

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No primeiro ano do ensino fundamental, Luísa relatou que um colega puxou seu braço e comparou sua cor com a de um pneu. Já na adolescência, a estudante denunciou o assédio, mas nada aconteceu. “Eu me tornei mulher na escola também: no sexto ano, naquela fase em que meninas menstruam, criam corpo e têm muitos hormônios, os colegas começaram a fazer brincadeira de bater na minha bunda e me sexualizar, falando que só ficariam comigo por causa do meu corpo. Depois de um tempo, eu entendi e denunciei, mas nada aconteceu”, relatou.

Inclusão
Organizadora do debate, a deputada Dandara (PT-MG) afirmou que o novo PNE deve buscar uma educação inclusiva, transformadora e laica. “Não pode e não deve ser normal a escola ser um lugar que causa dor. Nós temos que ter boas memórias do processo de aprendizagem e de escolarização. Para mudar, a gente vai ter que enfrentar tudo isso. De fato, sem formação dos professores e sem material didático, a gente não vai ver diferença.”

Dandara e os debatedores criticaram o atraso na implementação das leis 10.639/03 e 11.645/08, que tratam da obrigatoriedade do ensino da história afro-brasileira e indígena nas escolas.

Única negra no Conselho Nacional de Educação, a professora e pesquisadora Givânia da Silva pediu que estados e municípios também incorporem estratégias antirracistas e antissexistas em seus respectivos planos de educação.

Reportagem – José Carlos Oliveira
Edição – Geórgia Moraes

Fonte: Câmara dos Deputados

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POLÍTICA NACIONAL

Dignidade da pessoa idosa recebe incentivo em debate na CDH

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As políticas de proteção à pessoa idosa foram tema de audiência pública da Comissão de Direitos Humanos (CDH) nesta segunda-feira (15). A iniciativa foi da presidente do colegiado, senadora Damares Alves (Republicanos-DF), para dar visibilidade à campanha anual Junho Violeta, que mobiliza poder público, famílias e sociedade civil durante todo este mês no país.

O debate também teve como finalidade analisar as políticas públicas e fortalecer a articulação entre Parlamento, Poder Executivo, sistema de Justiça e a população brasileira. De acordo com Damares, a política de atenção ao idoso precisa ser inteiramente revisada no país, “desde a lógica do orçamento da União até o fortalecimento das instituições competentes”.

— Estamos diante de quadros de agravamento de agressões psicológicas, sexuais, patrimoniais e institucionais, além de situações de negligência e abandono. Essas violações atingem diretamente a dignidade da pessoa humana e demandam respostas coordenadas dos poderes públicos, dos órgãos de proteção e da igreja, a quem trago também para essa discussão, bem como da sociedade em geral — disse a senadora.

Sensibilização

Celebrado em 15 de junho, o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa foi instituído em 2011 pela Organização das Nações Unidas (ONU) para sensibilizar a sociedade sobre essa temática. Segundo Damares, tanto o dia mundial quanto a campanha Junho Violeta reforçam a necessidade de conscientização sobre esse tema, diante do acelerado processo de envelhecimento da população brasileira.

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), citados pela senadora, as pessoas idosas já representam cerca de 9% da população brasileira, somando mais de 30 milhões de brasileiros. A projeção de crescimento é de 25% até 2060, o que corresponderá a cerca de 90 milhões de cidadãos.

—  Esse cenário impõe ao Estado brasileiro o dever de antecipar e estruturar respostas adequadas às demandas decorrentes dessa transição demográfica —  pontuou Damares.

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Convite à ação

Coordenadora de Atenção à Saúde da Pessoa Idosa do Ministério da Saúde, Camila Maria Mendes Nascimento frisou que todos os aspectos relativos à segurança dos idosos são de responsabilidade coletiva. Conforme a convidada, a expectativa de vida chega hoje a 76,3 anos. Em 2010, era de 73,8 anos.

Camila apresentou levantamento, segundo o qual a violência contra pessoas idosas cresceu 226% em dez anos, sendo os mais atingidos os idosos na casa dos 80 anos ou mais, em âmbito domiciliar. Em boa parte dos casos, os crimes são cometidos por familiares e cuidadores, segundo a debatedora.

De acordo com Camila, aproximadamente 70% das vítimas de violências não letais são mulheres. Já os homens negros e idosos tiveram taxa de 1,7 vezes maior de agressões do que os não negros e com mesma idade no período, informou a debatedora.

Ao alertar para o fato de que a violência não é consequência natural do envelhecimento, a representante do Ministério da Saúde frisou que todos devem estar atentos aos sinais de agressão contra esse público.

— Trazer os dados é importante porque nos ajuda a agir. Abusos físicos e psicológicos lideram as notificações, mas estima-se que a dimensão real do problema seja ainda maior, devido à subnotificação. A violência decorre da desvalorização da pessoa idosa e da negação de seus direitos, e a intervenção precoce para combater esse problema exige dos profissionais e da sociedade um olhar atento a todos os sinais comportamentais — observou Camila.

Assistência social

Coordenadora-geral de Proteção Social Especial de Média Complexidade do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS), Daniella Jinkings frisou que a população idosa do país é heterogênea, com histórias, identidades, crenças e trajetórias de trabalho diversificados. Na opinião da convidada, o idadismo — o preconceito por idade — é uma das maiores formas de violência enfrentada por esse grupo, aliado ao abandono, à autonegligência e às dependências emocional e financeira, que agravam os problemas.

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Daniella informou que o atendimento no Sistema Único de Assistência Social (Suas) tem abordagem pautada na autonomia dos idosos e na promoção da convivência, com foco nas famílias. Ela ressaltou, no entanto, que a iniciativa tem financiamento insuficiente e não vinculado, o que compromete a continuidade e a expansão dos serviços. Para solucionar a questão, Daniella pediu que o Senado analise a PEC 7/2026. Já aprovada pela Câmara, a proposta destina um percentual mínimo da receita corrente líquida anual da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios para garantir a proteção social.

Damares afirmou que aguarda a distribuição da proposta para as comissões do Senado e que atua para ser designada relatora da matéria. 

Agenda permanente

Ao ressaltar que a agenda em favor dos idosos é permanente, Damares frisou que a campanha Junho Violeta está “alinhada aos princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana e da proteção aos grupos em situação de vulnerabilidade”. Ela mencionou a criação da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Pessoa Idosa, no âmbito do Poder Legislativo, que ajuda a articular esforços na temática.

Para Damares a audiência “reafirma o compromisso do Senado com a promoção do envelhecimento digno, seguro e em respeito aos direitos humanos”.

Também participaram do debate a chefe de gabinete da Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), Lucélia Luiz Pereira, o gerente de Estudos e Análises da Dinâmica Demográfica da Diretoria de Pesquisas do IBGE, Márcio Mitsuo Minamiguchi, o presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), Leonardo Brandão de Oliva, e o influenciador digital Benedito da Vozinha.

Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)

Fonte: Agência Senado

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